Centro histórico de Rio Branco agoniza entre obras inacabadas, erosões e abandono

Calçadão do Novo Mercado Velho está interditado após surgimento de novas rachaduras, e simboliza a decadência de uma região que já foi o principal cartão-postal da capital acreana. Espaços que antes eram o coração pulsante da Rio Branco, hoje são o símbolo da decadência de uma cidade sem transporte público e políticas de planejamento. A capital que surgiu às margens do rio e à sombra das gameleiras se transformou numa grande terra caída – para além de seus barrancos.
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
O surgimento de novas rachaduras no calçadão do Novo Mercado Velho e a consequente interdição de parte da estrutura reacenderam um debate antigo em Rio Branco: até quando o centro histórico da capital permanecerá em estado de abandono A cidade, que surgiu às margens do rio Acre e à sombra de suas gameleiras no Segundo Distrit,o agora vê essa região desmoronar, literalmente, com as erosões dos barrancos que engolem aquilo que, um dia, foi o cartão-postal da cidade e motivo de orgulho para a população- – mas que agora simboliza o franco processo de decadência por que passa a região central.
E não se trata apenas de responsabilizar o fenômeno da “terra caída” para justificar este processo erosivo – que ultrapassa o seu conceito geológico de um movimento ou deslocamento de massa. A erosão que afeta a capital ultrapassa as margens do rio Acre; ela é estrutural, política, econômica e cultural. É resultado da falta de planejamento, de manutenção e zelo pela infraestrutura da maior e mais importante cidade acreana.
Nem mesmo a construção de viadutos, passagens e elevados que deixam Rio Branco “com cara de capital” são suficientes para ofuscar a grande terra caída na qual se transformou a capital de todos os acreanos.
E a região central reflete bem essa queda. O lugar que num espaço de tempo não muito distante era o ponto de encontro para amigos se encontrarem no Bar Municipal ou bares no calçadão do Novo Mercado Velho ou do Mercado dos Colonos, para famílias tomarem um tacacá da Dora ou comer um cachorro-quente do Paulão na praça do quartel, atualmente está abandonado, triste e carrega em si toda a melancolia de uma cidade que parece estar sem vida.
Na última década, o coração da capital também foi intensamente impactado pelas constantes alagações rio Acre. Enchentes tão grandes que chegaram a invadir o calçadão da Gameleira e os prédios históricos do entorno. Os efeitos da crise climática acabaram por acelerar o processo erosivo da cidade – agravado pela omissão e ineficiência dos gestores públicos.
O Centro, infelizmente, está ocupado por pessoas em situação de rua – em sua maioria dependentes químicos. Aos poucos, a região central se transforma numa grande cracolândia. Isso aos olhos do poder público, pois é bem ali onde estão as sedes dos poderes: o Palácio Rio Branco e o prédio da prefeitura – agora pintado de azul pela atual gestão que acelerou o processo de decadência do Centro – aliás, não só do centro.
Sebastião Bocalom (PSDB) abandonou a prefeitura no começo de abril para realizar o desejo de uma ambição pessoal: governar o Acre; ou talvez desgovernar tanto quanto fez na prefeitura. Graças a ele, hoje a população das periferias não pode mais chegar ao centro, pois não há mais ônibus circulando. Bocalom arruinou o sistema de transporte coletivo da cidade.
Nos dias atuais, a única modalidade disponível é a de aplicativos de transporte: seja em carros ou motos. Já para quem tem veículo próprio é difícil ficar no centro. A atual prefeitura acabou, de vez, com o sistema de estacionamento rotativo nos espaços públicos – a zona azul. Também faltam estacionamentos privados.
Hoje, as vagas centrais são ocupadas, em sua maioria, por servidores dos órgãos públicos que ainda funcionam no centro, com os veículos o dia todo ali parados. Sem ter onde estacionar, a pessoa vai embora. O centro fica desocupado. O comércio deixa de funcionar. A economia perde.
E, assim, Rio Branco vai ficando de costas para os barrancos de seu manancial e de suas gameleiras frondosas.

Do apogeu à decadência
Palco de grandes intervenções urbanísticas durante a primeira década dos anos 2000, nos governos da antiga Frente Popular do Acre (FPA), a região que se estende pelas duas margens do rio Acre recebeu, ao longo de vinte anos, investimentos milionários em revitalização, restauração de prédios históricos e construção de espaços de convivência. Hoje, porém, o cenário é de degradação, estruturas interditadas, imóveis vazios e movimento cada vez menor de moradores e turistas.
O Novo Mercado Velho, um dos principais símbolos dessa transformação urbana, tornou-se também o retrato das dificuldades. Após anos de obras e sucessivos investimentos, o calçadão voltou a apresentar problemas estruturais, obrigando o governo a interditar parte da área. Um descaso que atravessa para a outra margem do rio através da abandonada Passarela Governador Joaquim Macedo.
Ela, que outrora surgia como a primeira imagem ao se digitar o nome da cidade de Rio Branco em buscadores na internet, já há algum tempo sofria com a deterioração. Seu piso de madeira foi corroído pela ação da chuva e do Sol.
Se noutros tempos ela era usada não só para atravessar os dois distritos da cidade, mas também para centenas de pessoas ali ficarem para admirar o rio Acre e os balseiros que por ele descem durante as alagações, em 2026 é o retrato de uma capital que caminha, a passos largos, rumo ao abismo.
Enquanto laudos técnicos tentam explicar as causas das rachaduras no centenário Mercado Velho, comerciantes convivem diariamente com a redução do fluxo de clientes.


