Ricco tem frota de ônibus bloqueada e crise no transporte explode; na Câmara, vereadores falam em “chantagem” e escândalo de corrupção

Decisão judicial expõe passivo trabalhista da empresa, enquanto parlamentares elevam o tom e acusam esquema, fraude e colapso planejado no sistema de transporte coletivo da capital acreana. Há quase 5 anos em contrato emergencial, empresa já recebeu R$ 250 milhões entre subsídios repassados pela prefeitura e a passagem paga pelos passageiros. Vereadores querem CPI, mas base de Bocalom atua para abafar investigações.
dos varadouros de Rio Branco
A crise no transporte coletivo de Rio Branco ganhou novos contornos nesta semana após a Justiça do Trabalho determinar a indisponibilidade dos veículos da empresa Ricco Transportes e Turismo Ltda., responsável por operar, com exclusividade e num contrato emergencial precário há quase cinco anos, o sistema de transporte coletivo na cidade.
A decisão, assinada pelo juiz Felipe Taborda, atende parcialmente a uma ação civil pública movida pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transporte de Passageiros e Cargas do Acre, o Sinttpac. O magistrado considerou haver fortes indícios de irregularidades trabalhistas, como atrasos salariais, ausência de recolhimento de FGTS e INSS, além de supressão de direitos básicos dos trabalhadores.
O cenário se agrava com a paralisação de 31 linhas de ônibus, o que, segundo a decisão, evidencia risco concreto de prejuízo aos trabalhadores do sistema de transporte coletivo da capital acreana.
Como medida de proteção, a Justiça do Trabalho determinou o bloqueio dos bens móveis da empresa, especialmente sua frota, proibindo venda, transferência ou retirada dos veículos sem autorização judicial.
Em novembro do ano passado, Varadouro produziu reportagem mostrando como a gestão de Tião Bocalom (agora de volta ao PSDB) conduz, com maestria, o sistema de transporte coletivo de Rio Branco rumo ao caos.
Até o momento, a Prefeitura de Rio Branco não emitiu nenhuma manifestação oficial sobre a decisão da Justiça do Trabalho.
Nestes últimos cinco anos – mesmo deixando a população rio-branquense ao deus-dará – a Ricco recebeu ao menos R$ 250 milhões dos cofres municipais como forma de subsídio. Em entrevista concedida ao telejornal Gazeta em Manchete, da TV Gazeta, o dono da empresa alegou prejuízos.
“Hoje o que a gente arrecada e o que gasta não cobre. Nós temos um déficit aí na faixa de 500 a 600 mil por mês. No último ano tivemos quase R$ 8,9 milhões de prejuízo”, afirmou Everson Dias.
“A vontade mesmo é entregar o boné”,” completou o empresário.
A Ricco afirma possuir 118 ônibus em sua frota na cidade, operando cerca de 51 linhas. Muitas destas linhas, porém, contam com apenas um carro. Noutras situações, uma única linha precisa passar por diferentes bairros, o que resulta em demora e superlotação.
Ela assumiu o controle do sistema logo no começo da gestão Tião Bocalom, em 2021, quando as antigas empresas que atuavam em Rio Branco foram a falência por conta dos efeitos da pandemia da Covid-19.
Na Câmara Municipal , os vereadores de oposição se articulam para instalar uma Comissão Parlamentar de Inqu´rito (CPI) para investigar o caos do transporte público de Rio Branco. Todavia, por ter ampla maioria na Casa, a gestão do prefeito Bocalom atua para engavetar a proposta apresentada por Neném Almeida. os situacionistas dizem ser contra por o caso já está sob inquéritos do Ministério Público Estadual.
“Se é por falta de adeus, tchau”: Kamai acusa chantagem e detona empresa
A repercussão foi imediata na Câmara Municipal, onde o vereador André Kamai (PT) fez um dos discursos mais duros sobre o caso, e não economizou nas palavras.
“Tchau! Se é por falta de adeus, tchau! A empresa suspendeu as linhas numa nítida, clara e descarada chantagem com a Prefeitura de Rio Branco e com o povo”, disparou o parlamentar. Kamai acusou a empresa de agir de forma contraditória, lembrando que a própria Ricco utilizou o Legislativo Municipal para renovar contrato e, agora, alega prejuízo:

“Depois de assinado o contrato, se apresenta como uma empresa que está tendo prejuízo. Parece até que está oferecendo um serviço extraordinário e recebendo muito pouco. Não está.” O vereador também denunciou o que chamou de colapso operacional. “Todos os dias são cinco, seis, sete carros quebrados. Isso denota falta de manutenção. Eu queria saber com o que essa empresa tem despesa. Porque ela não paga os trabalhadores.”
Kamai foi além e contestou diretamente o discurso oficial sobre a tarifa. “Esse papinho de que a tarifa é R$ 3,50 é mentira. A tarifa é mais de sete reais. A gente tem uma empresa muito bem remunerada, com um serviço muito ruim”, definiu o vereador petista.
ASSISTA entrevista com vereador Andre Kamai avaliando a gestão Tião Bocalom
“Licitação natimorta” e “crime premeditado”
Se Kamai elevou o tom, o vereador Eber Machado (MDB) foi ainda mais longe e tratou o caso como um possível escândalo de grandes proporções. “Essa licitação já é natimorta. Tem 19 irregularidades que qualquer cidadão pode impugnar. Eu não acredito que tenha sido feita por técnico capacitado”, criticou o vereador.
Eber classificou o processo como algo deliberadamente construído. “O maior crime que existe é o premeditado, o arquitetado. Essa licitação foi preparada.”
A empresa Ricco monopoliza a gestão do transporte coletivo de Rio Branco em um contrato emergencial que já a quase cinco anos, sem a prefeitura abrir concorrência pública para que outras empresas se habilitem a operar o sistema. A inércia da gestão Bocalom é alvo de ações e procedimentos do Ministério Público e do Tribunal de Contas, mas sem que nada de fato seja feito até agora.
Para o vereador Éber Machado, o discurso de prejuízo da empresa tem um objetivo claro. “Isso é para afastar outras empresas da licitação. Foi preparado para manter o mesmo grupo.” Machado ainda classificou o caso como o maior escândalo já visto no setor. “Eu não tenho dúvida: é o maior escândalo da história. Estamos falando de um contrato de um bilhão de reais.”

Pressão por investigação e transparência
Diante da gravidade das denúncias e da decisão judicial, os vereadores defendem maior rigor na apuração. Há pedidos para abertura de informações detalhadas sobre a operação da empresa, realização de audiência pública, participação do Tribunal de Contas e do Ministério Público no processo licitatório.
A crise, que já afeta diretamente milhares de usuários do transporte coletivo, agora também se transforma em uma disputa política intensa, com ações graves que podem ter desdobramentos jurídicos e administrativos nos próximos meses.
Entre decisões judiciais, denúncias de irregularidades e discursos inflamados, o transporte público de Rio Branco entra em um momento decisivo.
De um lado, trabalhadores sem garantias e passageiros prejudicados. O que já estava ruim acabou de piorar com o bloqueio da frota da Rico. Uma frota composta por sucatas que quebram a todo instante em via pública – ou pegam fogo do nada.



