A Revolução que nunca foi revolução alguma. Interpretando fatos históricos fora do estatuto colonial

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A Revolução que nunca foi revolução alguma. Interpretando fatos históricos fora do estatuto colonial




O que segue aqui foi escrito a pretexto de pensar o significado histórico do dia 6 de agosto de 1902 para o Acre – o tal marco inicial da festejada dita Revolução Acreana. Procuro aqui agir para uma interpretação contra, anti e decolonial. Uma interpretação – como medida de valor outra – que busca subverter o senso comum colonial de massa que apassiva e, por isso, subalterna.

Uma contranarrativa que busca apontar o conteúdo moderno-colonial dos fatos históricos em suas epistemes. O que se encontra obscuro na versão produzida pelo discurso de poder da modernidade/colonialidade, justamente este o do engano, digo, o que promete tudo e não cumpre nada.

É dessa experiência – como dispositivo analítico – que falarei na sequência.

As interpretações sobre o mundo social se avolumam no palco da guerra de sentidos, tendo as categorias papéis fundamentais como armas estratégicas na constituição e manutenção de ideias – como medidas de valor – de poder e de saber determinados.

Seja de que espectro de pensamento for, muitos que pensam as ciências sociais e humanas têm reafirmado sobre o quanto o saber é determinante para o exercício do poder, o que vale dizer, o quanto os sistemas de poder são determinantes para as instituições e manutenções das estruturas de saber.

Nesse passo, entender o poder pelo discurso e suas categorias e instituições que a difundem/mantém talvez seja o meio mais eficaz para compreender o saber que se produz/reproduz para aquele intento de domínio social.

A novidade nesse campo em que se busca a compreensão da realidade, tem se revelado no uso de referenciais teóricos críticos pouco aplicados nas academias brasileiras. Estou me referindo a parâmetros que partem da perspectiva local de pensar e agir.

Local enquanto espaço epistêmico de poder na vida vivida, o tipo historicamente reservado e conservado, pela versão norte-eurocêntrica universalista, como saber menor ou não saber.

Pretendo indicar possibilidades de se interpretar uma realidade não exatamente pelos sentidos que nos são comumente dados advindos das teorias sociais e humanas norte-eurocêntricas universalistas, mas por aqueles que conseguimos extrair tendo o auxílio de um modelo de referência teórica e crítica, situado desde aqui no tempo e no espaço geo-histórico-determinados, falo no caso em questão da teoria social crítica decolonial.

Enquadrada como uma das vertentes da teoria crítica pós-colonial – esta, para muitos, uma nova forma de acessar a realidade desde a perspectiva dos territórios colonizados – se constitui num conjunto de pressupostos teórico-crítico interdisciplinares a respeito da condição histórica, nos campos do poder, do saber e do ser, de índole inicialmente geopolítica e que, assim, se espraia se reproduzindo, dos chamados centros para as chamadas periferias, nas relações sociais, econômicas, políticas, culturais…

Um dos fundamentos básicos pelo qual se funda a teoria decolonial é a compreensão histórica de que vivemos (enquanto considerados países periféricos constituídos por sujeitos subalternos) sob a égide de um poder global – forjado no contexto do sistema mundo moderno colonial – que teve início com os processos de expansão coloniais da Europa do século XVI, processos esses que subsistiram ao fim do colonialismo, como instituição político-jurídica, mantendo-se como colonialidade, ou seja, como um regime de poder, de saber e de ser sustentado, não só pela hierarquia econômica – como é comum se afirmar – mas também por heterarquias étnicas, raciais, linguísticas, religiosas, sexuais… portanto culturais, para fins de controle, exploração e dominação sociais.

Tal padrão de poder global é dependente – não só para ser instituído, mas especialmente para ser mantido – de um certo tipo de saber sistemático/sistêmico pautado em tipo próprio de racionalidade moderna gestada dos centros (como eurocentrismo e o universalismo) que, sob a capa de conhecimento neutro, objetivo, universal e superior, se presta ao domínio epistêmico do mundo (como autoproclamado centro do sistema mundo), domínio este voltado para o resto assim nomeadas as suas ditas periferias com suas populações dominadas, racializadas e exploradas.

De fato, será por esta modalidade de conhecimento que o poder colonial diminui sua ação histórica da esfera da coerção violenta física e espiritual (das armas e da fé) e parte para a busca da naturalização da cosmologia do colonizador (europeu e norte-americano) como a única forma de relação com o mundo, com o qual busca converter o colonizado em sua imagem e semelhança, em versão racializada.