“Queríamos chamar a atenção dos órgãos públicos. Uma obra dessa, que não tem nem 400 metros de extensão, virou uma vergonha muito grande para o governo”, afirma o comerciante Francisco Lessa, que há mais de 40 anos vive e sobrevive ali naquela região com a venda de medicinas da floresta.
Segundo ele, a situação se arrasta há cerca de três anos. “Quando começaram essa obra, havia uma placa dizendo que seriam quase R$ 19 milhões para reformar isso aqui e a passarela. Hoje já deve ter passado dos R$ 20 milhões e o que a gente vê é isso. Nossa praça acabou, nossa cultura acabou.”
Lessa afirma ainda que os bloqueios ao redor da obra afastaram os consumidores. “Estamos encurralados. Fecharam tudo, tiraram estacionamento e o freguês não vem mais para cá.”
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Durante décadas, o Novo Mercado Velho foi um dos principais pontos de encontro da cidade. Às margens do rio Acre, reunia restaurantes, bares, manifestações culturais e feiras de artesanato, além de receber turistas interessados na história da capital.
Hoje, entretanto, o cenário contrasta com o passado. Tapumes, isolamento de áreas e a lentidão das obras transformaram um dos espaços mais tradicionais da cidade em motivo de preocupação para comerciantes e frequentadores.
Em nota, a Secretaria de Estado de Habitação e Urbanismo (Sehurb) informou que a interdição ocorreu de forma preventiva após a identificação de problemas estruturais e que estudos técnicos estão sendo realizados para definir a recuperação da área.

Decadência vai além do Mercado Velho
O abandono, no entanto, não se restringe ao calçadão. Quem percorre o centro histórico encontra diversos sinais de deterioração. O entorno do Mercado Elias Mansour, importante polo do comércio popular, sofre com calçadas danificadas, pouca atratividade para visitantes e imóveis fechados.
Na outra margem do rio, o Calçadão da Gameleira, um dos principais cartões-postais de Rio Branco e palco de eventos culturais e gastronômicos, também perdeu parte da movimentação que caracterizava a região nos anos seguintes à revitalização. Hoje convive com estabelecimentos fechados, baixo fluxo de visitantes e falta de manutenção em diversos trechos.
Também passou a ser um local perigoso, com relatos frequentes de roubos e furtos de celulares. Não é mais seguro estar ali. Aliás, em todo o centro não há mais segurança. Apesar de o Quartel do Comando Geral da Polícia Militar – um prédio centenário símbolo da Rio Branco antiga – estar no Centro, essa parte da cidade não conta com policiamento ostensivo. É muito raro se deparar com a polícia – seja em rondas com viaturas ou a pé.
Assim, criminosos se sentem à vontade para cometer assaltos.
Nem mesmo o entorno do Palácio Rio Branco e da Praça Povos da Floresta, áreas que concentram importantes edifícios históricos da capital, escapam da sensação de esvaziamento fora do horário comercial.
O que ainda assegura um certo aspecto de vitalidade é o bom forró nas manhãs de sexta-feira no Senadinho, quando a melhor idade se reúne para dançar e conversar – talvez relembrar os saudosos tempos da Rio Branco antiga.

Mais recentemente, projeto executado pelo Sebrae tenta recuperar e revitalizar o Centro com feiras e apresentações culturais aos fins de semana. Uma atitude isolada, e que requer um esforço coletivo e fortes investimentos não só da prefeitura, mas também do governo estadual.
Especialistas em planejamento urbano costumam apontar que centros históricos só permanecem vivos quando recebem investimentos permanentes em manutenção, segurança, mobilidade, habitação e incentivo às atividades culturais e econômicas. Sem essas políticas, obras de revitalização tendem a perder seus efeitos ao longo do tempo.
O centro histórico de Rio Branco foi, durante muitos anos, apresentado como símbolo da revitalização e recuperação da memória da cidade. As obras realizadas entre o fim dos anos 1990 e a década de 2010 transformaram a região em um dos principais cartões-postais do Acre.
Passados alguns anos, porém, o desbarrancamento do calçadão do Novo Mercado Velho parece revelar um problema maior do que uma simples falha estrutural. Elas expõem a falta de continuidade nas políticas de preservação urbana e levantam uma questão que comerciantes e moradores repetem há anos:
Quando o coração histórico de Rio Branco volta a pulsar como antes?




