A CERCA DA TRAGÉDIA

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Ataque no Instituto São José expõe um ambiente acreano de violência e ameaças já sinalizadas

Carro do IML com corpos das vítimas de ataque realizado por adolescente deixa o Instituto São José; mulheres tentaram conter atirador, e foram atingidas por disparos (Foto: Juan Diaz/Cedida)





Tragédia em tradicional escola de Rio Branco deixou duas funcionárias mortas e deixou toda uma população em choque. O crime traz à tona perguntas não só sobre as suas motivações, mas como fomos à falência enquanto sociedade, ao reverenciar um ambiente de violência e de negação do outro. Ataque ultrapassa o impacto imediato e expõe fragilidades estruturais.



João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

A tarde da última terça-feira, 5 de maio de 2026, entrou para a história recente do Acre como um marco doloroso. Pela primeira vez, o estado registra um atentado a tiros dentro de uma escola. E não era uma instituição qualquer, mas uma das mais tradicionais e emblemáticas da capital acreana. Quem por lá não estudou ou conhece algum ex-aluno da década de 1970 pra cá pode-se dizer não ser natural de Rio Branco.

Localizado bem no centro da capital acreana, o Instituto São José deixou de ser o símbolo de uma das principais referências em ensino básico para, tragicamente, ser o retrato de um ambiente de violência, de intolerância e de uma sociedade à beira de seu colapso mental – e social. De uma sociedade que, nos últimos anos, passou a reverenciar (e até idolatrar) pessoas que alimentam discursos de ódio e de negação (talvez até a destruição) daqueles que discordam de seus princípios morais e valores.

Um fenômeno que, até pouco tempo atrás, parecia distante, mas que vem se tornando cada vez mais recorrente no Brasil. O alvo desta vez foi o Instituto São José, tradicional instituição de ensino fundada pela Congregação das Servas de Maria Reparadoras.

O ataque deixou duas vítimas fatais: as inspetoras Alzenir Pereira, conhecida como Tia Zena, e Raquel Sales Feitosa. Ao todo, quatro pessoas foram atingidas por disparos de arma de fogo – três funcionárias e um aluno. Os feridos foram socorridos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência e encaminhados ao Pronto-Socorro de Rio Branco.

De acordo com informações oficiais do governo do Acre, o autor dos disparos é um adolescente de 13 anos, que foi apreendido e está sob custódia do Estado. A arma utilizada (uma pistola automática calibre 380) pertencia ao responsável legal pelo menor, que também foi detido. A investigação está a cargo da Polícia Civil, que busca esclarecer as circunstâncias, motivações e eventuais responsabilidades.

A tragédia do São José (como é mais conhecida a escola entre os rio-branquenses) dialoga com um cenário nacional mais amplo e inquietante. Nos últimos anos, o Brasil assistiu a uma escalada de ataques em ambientes escolares, fenômeno antes mais associado a outros países – em especial nos Estados Unidos, onde é comum jovens armados até os dentes (num país onde é possível comprar fuzis numa gôndola de supermercado) adentrarem em suas escolas para realizar massacres.

Uma brutalidade sem explicações; a dor de quem presenciou o ataque ou perdeu uma colega de trabalho ou parente (Foto: Juan Diaz/Cedida)


Especialistas apontam múltiplos fatores para essa mudança no Brasil: a disseminação de discursos de ódio, a radicalização em ambientes digitais, o agravamento da polarização política e, de forma significativa, a ampliação e facilitação do acesso a armas de fogo.

Durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), houve uma flexibilização nas regras para posse e porte de armas, além de um discurso público reiterado em defesa do armamento da população. Desde 2018, o Acre é um dos principais territórios bolsonaristas. Nas eleições-gerais de oito anos atrás, o político de extrema-direita obteve mais de 70% dos votos válidos no estado.

Foi em um comício em Rio Branco, em setembro de 2018, que do alto de um caminhão, Bolsonaro “transformou” um tripé numa espécie de fuzil e esbravejou: “vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre”, para o delírio de uma plateia ensandecida.

Embora a relação direta entre esse contexto e casos específicos como o de Rio Branco dependa de investigação detalhada, o fato de a arma estar dentro do ambiente familiar e acessível a um menor recoloca a discussão sobre controle, responsabilidade e riscos.

Outro elemento que atravessa esse tipo de ocorrência é o ambiente de tensão social e política que marcou o país na última década. A intensificação da polarização, amplificada por redes sociais, contribuiu para a normalização de discursos agressivos e para a construção de imaginários violentos, sobretudo entre jovens expostos a conteúdos extremistas. Em muitos dos ataques registrados no país, há indícios de influência desses ambientes digitais.

No caso do Acre, ainda não há confirmação sobre motivação ideológica ou influência externa, mas o padrão – um adolescente com acesso a arma de fogo realizando um ataque em ambiente escolar – se insere em uma tendência que preocupa autoridades e educadores em todo o país.

