Um ano depois, povo Huni Kuĩ do Jordão volta a denunciar roubo de madeira e abertura de pasto dentro do território

Em março de 2025, Varadouro já expunha as denúncias de extração de madeira dentro da Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência; sem providências adotadas, o problema persistiu e se agravou. Agora, a área de pastagem do gado já ocupa partes do limite Norte do território Huni Kuĩ.
Fabio Pontes
João Maurício Rosa
dos varadouros de Rio Branco
Um ano depois dos primeiros relatos de lideranças do povo Huni Kuĩ sobre invasões e desmatamentos dentro da Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência, no município de Jordão, e tornados públicos com exclusividade por Varadouro, novas denúncias surgem sobre a continuidade do roubo de madeira e da expansão da área derrubada. Imagens de monitoramentos realizados em fevereiro e o começo de março mostram o corte de árvores dentro do território Huni Kuĩ, além da ampliação da área de pasto para os limites da terra indígena.
“A gente achava que os fundos das nossas terras, aqui no Seringal Independência, entre [os rios] Muru e Tarauacá, estavam protegidos, os nossos mananciais, nossas madeiras, nossa pesca, nossa caça, mas ao contrário, tava sendo invadido”, afirma Siã Huni Kuĩ, liderança geral da TI Kaxinawá do Seringal Independência. “Nós não invadimos a terra de ninguém e nunca vamos invadir. Só queremos ser respeitados”, ressalta ele.
Nos vídeos, os Huni Kuĩ relatam a derrubada de espécies como mogno, cedro, miratoá, balso e outras. Noutro trecho, as lideranças chegam à área agora ocupada pelo pasto e o gado. De acordo com eles, dentro da TI Kaxinawá do Seringal Independência. Os indígenas contabilizaram ao menos 200 cabeças de boi, e mostram a casa de um dos irmãos do fazendeiro conhecido como Barrote.

Siã Huni Kuĩ afirma ter reforçado a atuação das equipes de vigilância para evitar novas invasões, protegendo, sobretudo, as áreas onde estão as nascentes de rios e igarapés. A cada período das secas, a cidade de Jordão fica praticamente isolada por conta da vazante crítica dos mananciais. O acesso a Jordão só é possível por via fluvial ou aérea.
Para a liderança do povo Huni Kuĩ, mais importante ainda é a resposta dos órgãos de Estado para conter as invasões ao território. Oficialmente, o Ministério Público Federal (MPF) afirma ter conhecimento da situação por meio de ofício enviado pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – mesmo documento enviado ao Ibama e à Polícia Federal.
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Caminhos abertos
A demora na apuração preocupa lideranças e organizações que acompanham o caso, já que, segundo relatos, o desmatamento e a exploração ilegal da área continuaram avançando nesse período. Um ano atrás, quando Varadouro já denunciava o problema, o caso chegou ao conhecimento do jornal por meio do sertanista Txai Macedo, falecido no último dia 15 de fevereiro.
Por meio da Fundação Txai, organização que coordenava, Macedo informou ter acionado órgãos públicos para cobrar providências e fiscalização na região. Entre as instituições notificadas estava a Funai, por meio da Coordenação Regional do Juruá, em Cruzeiro do Sul.
Siã Huni Kuin avalia que a área desmatada ao longo dos últimos anos pode chegar a 200 hectares no entorno Norte do território indígena. Em uma das fazendas de gado vizinhas, a área de pastagem avançou pouco mais de um hectare dentro do território Huni Kuĩ. Imagens de satélite da plataforma Google Earth mostram que a parte Norte da TI é a mais pressionada pelo desmatamento por estar próxima à sede urbana de Jordão.
Num dos casos, um dos fazendeiros já abriu a pastagem dentro da TI, e agora busca se apossar da área registrando-a no Cadastro Ambiental Rural (CAR), dizem fontes ouvidas por Varadouro.
Entre o fim de fevereiro e o começo de março, elas integraram as equipes de monitoramento, encontrando árvores derrubadas e madeiras serradas. Houve até casos de ameaças por parte de um dos filhos do fazendeiro ao encontrar dois membros da equipe no pasto.
“Eles sabem tanto que estão dentro da terra indígena que, após fazer a derrubada, eles puxam as árvores para fora do território para serem cortadas. Puxam usando carro de boi. Já tem até caminho aberto para a retirada dessa madeira”, diz um dos integrantes da equipe de monitoramento. Por questão de segurança, ele pediu para não ser identificado.
Pelas imagens, é possível observar uma grande quantidade de áreas abertas. Essas aberturas, em sua maioria, são feitas para a atividade agropecuária.
Apesar de seu isolamento geográfico com o restante do estado por meio de estradas, Jordão chama a atenção, nos últimos anos, por um aumento sensível em suas taxas de desmatamento e queimadas dentro do Acre.
Segundo os dados do programa Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o crescimento da devastação do bioma amazônico em Jordão se deu a partir de 2019, exatamente quando se inicia a política da boiada de desmonte da agenda ambiental promovida pela dupla Gladson Cameli (PP) e Jair Bolsonaro (PL) – política esta que levou todo o Acre a níveis recordes de desmatamento e fogo.
Segundo o Prodes/Inpe, os anos com os maiores registros de floresta desmatada em Jordão foram 2020 e 2022. O município é um dos mais indígenas do Acre, com quatro territórios oficialmente demarcados:

TI Kaxinawá do Rio Jordão, TI Kaxinawá do Baixo Rio Jordão, TI Kaxinawá do Seringal Independência e a TI Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu. Essa última também abarca área do vizinho município de Marechal Thaumaturgo, onde os Huni Kuĩ a dividem com aldeias dos Ashaninka.
Nestes últimos anos, Jordão também chama a atenção por ser bastante impactado pelos eventos climáticos extremos. Além das secas que levam ao colapso dos mananciais praticamente sem água, nos meses do inverno amazônico a região é afetada pelas grandes alagações do Tarauacá e Muru. Inundações que destróem os roçados e as criações das populações indígenas e ribeirinhas – o que coloca em risco a segurança alimentar e de acesso à água potável pelas comunidades.