Para tanto, pratica um outro tipo de violência, a epistêmica, quando passa a destruir o conhecimento do colonizado de modo a extingui-lo e/ou colocar na condição de inferior para, na sequência, tratar a sua cosmologia como um conhecimento universal e, assim, impô-lo como objeto/produto de sedução com qual e somente com ele o colonizado acredite que possa alcançar o poder e dele participar com protagonismo nunca antes provado.

Este quadro sintético e genérico que acabo de reproduzir com vistas a descrever a estratégia histórica da ação moderno-colonial pode ser aplicado como uma espécie de matriz de ação com o que é possível entender o que se passa e se passou nos planos locais desde a perspectiva geopolítica.

Monumento a José Plácido de Castro, no centro de Rio Branco, apresentado pela historiografia oficial como o herói da chamada Revolução Acreana (Foto: Acervo Varadouro)



Por exemplo, no território acreano, o sistema de poder/saber global colonial seguiu/segue semelhantes parâmetros/processos tanto na sua instituição (seringalismo) quanto na sua manutenção (seringalidade).

Partindo desse pressuposto, é possível se mover por dois caminhos: problematizar o saber/poder dali advindos, praticando uma leitura crítica das categorias dadas, o que chamo de interpretação decolonial, ou manter-se aceitando o sentido posto dado as palavras postas – opção que tem sido mais comum, inclusive nas academias em suas tradicionais bulas bibliográficas do saber norte-eurocêntrico.

Com isso, podemos nos ver diante das possibilidades de nomeação, isto é, de dar sentido à realidade, como ato de colonialismo/colonialidade (por aqui seringalismo/seringalidade), para a mantença da ordem das coisas, ou, por uma chave de resistência, como ato de decolonialidade, para sua problematização e superação.

A segunda opção se constitui em ato de portar sentidos diversos e/ou atualizados às/das palavras/categorias postas, deduzindo de seus significados originários outros condizentes com o mundo concreto e próprio, ou renomear os sentidos usando outras palavras sobre e em detrimento das usualmente postas. Ambas de modos social, cultural e politicamente posicionados.

Deste modo, a tarefa será pensar o significado das palavras/categorias dentro de seu contexto de efetivo uso social e político, e não só de constituição formal, em sua normatização supostamente pura e simples. O que deve fundamentalmente equivaler a pensar os sentidos na sua historicidade e na sua tensão com o real do aqui e agora no contexto da luta de interesses no campo do poder, quero dizer, do domínio colonial de natureza estrutural, este que explora e racializa.


Pensar/viver criticamente a realidade é se envolver – se posicionar – nessa guerra de sentidos frente à “paz” que apassiva, a que se deseja com a adoção de um sentido único, normalmente aquele sentido oficial, dito normal, normativo, da manutenção do status quo colonial, status este fundado no que vou cunhar de senso comum colonial de massa.

Enfrentar o império das epistemes oficiais – tão consumidas/absorvidas naturalmente no cotidiano de nossas vidas – só pode ser prática de atos de resistência no contexto de guerra colonial na qual estamos imersos, mesmo que não tenhamos consciência, estado que tem sido para as massas mais violentamente comum.



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A questão para o intérprete pode estar na sentença contida na letra da música Minha Alma da banda brasileira Rappa: “qual a paz que não quero conservar pra tentar ser feliz”. Acomodar-se à paz do sentido único? Que paz é mesmo essa?

Nessa guerra, a arma do intérprete decolonial – a sua voz, que é a sua alma – deve, como pontifica a referida música, “está armada e apontada para a cara do sossego” – que um sentido único produz. Pois “paz sem voz (sem uma interpretação decolonial, portanto sem alma de uma vida digna) não é paz é medo.” E medo é se apassivar no campo da batalha dos sentidos no contexto da vida vivida.

Um bom exercício para entender a guerra de sentidos é, por exemplo, pensar o campo semântico utilizado pela historiografia tradicional e oficial – justamente essa que se inocula na mente das massas pelos bancos escolares em suas pedagogias coloniais – as fábricas do senso comum colonial de massa – para narrar e justificar o tempo histórico local.

Trago aqui protótipos breves desse exercício que realizo dentro de um espectro de pensamento construído num contexto de tempo e de lugar específicos – o acreano, o acreano moderno, o acreano colonial. O que seria um exercício de revisão de sentidos e renomeação de conceitos fora das amarras do estatuto colonial e contra ele.