Familiares em busca de informações para saber se estudantes e funcionários estavam bem (Foto: Juan Diaz)



A principal suspeita é a de que o adolescente agiu motivado pelo desejo de vingança. Testemunhas dizem que ele era vítima frequente de bullying – uma prática reprovável e que causa sequelas psíquicas em muitos jovens no ambiente escolar. Por sinal, o bullying é apontado como a principal motivação para ataques em escolas.

Outras informações indicam que haveria um ataque planejado por meio de grupos de Whatsapp. A polícia quer saber se o atirador do São José agiu sozinho ou teve o apoio de outras pessoas. Em 2022 já surgiu a suspeita de que estudantes do Acre estariam se articulando para ataques em escolas.



Luto coletivo

Disseminada em tempo real pelas redes sociais, a notícia da tragédia atraiu centenas de pessoas para a rua Floriano Peixoto, onde fica o tradicional Instituto São José e a residência das freiras Irmãs Reparadoras, vizinha ao Palácio do Bispo e à Catedral de Nossa Senhora de Nazaré, na paralela Avenida Brasil.

Drones transmitiram imagens ao vivo da aglomeração do público em busca de informações ou apenas atraído pelo calor das emoções. De acordo com os policiais, após descarregar um pente com 12 ou 15 balas, o menino descartou a arma como quem atira ao chão um brinquedo quebrado, pois não sabia como substituir o carregador ou esquecera de trazê-lo.

Em seguida, desarmado, caminhou pelo coração de Rio Branco para entregar-se voluntariamente no Quartel do Comando Geral da Polícia Militar, localizado a pouco menos de 300 metros do cenário da tragédia. Caminhou por entre carros, atravessou ruas. a praça da Biblioteca, talvez tenha esperado o semáforo da Avenida Getúlio Vargas fechar para os veículos até chegar ao QG da PM.

Quem passou por aquele menino de 13 anos nem imaginava a brutalidade que acabara de cometer minutos antes. Nem sonhava que deixara estendido no chão do São José os corpos de duas mulheres.

O padrasto do menino, identificado como o advogado Ruam Amorim, que é o proprietário da arma, também se entregou à Polícia Civil e alegou que o enteado conseguira a chave de um cofre para subtrair a pistola sem o seu conhecimento. Mesmo assim também foi detido e apresentou sua defesa através de outro advogado.

Governo afirmou que medidas estão sendo adotadas, incluindo assistência às vítimas e seus familiares, além de apoio psicossocial à comunidade escolar (Foto: Juan Diaz/Cedida)




Ruan ocupava um cargo em comissão no Governo do Estado por indicação do deputado Arlenilson Cunha, do PL, oriundo do quadro de policiais penais do Estado, onde tem sua base eleitoral. Mesmo assim, Ruan foi exonerado do cargo pela governadora Mailza Assis (PP) no mesmo dia da tragédia.

Ainda na noite do crime, a governadora convocou entrevista coletiva reunindo diversos secretários e expôs a estratégia de mitigação do luto que atingiu toda a cidade, especialmente aos alunos, funcionários, familiares e amigos do Instituto São José. Desde aquela trágica terça, as aulas de toda a rede estadual e privada de Rio Branco ficaram suspensas até sexta (8).

A comunidade escolar do São José também receberá assistência psicossocial.

Gerido pela Diocese da capital, o Instituto São José hoje atua em um sistema público-privado, ou que se define como escola conveniada. A Secretaria Estadual de Educação repassa verbas para a instituição receber estudantes cujos pais não teriam condições de arcar com as mensalidades, enquanto todo o quadro de funcionários é mantido pelo sistema privado, através da diocese.

Além do repasse de recursos, a Secretaria de Educação participa de todo o planejamento pedagógico do Instituto São José. Professores e demais colaboradores participam das formações e são convidadas a participarem de todos os programas, ações e políticas da SEE.

Em nota, o governo do estado afirmou que todas as medidas estão sendo adotadas, incluindo assistência às vítimas e apoio psicossocial à comunidade escolar. As aulas na rede estadual foram suspensas por três dias como medida preventiva.

O episódio, no entanto, ultrapassa o impacto imediato. Ele expõe fragilidades estruturais e levanta questões urgentes: como impedir o acesso de menores a armas?

Como monitorar e conter a radicalização juvenil?

E, sobretudo, como proteger escolas em um contexto onde a violência deixa de ser exceção e passa a fazer parte do horizonte possível?

A tragédia de Rio Branco não é um caso isolado. É um sinal de alerta.

Instituto São José: ambiente escolar que deveria ser dominado pela paz, virou o símbolo da violência de uma sociedade falida, entusiasta daqueles que propagam discursos de ódio e intolerância (Foto: Juan Diaz)
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