
Há 108 anos, o Novenário de Nossa Senhora da Glória reúne milhares de pessoas nas ruas de Cruzeiro do Sul entre águas, promessas e caminhos. Gerações de romeiros transformam a cidade em ponto de encontro da região, assim como as andorinhas em seu ciclo de renovação com o território
Tatiane Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul
O Novenário de Nossa Senhora da Glória, padroeira do município, é considerado patrimônio cultural imaterial do Acre e, segundo registros locais, foi o primeiro bem reconhecido nessa categoria no estado.
No mês de agosto, durante o Novenário Nossa Senhora da Glória, em pleno verão amazônico, andorinhas e romeiros se encontram. A catedral de Nossa Senhora da Glória passa a funcionar quase como um porto: de um lado, centenas de famílias se deslocam de suas casas na cidade ou nos seringais, navegando sobre as águas do Juruá e seus afluentes para professar sua fé; do outro, centenas de andorinhas migratórias fazem dos fios elétricos na frente da catedral, sua casa temporária. E então, sob as bênçãos de Nossa Senhora da Glória, dois modos de vida passam a coabitar a mesma paisagem — ainda que brevemente.
O Novenário de Nossa Senhora da Glória foi oficialmente reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Estado do Acre em 2025. Chama a atenção para aquilo que pode ser percebido durante os festejos: o novenário atravessa o conceito de celebração religiosa. Em torno dele existem práticas, memórias, encontros e formas de participação que foram sendo transmitidas entre gerações. Parte da relação que se tem com o território.
Celebrado desde o começo do século XX, o primeiro ano em que teria ocorrido é incerto. Algumas fontes apontam para 1916 ou 1917. Oficialmente, a Igreja Católica considera que esta tradição religiosa tem 108 anos.
A programação começou no dia 5 de agosto e se estendeu até o dia 15, quando aconteceu a procissão que encerra os festejos. Organizado pela Diocese de Cruzeiro do Sul, o percurso começou depois da missa na Catedral, passando pelas ladeiras da cidade e pelo bairro Morro da Glória, até retornar ao centro, percorrendo pouco mais de três quilômetros.

Esta é a segunda maior procissão e festa religiosa da região Norte, ficando atrás apenas do Círio de Nazaré em Belém do Pará. A estimativa é de que cerca de 50 mil pessoas tenham participado da procissão. Entre elas estão pessoas que caminham descalças, acendem libras de velas, fazem orações e cumprem suas promessas. Há quem venha todos os anos e quem retorne depois de muito tempo. Há também famílias que chegam do interior especialmente para esses dias.
Para participar dos festejos, muitas famílias se deslocam até Cruzeiro do Sul. Algumas vêm de comunidades próximas; outras percorrem distâncias maiores. Para algumas comunidades, às margens do rio, o deslocamento pode começar muito antes de chegar à cidade. É preciso preparar a viagem, organizar a família, encontrar uma embarcação e enfrentar as condições do caminho. O rio, que organiza grande parte da vida no Vale do Juruá, também se transforma em caminho para a fé.
A Catedral, nesses dias, pode ser vista como uma espécie de porto: recebe pessoas que chegam de diferentes lugares e que trazem consigo histórias, promessas e modos próprios de viver a religiosidade. Aportam na margem do Juruá suas esperanças.
Há algo de familiar nesses deslocamentos. Algumas famílias refazem caminhos que já foram percorridos por seus pais e avós. O compromisso com a Santa passa de uma geração para outra e, junto com ele, permanecem certas maneiras de participar da festa.




Essa forma de viver a religião ajuda a compreender o que se convencionou chamar de catolicismo popular. A fé católica que chegou à região com os processos de ocupação, com os migrantes e com a atuação dos missionários foi sendo apropriada pelas populações que passaram a viver no Juruá. Nesse processo, incorporou práticas e formas de organização próprias da vida local.
A relação com a Santa não acontece somente dentro da igreja. Está na promessa feita em um momento de dificuldade, na vela acesa em agradecimento, na caminhada descalça, no pedido feito em silêncio e na viagem realizada para cumprir aquilo que foi prometido.
Uma devoção que acompanha a história de Cruzeiro do Sul
A relação entre a Santa e a cidade é antiga. Segundo a pesquisadora Cristiane Moreno de Andrade, a história da “presença” de Nossa Senhora da Glória se confunde, em certa medida, com a própria história de Cruzeiro do Sul. A devoção está relacionada ao processo de povoamento da cidade, à chegada dos primeiros padres espiritanos [da Congregação do Espírito Santo] e também à presença dos cearenses que vieram para a região.
A escolha da padroeira também faz parte dessa história. Registros apontam que Nossa Senhora da Glória foi escolhida por meio de um plebiscito, no qual concorreu com São Francisco, São José, São Sebastião, Santo Antônio e Nossa Senhora da Conceição.
Mas, quando essa devoção começou a se consolidar, Cruzeiro do Sul ocupava uma posição que ia além dos limites do município que conhecemos hoje. Em 1904, foi criado o Departamento do Alto Juruá, no então Território do Acre, tendo Cruzeiro do Sul como sua sede. O Departamento e posteriormente o município de Cruzeiro do Sul, abrangia uma área muito maior que o atual município e esteve relacionado à formação de localidades que hoje integram o Vale do Juruá, como Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Porto Walter e Marechal Thaumaturgo.
O novenário surgiu nesse contexto. A cidade que abrigava a devoção à Santa era também o centro administrativo de um território muito mais amplo. Por isso, pede um olhar mais amplo para a história de Nossa Senhora da Glória para além dos limites de Cruzeiro do Sul.
É possível pensar que essa relação histórica ajuda a explicar a dimensão que a devoção adquiriu ao longo do tempo. Nossa Senhora da Glória é a padroeira de Cruzeiro do Sul, mas a força do novenário permite pensá-la também, simbolicamente, como uma protetora do Vale do Juruá. Senão como uma padroeira oficialmente instituída para toda a região, ao menos como uma referência religiosa que ultrapassou os limites da cidade e continuou reunindo pessoas de diferentes partes do território.

As andorinhas e os romeiros
Durante o verão amazônico, milhares de andorinhas chegam a Cruzeiro do Sul. Ao final do dia, elas se concentram nos fios diante da Catedral e fazem do céu e do entorno da igreja um lugar de passagem e permanência temporária. As andorinhas vêm seguindo seus ciclos. Os romeiros vêm cumprir promessas, participar da procissão e reencontrar uma tradição que faz parte da história de suas famílias. Ambos os movimentos passam a fazer parte da mesma paisagem.
Talvez seja essa coincidência que torne a cena visualmente tão particular. Enquanto as andorinhas ocupam os fios da Catedral, os romeiros ocupam as ruas. Enquanto umas chegam para permanecer por um período e depois partir, outros chegam trazendo consigo histórias que serão levadas de volta para suas comunidades.
Por isso, o Novenário de Nossa Senhora da Glória pode ser percebido como um momento em que diferentes partes do Vale do Juruá se reencontram.
A tradição atravessou mudanças administrativas, transformações em Cruzeiro do Sul e diferentes gerações. O território que um dia foi organizado como Departamento do Alto Juruá já não possui os mesmos limites, mas a devoção continua reunindo pessoas que vivem em lugares diferentes desse mesmo espaço.
E todos os anos elas retornam, assim como as andorinhas.



