A revolução do pangaré

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Em uma postagem nas redes sociais, o ex-governador do Acre e pré-candidato ao Senado pelo PP, Gladson Cameli — condenado pelo Superior Tribunal de Justiça a 25 anos e nove meses de prisão por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitação — fez uma celebração da Revolução Acreana que destoa de nossa realidade e da identidade histórica de nosso povo.

Montado em um cavalo durante uma das cavalgadas que abrem as muitas festas agropecuárias do Acre, o político aparece vestido segundo a estética country e segurando a bandeira do estado para homenagear o 6 de Agosto.

A imagem pouco (ou nada) tem a ver com a identidade acreana e está completamente desconectada da paisagem em que nossa história foi construída. Afinal, a Revolução Acreana não foi uma cavalgada por campos de pastagem. Plácido de Castro e seu exército de seringueiros não enfrentaram as forças bolivianas em meio ao pasto do gado e ao som de berrantes.



A guerra foi travada dentro da floresta, entre rios, barrancos, varadouros e trincheiras. Na madrugada de 6 de agosto de 1902, os revolucionários chegaram a Xapuri em canoas, subindo o rio Acre. Foi a floresta — e não o pasto — que determinou os caminhos, as estratégias e as condições daquela luta. A floresta era o grande campo de batalha.

Muito antes disso, os povos indígenas já construíram suas vidas e seus territórios em profunda relação com a floresta. Por aqui eles já habitavam a dezenas, milhares de anos antes. Depois, milhares de trabalhadores chegaram ao Acre entre o final do século XIX e o início do XX. Não vieram para derrubar a mata e criar bois, mas para sobreviver do corte da seringa, ainda que submetidos à violência e à exploração do sistema dos seringais.

Essa é a nossa história. Essa é a identidade cantada nos versos de nosso Hino Acreano:

“Que este sol a brilhar soberano
Sobre as matas que o veem com amor.”

Sobre as matas — não sobre o pasto do gado.

Mas a escolha de Gladson Cameli não é casual. Seu projeto político tem sido o de abrir caminho para a boiada passar sobre a floresta. Durante seus governos, o Acre voltou a registrar índices alarmantes de desmatamento e queimadas. Não se trata apenas de destruir árvores: trata-se de desmontar nossa identidade enquanto povo formado pela floresta e pelos povos que nela vivem.

Caminhamos a passos largos — montados em pangarés ou não — por um processo de autodestruição. Deixamos de nos reconhecer como indígenas, caboclos, seringueiros, ribeirinhos e colonheiros enquanto as velhas elites se perpetuam no poder às custas de nossa pobreza e do saque de nosso território.

O que restará de um povo sem identidade, sem floresta e sem água, obrigado a respirar a fumaça das queimadas e a torrar debaixo de um sol soberano que já quase não encontra matas para iluminá-lo?

Defender a memória da Revolução Acreana também é defender o território pelo qual ela foi travada.

Pobre Acre.

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