Mulheres indígenas ocupam o ATL e denunciam violência como parte da disputa por território

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Plenária discutiu caminhos e soluções para as questões de violência de gênero nos territórios: representação política e ocupação de espaços de poder estão entre as estratégias. (Foto: Isaka Huni Kuin/ Coletivo de Comunicação Indígena Tetepawa Comunica)

Lideranças articuladas pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga) conectaram o avanço da violência à ausência de demarcações e defendem a ocupação de espaços políticos como estratégia de proteção coletiva.

dos Varadouros de Manaus com colaboração de Isaka Huni Kuin, do Coletivo de Comunicação Indígena Tetepawa Comunica

No quarto dia do Acampamento Terra Livre 2026, as vozes das mulheres indígenas ocuparam o centro do debate político nacional, transformando a plenária em um território de denúncia, articulação e afirmação de direitos, durante esta quarta-feira, 08.04. Organizado pela Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade, o encontro “Respeitem corpos e territórios; Ancestralidade é força, território é vida” reuniu lideranças de diversas regiões para discutir as múltiplas violências enfrentadas nos territórios e nas cidades — e a urgência de ampliar a presença indígena nos espaços de poder.


A preocupação da plenária em apontar caminhos e soluções para as questões de violência de gênero nos territórios e ocupação de espaço público ficou expressa por meio das lideranças que defenderam que o enfrentamento à violência passa, necessariamente, pelo fortalecimento do protagonismo político das mulheres indígenas, dentro e fora das aldeias.


A cofundadora da Anmiga, Juliana Jenipapo Kanindé, destacou que o cenário eleitoral de 2026 se apresenta como uma oportunidade estratégica para avançar na representação indígena institucional e romper ciclos históricos de exclusão.


Os dados reforçam a gravidade do cenário: a violência contra mulheres indígenas cresceu 258% entre 2014 e 2023, com um aumento ainda mais acentuado na região Norte, onde os índices chegam a 411%, de acordo com levantamento feito pela organização de mídia Gênero e Número a partir de dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do Ministério da Saúde.


Estudo publicado em maio de 2025, revelou que a violência contra mulheres indígenas no Brasil aumentou 258% entre 2014 e 2023, superando a média nacional de crescimento entre todas as raças, que foi de 207%. Esse cenário é ainda mais crítico na região Norte, onde o salto nos registros chegou a 411% no mesmo período.


Entre os principais tipos registrados estão a violência Sexual,, com um aumento de 297% nos registros e onde metade das vítimas (50%) são meninas menores de 14 anos; violência física, forma mais comum de agressão relatada, presente em 64% de todos os registros feitos por mulheres indígenas entre 2014 e 2023 e cujo crescimento foi de 178% na última década; e violência psicológica, que teve um aumento de 189% nos casos notificados, evidenciando uma pressão sistemática que atinge a saúde mental e a autonomia dessas mulheres.


O levantamento apontou ainda que um em cada três registros de violência tem como agressor o cônjuge ou namorado da vítima. Especificamente na violência física, essa proporção sobe para 37%.
A vulnerabilidade socioeconômica imposta pelo racismo, que retira a autonomia financeira das mulheres e a omissão do Estado em garantir políticas de prevenção, acolhimento e proteção que respeitem as especificidades das populações originárias são os principais fatores que contribuem para o cenário.
Para fazer frente a essa realidade e diante da exclusão de mulheres indígenas dos espaços de decisão, a plenária realizada durante o ATL reforçou a necessidade de ter candidaturas de mulheres indígenas nas eleições de 2026. Atualmente, quatro mulheres indígenas exercem o mandato de deputada federal na Câmara dos Deputados: Célia Xakriabá (Psol-MG), Juliana Cardoso (PT-SP), Sônia Guajajara (Psol-SP) e Silvia Waiãpi (PL-AP).


Liderança da Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (Anmiga), a cacique Were reforça que a invisibilização também é uma forma de violência. De acordo com a Apib,
De 2016 para 2024, o número de mulheres indígenas candidatas cresceu 130%, passando de 192 para 441 candidaturas.


Nas eleições municipais de 2024, foram eleitas 39 mulheres indígenas vereadoras. Dentre as 9 prefeituras conquistadas por indígenas, 1 foi por uma mulher indígena: Ninha (PSD), do município de Marcação, no Litoral Norte da Paraíba. Ela é da etnia Potiguara e conquistou 76,79% dos votos válidos no último pleito. Ao todo, 256 indígenas foram eleitos em 2024 para os cargos municipais, um aumento de 8% em relação a 2020.


Marcha leva à Esplanada o elo entre corpo e território


Sob o sol intenso de Brasília, a mobilização indígena ganhou as ruas com a primeira marcha de duas previstas, intitulada: “Demarca Lula: Brasil soberano é terra indígena demarcada e protegida”, durante esta terça-feira, 07.04. Com o lema “Nosso futuro não está à venda: a resposta somos nós”, milhares de mulheres indígenas e apoiadores caminharam pela Esplanada dos Ministérios concentrando-se em frente ao Congresso Nacional em Brasília, em um ato que combinou denúncia, memória e pressão política.


A marcha também foi um tributo às lideranças assassinadas em conflitos fundiários recentes, especialmente em estados como Bahia e Maranhão. Nos cantos, faixas e corpos em movimento, ficou evidente a mensagem central do ATL: não há separação entre a proteção dos territórios e a integridade das mulheres indígenas.


Entre as principais reivindicações está a assinatura de 76 processos de homologação de terras indígenas que aguardam decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, representada pelo coordenador Kleber Karipuna, a demora nas demarcações expõe comunidades inteiras — e de forma mais aguda as mulheres — à violência de invasores, garimpeiros e grileiros.
Ao final do percurso, lideranças reforçaram a mensagem de que sem território demarcado e protegido, não há garantia de vida digna — e tampouco de segurança para as mulheres indígenas.

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