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Chuva fora do padrão pressiona rios no Acre, Amazonas e Rondônia e mantém região em alerta

Alagações constantes do rio Acre fazem as famílias das periferias de Rio Branco ter que conviver com saídas e voltas frequentes às suas casas; em menos de um mês, manancial transbordou 2 vezes (Foto:: Clemerson Ribeiro/Secom/AC)





Atuação combinada de sistemas climáticos intensifica chuvas, eleva níveis dos rios e amplia riscos para áreas ribeirinhas e urbanas na Amazônia Ocidental. Pesquisadores alertam que a Floresta Amazônica pode estar caminhando para um regime climático até então não observado nos trópicos, denominado clima hipertropical,





dos varadouros de Rio Branco (AC) e de Manaus (AM)


O início de 2026 tem sido marcado por um cenário climático fora do padrão em grande parte da Amazônia Ocidental, onde está a região Amacro – Amazonas, Acre e Rondônia. Chuvas intensas e mal distribuídas vêm alterando a dinâmica dos rios no Acre, no Amazonas e em Rondônia, ampliando riscos para populações ribeirinhas, pressionando sistemas de drenagem urbana e mantendo órgãos de monitoramento em estado de atenção permanente. A atuação simultânea de sistemas atmosféricos de grande escala ajuda a explicar por que janeiro já se consolida como um dos meses mais instáveis dos últimos anos na região.

As últimas atualizações de alerta meteorológico divulgadas pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que grande parte da Região Norte, incluindo áreas do Acre, Amazonas e Rondônia, está sob alerta amarelo para chuva intensa, ventos e riscos de transtornos, com precipitações que podem variar entre 20 e 30 mm por hora ou até 50 mm ao dia e rajadas de vento entre 40 e 60 km/h, o que eleva as chances de alagamentos, queda de galhos e interrupções de energia elétrica nos próximos dias.

No Acre e em pontos do Amazonas, a persistência de instabilidade reforça o quadro de chuvas acima da média para janeiro, refletindo a atuação de sistemas como a Zona de Convergência do Atlântico Sul, que concentra umidade e favorece precipitações volumosas sobre o interior da Amazônia, enquanto localidades mais isoladas seguem registrando variações irregulares no regime de chuva.

Em Rondônia, o alerta abrange especialmente o leste do estado e a região do Madeira-Guaporé, onde a combinação de chuva forte e ventos pode intensificar a elevação dos rios e dificultar a mobilidade nas vias urbanas e rurais caso os acumulados persistam.

Situação mais crítica é no Acre

No Acre, as chuvas acima da média histórica vêm sendo registradas desde os primeiros dias do mês. Boletim meteorológico divulgado pelo Centro Integrado de Geoprocessamento e Monitoramento Ambiental (Cigma) aponta que, apenas nos primeiros 20 dias de janeiro, municípios como Brasiléia acumularam mais de 516 milímetros (mm) de chuva, volume muito superior à média climatológica prevista para todo o mês. Em Rio Branco, o acumulado ultrapassou os 400 mm até o dia 21 de janeiro, enquanto cidades do interior, como Manoel Urbano, Assis Brasil e Jordão, também registraram índices elevados.

Esse volume de precipitação já reflete no comportamento dos rios. Em Rio Branco, o Rio Acre chegou ao volume de 14,71 metros (m), na tarde de quinta, 21, que é a maior cota já registrada – até agora – em 2026 – isso após o manancial já ter transbordado duas vezes em 2025. A atual alagação é a segunda em menos de um mês.

Apesar de janeiro ser um período tipicamente chuvoso na região Sul da Amazônia, ele não costuma ser de grandes transbordamentos. Antes de 2026, houve registros de alagação do rio Acre em Rio Branco em apenas outros três anos: 2012, 2019 e 2020.



Veja também: Em 53 anos de medições, Rio Branco tem 42 registros de enchentes; prefeitura volta a decretar situação de emergência


No Vale do Juruá, em Cruzeiro do Sul, o nível do rio segue elevado. Na quarta, 20, o rio Juruá estava em 13,46, reduzindo para 13,23m no dia seguinte. Nas bacias do Purus e do Tarauacá-Envira os rios apresentam oscilações constantes, alternando momentos de subida e descida conforme a intensidade das chuvas em cada região.

O rio Juruá, em Cruzeiro do Sul; que também superou a cota de transbordamento neste começo de 2026 (Foto: Fabio Pontes/Varadouro)



A previsão indica que o padrão chuvoso deve persistir. Nos próximos dias, o céu deve permanecer nublado a encoberto em todas as regiões acreanas, com pancadas de chuva frequentes e possibilidade de trovoadas isoladas.

As temperaturas variam entre 29 °C e 31 °C, com umidade relativa do ar elevada, podendo chegar a 95% nos períodos mais chuvosos. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu dois avisos de chuvas intensas para o estado: um classificado como “perigo potencial”, com previsão de até 50 milímetros por dia, e outro de maior severidade, com volumes que podem alcançar 100 milímetros em 24 horas, acompanhados de ventos fortes.

A Defesa Civil do Acre avalia que, apesar de oscilações pontuais, o cenário ainda exige cautela. “Mesmo quando há pequenas reduções nos níveis, o solo permanece saturado, o que aumenta o risco de novas elevações rápidas caso as chuvas continuem nas cabeceiras”, informou o órgão em boletim hidrológico. Situação semelhante é monitorada em Rondônia, onde equipes municipais acompanham diariamente o comportamento de rios como o Madeira e seus afluentes, especialmente em áreas ribeirinhas de Porto Velho e do interior do estado.

