Abóbora, banana, batata, goiaba, inhame, macaxeira e melancia só têm como inimigos um pulgão e o veneno de latifundiários

O maior tormento de agircultores familiares no interior de Rondônia, atualmente, chama-se droner, aparelho que fazendeiros vizinhos também utilizam para o despejo de herbiquímicos nos campos de soja, o que ameaça não só os roçados dos assentados, mas a manutenção da floresta em pé.
Montezuma Cruz
dos varadouros de Candeias do Jamari (RO)
Se conseguirem livrar-se da burocracia oficial e de um desconhecido pulgão que começou a atacar roças de melancia, famílias assentadas no Flor do Amazonas diminuirão reclamações, pois a sua produção já foi abraçada pela Companhia Nacional de Alimentos (Conab). O pulgão que também ameaça outras culturas, ainda não chamou a atenção técnica da Emater. Ao mesmo tempo, conforme denuncia a associação de produtores, latifundiários no entorno de suas roças aplicaram herbicida sobre lavouras de soja com droner, prática já proibida em alguns municípios do Maranhão (leia no final do texto).
No mais, os assentados estão bem. Benedito Lino de Jesus, 58 anos, de Vitória (ES), plantou mais 10 mil pés de café robusta amazônico com irrigação, tendo agora 35 mil pés. “Outro dia enchemos 30 tambores café, com 14Kg cada” – informou.
O cafezal de seu Benedito cresce a cada ano Estima-se que o assentamento já tenha um milhão de cafeeiros para este ano e os próximos anos agrícolas.

Em 2012, antes de ser assentado, ele e a esposa, Clarice Guedes dos Santos de Jesus, nascida em Barbosa (SP), trabalhavam em Seringueiras (Sul de Rondônia), a 488 Km de onde se encontram atualmente. Três filhos já se casaram e moram noutras cidades.
Todos nesse assentamento constituído 70% por mulheres reivindicam o urgente vigoramento do selo municipal de qualidade, que lhes causa a perda de R$ 3 no quilo da mandioca manteguinha colhida em quase todos os sítios. “Se a gente embalar e colocar o selo, passamos de R$ 4,74 para R$ 7,54 – cotação desta semana – e aumentamos o fornecimento para o PAA”, previu a tesoureira da entidade, Giceli Silva Santos.
O sítio modelo de seu Benedito foi visitado por técnicos da Embrapa e do INCRA. “Tá tão bom que até o colorau acabou” – ele comentou Esse condimento natural em pó, de cor vermelho alaranjada, feito a partir da trituração das sementes de urucum, está cotado a R$ 15/Kg. No dia sete de abril ele entregou 120 Kg de abóboras. Dali também saem: banana, batata e inhame.
O selo de produtos agrícolas certifica e valoriza a produção, garante a qualidade, segurança e origem dos alimentos. A associação espera o vigoramento da lei municipal sancionada na semana passada para se livrar de atravessadores.
“Precisamos embalar e pesar aqui mesmo nos sítios, e já contamos com o transporte até as cidades (Candeias e Porto Velho)”, reivindica a presidente da associação, Patrícia Matara Pompilho.
O assentamento tem 25 anos, a associação, dez. Recentemente, o senador Confúcio Moura (MDB-RO) destinou emenda parlamentar no valor de R$ 607,1 mil, que ajudou a Conab a adquirir a produção, via Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que são distribuídos ao CRAS, APAE e outras entidades.
A associação reúne mais agricultores e pescadores artesanais. Seus produtos são transportados às cidades em caminhão-baú Gerido pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, o PAA compra alimentos produzidos por pequenos agricultores familiares, assentados, comunidades quilombolas, indígenas e tradicionais, sem a necessidade de licitação, destinando-os a pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional; e redes socioassistenciais.

