O Iaco se encontra com o Iaco – ou o Yaco?

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O rio Iaco, em Sena Madureira, afluente do rio Purus (Foto: Agência de Notícias do Acre)





Um encontro com o Rio Iaco

Por Iaco Martins*

Morar em São Paulo sendo acreano, é conviver com as piadas do “o Acre existe?” ou muito comumente ouvir um “nossa, é o primeiro acreano que eu conheço”. Eu saí de Rio Branco com 7 anos de idade no início dos anos 90, porém as impressões da primeira infância ficaram fortemente registradas em meu ser e cada visita que faço ao Acre, por todos estes anos, é uma reconexão com minhas origens.

Alguns vínculos eu criei, como a tatuagem do estado do Acre preenchido com as cores da bandeira no braço e o livro Um Roteiro Inusitado, do Acre à Indonésia com os pés na Capoeira, em que muito da motivação para escrever foi fornecer ao povo paulista informação sobre a vida acreana.

Mas tem um vínculo eterno que me foi dado ao nascer: o nome Iaco.

Neste exato momento em que escrevo, acabei de voltar de Sena Madureira para Rio Branco, uma viagem improvisada com a finalidade de ver o principal Iaco do país, o nosso rio, e também conhecer alguns parentes, já que a raiz da família paterna está intimamente vinculada ao lugar, com as origens no seringal Nova Olinda.

Pegando uma carona com um primo que trabalha em Manoel Urbano e passa por Sena, a primeira coisa que vi foi que não seria fácil essa viagem de ida pela BR-364. Apesar de uma distância relativamente curta entre cidades, uma estrada de uma reta só, a buraqueira faz a viagem ficar longa e cansativa.




É um acelera e freia constante que, pra quem costuma enjoar no carro, torna-se um desafio, aumentado por sentar-me no banco de trás. Usando as táticas alternadas de olhar a linha reta da estrada o mais longe possível, conversar pra distrair, observar a paisagem imaginando como era antes de todo o desmatamento e respirar fundo, enfim chegamos a Sena Madureira.

Diretamente guiado para a casa de primos e sobrinhos, fui muito bem recebido por todos. Com a força do café com tapioca e banana, saí acompanhado do meu primo recém-conhecido Dean, para ver o Rio Iaco e fazer um tour pela cidade. O cenário na beira do rio, com estivadores carregando a banana que acabara de chegar na cidade, barcos e canoas de um lado e de outro, os barrancos fortemente impactados pela força das águas e troncos e tocos que esta mesma tinha arrastado me emocionaram.

Apesar de não ver explicitamente a fúria das águas, o significado indígena de Iaco (Yaco), pude sentir toda sua essência e rebeldia. Como o povo do lugar estava me contando…ele é imprevisível, muda suas curvas, praias, desbarranca com facilidade. Fiquei um bom tempo admirando o rio e me senti honrado de carregar seu nome.

A visitação continuou pela cidade de Sena Madureira, que passa a impressão de tranquilidade, com suas avenidas planejadas bem largas e um povo simpático ao estranho que lhe visitava. Senti uma sensação de aconchego ao sentir aquele clima de interior com praças, o Mercado Municipal, quermesse de Igreja.

Porém, a decadência de prédios históricos como o Instituto Santa Juliana e o Museu ao seu lado, passaram uma sensação de descaso do poder público para com uma cidade que carrega um passado glorioso e uma rica história.

Foi chegando a hora de ir embora. Afinal, já tinha colocado em minha cabeça que seria um “bate-volta”. A estratégia inicial que me foi sugerida, de pegar um táxi na praça se mostrou inviável pela completa ausência deles.

Eu, muito tranquilo, com o meu plano B, pedi uma carona até a Rodoviária de Sena, pois já tinha visto na internet que o ônibus tinha o horário das 18 horas. Aí o fato de morar em São Paulo pesou contra.

Acostumado com as facilidades logísticas da grande metrópole, achei que seria fácil: comprar passagem no guichê e subir no ônibus. Ledo engano. Primeiramente, não existia um guichê. Tinha uma mesa com uma moça e dois rapazes jogando dominó e fumando narguilé que me informaram que o ônibus vinha de Cruzeiro do Sul, e que geralmente chegava entre 20hs e 21hs.

Aí complicou a planificação de um acreano que carrega em sua bagagem a ansiedade paulistana. Mas com a gentileza de minha prima Zezinha, fui de carona com ela comer um churrasquinho e fazer hora. Quando foi 20 horas, retornamos para ver se o ônibus tinha chegado, ou pior ainda: se já tinha passado e eu tinha perdido a viagem.

Nem sinal.

Fomos para a casa de Zezinha, me deitei na rede e fiquei fazendo hora no celular. Faltando 10 minutos para as 21 horas, lá vamos nós de novo tocar para a rodoviária em busca do dificultoso ônibus. Tudo apagado na rodoviária, e a única pessoa próxima era um vascaíno que também estava rondando o lugar com a agonia de chegar a Rio Branco.

Agradeci os esforços de Zezinha e disse que não precisava ficar ali esperando, eu iria me juntar ao vascaíno na vigília.

E o tempo foi passando, nove e meia….Neymar vai pra copa ou não vai?….dez horas da noite…será que o ônibus não vem hoje?…dez e quinze… Spinelli tem que ser sempre titular no Vasco, tem muita raça….

Comecei a colocar limites mentais de horário. Dez e quarenta e cinco me parecia o limite dos limites, mas quando chegou dez e meia da noite, resolvi aumentar para sei lá mais quanto tempo, pois a perseverança do vascaíno me inspirou a me manter firme na luta. E era grilo verde voando nas cabeças de 5 em 5 minutos. Até os gatos da rua vieram pra perto pra pegar um “lanchinho” grátis.

Quando deu 23 horas o vascaíno decidiu ir lá no posto de gasolina pra ver se tinha alguma informação do ônibus. Passou 5 minutos e o ônibus chegou. Lá vem o vascaíno descendo a ladeira correndo, e o alívio de que chegaríamos a Rio Branco.

Como não tinha guichê, a passagem é paga diretamente ao motorista e só aceita dinheiro em espécie!

Em São Paulo não ando nem com uma nota de 2 reais, mas chegando em Rio Branco e vendo meu pai, o jornalista Elson Martins, usando dinheiro em notas, resolvi seguir o ensinamento dos antigos e saquei uns 100 reais.

Foi o que salvou pra me garantir no embarque naquele momento de agonia.

O ônibus estava relativamente vazio, o que me lembra que um sujeito de má sorte, além de ficar esperando por horas sem saber ao certo por onde anda o tal ônibus, pode não embarcar por falta de lugar. Começamos a viagem e em menos de 1 minuto a primeira parada: no posto para o pessoal jantar.

Nem me abalei com isso, pois a garantia de que chegaria ao meu destino já me confortava.

Enfim chegou o momento de seguir viagem, rumo aos buracos da estrada.

Seguindo o conselho de minha amiga, tomei um medicamento para enjoo, e foi salvador, porque mais de três horas balançando pra lá e pra cá, mesmo com sono e cansado, não é fácil.

Após as diversas paradas, lá pelas duas e meia da madrugada chegamos na Rodoviária de Rio Branco.

Aí começou a luta pra arrumar um Uber.

Mas isso é assunto para outra hora.



Iaco Martins é Contra Mestre da Escola Cultural Zungu Capoeira, autor do Livro “Um Roteiro Inusitado, do Acre à Indonésia com os pés na Capoeira”, formado em Educação Física pela FMU, atualmente morando em São Paulo.

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