Chuvas intensas e estiagens fora de época no Amazonas e em Rondônia

No Amazonas, embora o regime de chuvas também esteja dentro do período considerado normal para o inverno amazônico, os episódios recentes têm chamado atenção pela intensidade e pela irregularidade. Em Manaus, chuvas fortes e prolongadas provocaram alagamentos em ruas e avenidas, afetando a mobilidade urbana e evidenciando a sobrecarga do sistema de drenagem da capital.

Ao mesmo tempo, municípios do interior do estado enfrentam situações opostas, com trechos de rios apresentando níveis baixos para a época do ano, dificultando o transporte fluvial e o abastecimento de comunidades ribeirinhas.

Essa combinação de chuvas intensas, que atingem sobretudo a área urbana de Manaus, e de secas localizadas no interior do estado — especialmente na calha do Alto Rio Solimões — evidencia a distribuição desigual das chuvas sobre o território amazonense.

Estudos e análises climáticas recentes apontam que fatores como o desmatamento e a alteração da cobertura florestal têm contribuído para mudanças no regime de chuvas da Amazônia, intensificando os extremos climáticos. Projeções indicam que, ao longo de 2026, rios como o Negro podem alternar períodos de cheia elevada com vazantes mais acentuadas, ampliando a instabilidade hidrológica no estado.

Em Rondônia, o início do ano também tem sido marcado por chuvas intensas e sucessivos alertas meteorológicos. O Inmet emitiu avisos de perigo e perigo potencial para Porto Velho e municípios da região do Madeira-Guaporé, com previsão de volumes elevados de precipitação em curto espaço de tempo, além de rajadas de vento e risco de alagamentos. Defesas Civis municipais monitoram a elevação rápida de rios de menor porte, como o Jaru, que já apresentou subida expressiva do nível, acendendo o alerta para áreas ribeirinhas.

Uma Amazônia de extremos: em agosto de 2024, uma grande seca atingiu o Sul da Amazônia Ocidental, levando os mananciais a níveis críticos de vazante, como o rio Amônia, em Marechal Thaumaturgo (AC) (Foto: Juan Diaz)



O Rio Madeira, principal eixo hidrológico de Rondônia e um dos mais importantes da bacia amazônica, apresenta comportamento típico de anos com maior instabilidade climática. Durante a estação chuvosa, o rio tende a responder rapidamente às chuvas concentradas nas cabeceiras, elevando o risco de transbordamentos em áreas urbanas e rurais.

Ao mesmo tempo, a experiência recente de secas severas mantém autoridades em atenção quanto à possibilidade de oscilações bruscas ao longo do ano, com impactos diretos sobre navegação, pesca e abastecimento, visto que trata-se da hidrovia mais importante da Amazônia Ocidental.

De acordo com análises climáticas que embasam os boletins meteorológicos nos três estados, o volume de chuva fora do padrão está associado à combinação de fatores atmosféricos e oceânicos. O resfriamento das águas do Oceano Pacífico Equatorial, somado a anomalias de temperatura no Atlântico, tem favorecido a formação de áreas persistentes de instabilidade sobre a Região Norte.

A atuação da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), comum nesta época do ano, intensifica ainda mais o transporte de umidade da Amazônia e do oceano para o interior do continente, resultando em chuvas frequentes, generalizadas e volumosas.

Modelos climáticos utilizados por órgãos como o CPTEC/Inpe, o Inmet e o Censipam indicam que o trimestre entre janeiro e março deve registrar chuvas acima da média em grande parte do Acre, do sul do Amazonas e de Rondônia. Apesar de alguns rios apresentarem reduções pontuais em determinadas leituras, o cenário geral ainda inspira cuidados.

A previsão para os próximos dias indica que o padrão chuvoso deve persistir, com acumulados semanais que podem variar entre 50 e 150 mm em diferentes áreas da Amazônia Ocidental, reforçando a necessidade de atenção contínua às populações mais vulneráveis aos impactos das cheias e dos eventos extremos.


SAIBA MAIS em nossa editoria Mudanças Climáticas


Alerta

Pesquisadores alertam que a Floresta Amazônica pode estar caminhando para um regime climático até então não observado nos trópicos, denominado clima hipertropical, caracterizado por temperaturas extremamente altas combinadas com secas prolongadas e intensas, condições que superam 99% dos registros históricos para regiões tropicais e que, em projeções, podem ocorrer até 150 dias por ano nas próximas décadas se as emissões de gases de efeito estufa não forem reduzidas.

As informações são do artigo “Historical deforestation drives strong rainfall decline across the southern Amazon basin”, publicado em 13 de janeiro, na revista científica Nature Communications.

Esse novo padrão climático ameaça a capacidade da floresta de funcionar como sumidouro de carbono, podendo alterar profundamente sua estrutura, aumentar a mortalidade de árvores e comprometer processos hidrológicos essenciais ao bioma, fenômeno que já tem sido percebido em episódios recentes de “secas quentes” e registros de baixíssimos níveis de rios no interior da Amazônia.

Especialistas ligados a programas de pesquisa sobre variabilidade climática e interação biosfera-atmosfera, como os coordenados por instituições científicas com atuação no Brasil, destacam que mudanças no clima regional colocam em risco o equilíbrio ecológico da maior floresta tropical do planeta e reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

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