Alunos, técnicos e professores vão às urnas em disputa pela Reitoria marcada por alianças improváveis

Com três chapas na corrida, eleição para novo ou nova reitora da Universidade Federal do Acre (Ufac) expõe divisões internas, críticas ao processo e mistura inédita de apoios entre esquerda e direita. Essa é uma eleição que ultrapassa os limites dos dois campus da instituição – e já revelando o que pode vir a ser as Eleições 2026 no estado.
João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco
A Universidade Federal do Acre (Ufac) realiza nesta quinta-feira, 19 de março, a consulta à comunidade acadêmica que vai definir os rumos da única instituição de ensino superior pública do estado para o quadriênio 2026-2030. Em um cenário marcado por disputas internas intensas e alianças políticas pouco convencionais, três chapas concorrem ao comando da universidade, mobilizando estudantes, técnicos e professores em uma eleição que ultrapassa os limites do campus – e já revelando o que pode vir a ser as Eleições 2026 no estado.
A votação será realizada de forma online e o resultado deve ser divulgado já no dia seguinte, 20 de março, antes do envio da lista tríplice ao Ministério da Educação. A Comissão Eleitoral reforçou que o processo segue com três candidaturas oficialmente registradas: “Radical é a Mudança!”, com Raquel Alves Ishii e Suerda Mara Monteiro Vital; “Dialogando com as pessoas e construindo o futuro!”, com Josimar Batista Ferreira e Marco Antonio Amaro e “Juntos pela Ufac!”, com Carlos Paula de Moraes e Almecina Balbino Ferreira.
Apesar das diferenças programáticas, a eleição tem revelado um fenômeno incomum, com alianças que atravessam espectros ideológicos. Apoiadores de campos políticos opostos, da esquerda tradicional a setores identificados com o bolsonarismo, aparecem distribuídos entre as chapas, evidenciando um rearranjo pragmático de forças dentro da universidade.
Alunos, professores e técnicos administrativos dos campus Rio Branco e do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, estão aptos a votar – fazendo com que a disputa pela reitoria da Ufac tenha reflexos políticos do Vale do Acre ao Vale do Juruá. Atualmente, a comunidade acadêmica da Ufac é formada por aproximadamente 14 mil pessoas.

Bastidores tensionados e críticas ao processo
Nos bastidores, o clima é de tensão. Parte do corpo docente critica a forma como algumas candidaturas foram construídas, especialmente no campo da oposição. O professor Nilson Euclides da Silva, do Centro de Ciências Sociais, por exemplo, faz críticas diretas ao processo que levou ao lançamento da chapa liderada por Raquel Ishii.
“Aos 45 minutos do segundo tempo, retiraram uma candidatura da cartola sem consultar as bases”, afirma. Segundo ele, faltou diálogo interno. “Jamais vou apoiar uma candidatura construída por um grupinho, sem ouvir os professores”, dispara Nilson.
O professor, que já foi candidato a governador pelo Pscol, declara apoio à candidatura de Carlos Paula de Moraes, apontando o critério do diálogo como decisivo: “Entre o grupelho e uma candidatura que demonstra mais disposição ao diálogo, eu fico com o diálogo.”
Para ele, a disputa tende a se concentrar entre candidaturas ligadas à atual gestão: “Acredito que a decisão fique entre Carlos e Josimar; não vejo a outra chapa chegando com força”, argumenta.
As críticas expõem fissuras internas e reforçam a percepção de que o processo eleitoral na universidade, assim como na política tradicional, é permeado por disputas de grupos e estratégias de poder.

Apoios e defesa de mudança
Se por um lado há críticas, por outro há forte mobilização em defesa da chapa “Radical é a mudança!”. O professor João Lima, do Centro de Filosofia, apoiador da candidatura, sustenta que o projeto representa uma construção histórica dos movimentos sociais dentro da universidade.
“Essa candidatura nasce do movimento sindical, do movimento estudantil e da luta histórica em defesa da universidade pública”, afirma. Segundo ele, a proposta vai além de uma articulação de última hora: “É uma chapa construída a partir de princípios, que defende uma universidade democrática, aberta, com valorização da ciência e das três categorias”. [professores, alunos e técnicos]
João Lima também rebate críticas sobre alianças políticas e afirma que a mobilização externa é natural: “A universidade mobiliza a sociedade. É natural que movimentos sociais, sindicatos e até partidos participem desse debate.”
Para ele, a eleição representa uma oportunidade de mudança estrutural: “O que a gente precisa é mudar a universidade para melhor, tanto na gestão quanto nas atividades acadêmicas”.

Disputa aberta e cenário imprevisível
Enquanto isso, a candidatura de Carlos Paula de Moraes se apresenta como uma alternativa de continuidade com promessa de maior diálogo, enquanto Josimar Batista Ferreira aposta em um discurso de construção coletiva e escuta da comunidade.
Josimar tem um plano de governo para a Ufac com 62 páginas. “A presente proposta resulta do compromisso coletivo de docentes, técnicos administrativos e discentes, unidos pelo objetivo comum de fortalecer a instituição em suas dimensões estudantil-acadêmica (ensino-pesquisa-extensão), científica, tecnológica, cultural, social e administrativa”, argumenta.
Historicamente, as eleições da Ufac mobilizam não apenas a comunidade acadêmica, mas também a sociedade acreana como um todo. Neste ano, esse envolvimento ganhou novos contornos, com alianças cruzadas e discursos que lembram disputas partidárias.
Mais do que escolher dirigentes, estudantes, técnicos e professores decidem, nesta quinta-feira, qual projeto de universidade querem para os próximos quatro anos — em uma eleição que reafirma a Ufac como espaço de confronto de ideias, articulação política e exercício democrático.