Partindo do pressuposto da vigência da colonialidade no Acre*, divido a sua ação em dois tempos/processos históricos determinados: o do seringalismo – como fase inaugural – e o da seringalidade – como fase contemporânea, ambas ligadas por um contínuo histórico-social dinâmico e permanente que se atualiza o tempo todo, sobretudo pelas categorias que remodelam os seus discursos sem alterar jamais o núcleo de sentido moderno-colonial, o que sustenta a sua estrutura de poder e de saber.

O seringalismo – entendo como regime de poder econômico e social instaurado na gênese da história do Acre e que funda, sob justificativas e métodos modernos, um território colonial/colonizado – mas que como tal e nome a historiografia normativa, por razões óbvias, tem ignorado.

Em seu lugar, o poder colonial nomeia como fenômeno histórico a tal e tão festejada Revolução Acreana (produto da historiografia oficial local) ou como A Questão do Acre (produto da historiografia tradicional nacional), ambas cunhadas, pelos colonizadores e seus prepostos, os crioulos locais, como fatos de tez libertador dos condenados da floresta.

Seringalismo e Revolução têm sido duas categorias sinonímicas adotadas como opções de interpretação do fato fundacional/colonizador do Acre, mas que, todavia, são de naturezas diametricamente opostas, no que diz respeito aos fatos e sujeitos históricos neles envolvidos.


Por esta versão de sentido histórico, os condenados da floresta são parte, juntamente com os seus patrões proprietários (os coronéis seringalistas, então sub prepostos do capitalismo na Amazônia…), da construção de um presente e um futuro que promete – com seus planos, projetos e programas de governo, financiados pelos prepostos do sistema mundo moderno-colonial/capitalismo internacional, como Banco Interamericano de Desenvolvimento e Banco Mundial – a felicidade para todos, sob a condição de que isto só é possível pela via do progresso, do desenvolvimento e da sustentabilidade, essas epistemes siameses da colonialidade/seringalidade, justamente isto que tem resultado no que a realidade expressa concretamente no dia a dia da historicidade da vida dos locais na Amazônia acreana.

Na contemporaneidade do regime da colonialidade na Amazônia acreana, o que o discurso da modernidade/colonialidade vai denominar de florestania, o decolonial vai chamar de seringalidade. Um para abafar/manter o domínio, outro para denunciar/resistir.


Pela seringalidade, não. Por ela, os processos históricos de colonização não sofreram descontinuidade, isto é, as condições dos colonizados continuam as mesmas, desta feita repaginados, no campo dos sentidos, por outras categorias – versões/camadas de sentidos – que buscam camuflar a condição histórica interminável de sujeitos explorados, expropriados e racializados, seja nas florestas, seja nas cidades.

A escolha semântica vai determinar a versão da história, no caso, a posição do poder/saber. Na linguagem da teoria decolonial, a escolha da palavra/categoria/sentido vai dizer se a compreensão/versão/interpretação é moderna-colonial, a que aprisiona, ou decolonial, a que liberta, pelo menos das amarras das inverdades históricas, as que alimentam o senso comum colonial de massa que, por sua vez, mantém e justificam o poder e o saber coloniais.

Nesse contexto de significados, a nomeação/concepção da realidade em que vivemos pode ser ato de colonialidade – enquanto ação que mantém a histórica condição colonial. Ao tempo em que pode ser de decolonialidade, enquanto ação de resistência a ela.

A opção pelo tipo de compreensão discursiva – que significa a opção simétrica pelos sistemas de saber e também de poder – é que vai definir a narrativa que aceitamos e a interpretação que produzimos e reproduzimos vida a fora, vida adentro e, por consequência, a posição do lado em que nos colocamos nessa guerra de sentidos/poderes que, para nosotros que estamos alertas, será sempre uma guerra contra, anti e decolonial, isto é, uma revolução radicalmente de outro significado nunca antes em lugar algum da colônia/seringal considerado.

*Para entender melhor estes breves traços de reflexão, o que vale dizer as categorias analíticas aqui citadas, sugiro a leitura de meu livro Seringalidade, o Estado da Colonialidade no Acre e os Condenados da Floresta, editora Valer, 2017.




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João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.

Sobre o autor

Redação Varadouro

Varadouro é uma organização de jornalismo sediada em Rio Branco, no Acre. Após escrever em sua versão impressa um dos momentos mais críticos da história da Amazônia, entre as décadas de 1970 e 1980, Varadouro retorna com o mesmo espírito de coragem e determinação para produzir um Jornalismo em defesa da Amazônia e de seus povos - agora na era digital.

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