Em honra a Adelino Ramos
“O senhor conheceu o Dinho?” – pergunta Giceli Santos ao repórter. Dezoito anos depois de viver em barracos de lona, fechar a BR-364 e acampar na sede da superintendência estadual do INCRA, os assentados estão ansiosos por melhorias na regularização de seu trabalho.
Dinho era Adelino Ramos, líder do antigo Movimento Camponês Corumbiara (MCC), executado com cinco tiros quando estacionava o carro para descarregar verduras produzidas no acampamento em que vivia em Vista Alegre do Abunã, a 265 Km de Porto Velho, na divisa entre os estados do Amazonas, Rondônia e Acre. Os ex-acampados do Flor do Amazonas são gratos a ele e sua luta em defesa dos camponeses de Rondônia.
Mãe coragem
Filha de pai pedreiro e mãe costureira vindos de Ji-Paraná, hoje vivendo separada do marido, ela se sente feliz pelas vitórias até agora obtidas. “Nós fomos todos sem-terra, eu mesma tenho duas filhas nascidas no tempo do acampamento que estudam no IFRO (Instituto Federal de Rondônia)”, contou orgulhosa.
Em 2008, com 18 anos de idade e grávida, Patrícia cultivava café conilon em sua área de 80 alqueires, quando todos amargaram perda total das lavouras devido a um incêndio. Não esmoreceu, optando pela diversificação: plantou roças de abóbora, cacau, inhame, mandioca e melancia.
Ela e Giceli, a presidente da associação, dedicam-se plenamente à organização dos negócios, especialmente após a contratação das vendas ao PAA. “Nosso ritmo é quase de 24 horas”, brincou Patrícia.
Perderam tudo três vezes
O maior tormento delas atualmente chama-se droner, aparelho que fazendeiros vizinhos também utilizam para o despejo de herbiquímicos nos campos de soja. “Em Rondônia todos sabem que a soja chegou às beiradas do Jamari; nós aqui bebemos água de poço, cozinhamos com ela, qual será o nosso futuro?”.
Consciente da ameaça do veneno agrícola, Patrícia lembra ter havido prevenção quase duas décadas atrás: “Temos saudades do padre Juquinha, que trouxe cursos de agroecologia e biodinâmica,” O religioso atuava na Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica.
Segundo relata, aguardando, se possível, a visita de técnicos da Emater, apareceu na lavoura de melancia um pulgão desconhecido.
Das antigas agruras – barracos queimados e safras perdidas – as dirigentes ainda se lembram dos despejos comandados por policiais e capangas de fazendeiros incomodados com a presença de acampados nas vizinhanças: “Choramos três vezes a perda da produção, até que no primeiro governo do presidente Lula fomos assentados no Flor do Amazonas.”
João das couves feliz com as goiabas
João Batista Martins dos Santos, 61 anos, cinco filhos e oito netos, procedente de Orocó (PE), deixou por lá a condição de “ceboleiro”: “Eu juntava dezenas de sacos de 20 Kg, mas o preço não passava de R$ 3 o quilo.”
Com a esposa Adeilda com quem se casou há 38 anos, e agora conhecido por João das couves, ele irriga com água de poço artesiano lavouras de banana, couve, cebolinha, coco, goiaba, limão taiti, mamão, mandioca, maracujá, pimenta de cheiro e murupi, Toda a produção é fornecida ao PAA e ao comércio de Candeias.
“Estamos bem neste sítio” – disse mostrando goiabas gigantes. O único senão é a saúde de Adeilda, que sofreu uma trombose, necessitando sair do sítio para ir à cidade se consultar e receber atendimento médico.

de boa qualidade
Consórcio
Giceli Santos, 45, nascida em Presidente Médici, filha de paranaenses criados em Umuarama e que migraram para Rondônia, atualmente cuida da associação e da saúde do marido, Welington de Almeida Santos, 45, em recuperação de um enfarto.
Segundo relata, a distribuição de mudas de cacau de qualidade e o convênio entre a prefeitura e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural motivam o ânimo dos assentados.
Giceli adianta os próximos passos, um deles, a adesão ao Consórcio Intermunicipal de Saneamento da Região Central de Rondônia. “Com isso vamos melhorando cada vez mais a inspeção da produção colhida e de outros setores” – justificou.
Além das 23 famílias de assentados, a associação cuida dos interesses de outros 20 produtores do distrito de Triunfo, da Linha 45, Assentamento Rancho Alegre, e Paraíso das Acácias.
* NOTA
∎ A Prefeitura de Bacabal (MA) sancionou a Lei Nº 1.725, que proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos por aeronaves, pilotadas ou não. Também no Maranhão. Aldeias Altas e Timbiras também editaram suas leis.
∎ O caso de Bacabal destaca-se não só pela proibição específica de drones para esta finalidade, como pela capacidade de mobilização das comunidades afetadas e o envolvimento positivo do poder público. A aprovação ocorreu após o município decretar situação de risco sanitário e ambiental por intoxicação de agrotóxicos, em virtude da contaminação de hortas e poços na comunidade Pau D’Arco.
∎ Em janeiro de 2026 foram relatadas situações de 142 comunidades de 16 municípios atingidas por agrotóxicos no Maranhão, dado maior do que todo o ano de 2025, onde foram recebidas denúncias formais de 122 comunidades.
∎ Lançados por aviões e drones, os agrotóxicos são considerados uma forma de expulsar as famílias de territórios tradicionais para dar lugar a pastos e monocultivos, como a soja”, explica a Secretária Executiva da Rede Agroecológica do Maranhão (Rama), Ariana Gomes.
(Informes do jornal Brasil de Fato e da Rama)



