Após cinco décadas, Rio Branco registra alagação em dezembro

No fim de 2025, Rio Branco é atingida por uma grande alagação em pleno mês de dezembro — fato que não ocorria desde 1975. Desde então, desmatamento avançou na região leste do estado, onde se localiza a Bacia do Rio Acre. Ocupação das margens pela agropecuária já fez manancial perder 40% da mata ciliar, deixando-o mais suscetível a grandes inundações e secas extremas.
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
Apesar de se caracterizar por um período de chuvas intensas, dezembro não costuma registrar a ocorrência de enchentes no Acre. O mês, na grande maioria das vezes, antecede as grandes alagações que tendem a ocorrer entre janeiro, fevereiro e março. Na sabedoria dos mais antigos, diz-se que, se dezembro for de muita chuva, é sinal de que rios e igarapés vão transbordar nos meses seguintes. Agora, contudo, a realidade é outra, diante de uma mudança climática que afeta a região amazônica de forma mais intensa e acelerada.
Neste fim de 2025, Rio Branco é atingida por uma grande alagação em pleno mês de dezembro — fato que não ocorria desde 1975. No último sábado, dia 27, o rio Acre superou a cota de transbordamento, atingindo bairros e desabrigando famílias. O transbordamento é consequência direta das intensas chuvas que atingem a região desde o dia 24 de dezembro.
Ao meio-dia desta segunda-feira, 29, o manancial marcava 15,37 metros. Além de atípica para o período, a atual inundação chama atenção por outro fator histórico: trata-se da segunda enchente registrada no mesmo ano. Em março, a cidade já havia sido afetada por uma cheia, quando o rio alcançou a marca de 15,88 metros.
“Em todo o nosso histórico de 55 anos de monitoramento, observamos que apenas uma vez houve transbordamento no mês de dezembro, em 26 de dezembro de 1975”, afirma o tenente-coronel Cláudio Falcão, coordenador da Defesa Civil Municipal. “Tivemos uma situação semelhante em dezembro de 2019, quando o rio marcou 13,78 metros.” A cota oficial de transbordamento é de 14 metros.
Ao longo desses 55 anos de aferições, Rio Branco contabiliza 44 registros de enchentes — já incluídas as duas ocorridas em 2025.
As autoridades já trabalhavam com a possibilidade de uma enchente ainda em dezembro. Desde meados de novembro, o Sul da Amazônia vem sendo afetado por chuvas intensas. O cenário é influenciado pelo início de um episódio de La Niña fraco, já identificado em todas as regiões de monitoramento do Pacífico Equatorial.
De acordo com dados da Agência Nacional de Águas (ANA), Rio Branco registrou um acumulado de chuvas de 483 mm até 28 de dezembro. Na Bacia do rio Acre, o município com a maior quantidade de chuvas é Capixaba, com 549 mm.
A anomalia, combinada ao aquecimento do Atlântico Norte, altera o posicionamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT), atrasando o início do período chuvoso na Amazônia Oriental, ao mesmo tempo em que o antecipa e intensifica na porção Ocidental. As chuvas mais severas ocorrem após dois anos de seca extrema, que levaram a região ao colapso das queimadas e à redução drástica dos níveis dos rios.

Menos floresta, mais crise climática
De 1975 para cá, muitas coisas mudaram na realidade das populações amazônidas — especialmente no clima. Naquele período, o termo “crise climática” sequer fazia parte do vocabulário corrente, e a região onde hoje se localiza a capital acreana era coberta por uma Floresta Amazônica praticamente intacta.
Desde então, o desmatamento avançou de forma acelerada na região leste do estado, onde se localiza a Bacia do Rio Acre, afluente do Purus. É exatamente nessa área que se concentra mais de 70% de toda a área desmatada do Acre.
Até 2024, o estado já havia perdido 17% de sua cobertura florestal. Quando se analisam os dados por município, o cenário se torna ainda mais crítico: até o ano passado, a área de floresta devastada dentro dos limites de Rio Branco chegou a 38,5%. Ao longo das últimas seis décadas, a capital perdeu mais de 340 mil hectares de cobertura florestal.
Não por acaso, essa é a região consolidada pelo processo de “bovinização”, iniciado a partir da década de 1960. Além da pecuária extensiva, a partir de 2018 o Vale do Acre passou a ser ocupado pela monocultura da soja. Os municípios líderes em taxas de desmatamento estão no cinturão da chamada Zona Amacro — composta por Amazonas, Acre e Rondônia —, a nova fronteira de expansão do agronegócio no Sul da Amazônia Ocidental.
Entre as áreas mais afetadas — não por acaso — estão as margens do rio Acre, desde suas cabeceiras em Assis Brasil até a foz em Boca do Acre, no Amazonas, onde o rio encontra o Purus.
Desde o início da ocupação de suas margens pela atividade agropecuária — intensificada a partir da década de 1970 —, o rio Acre já perdeu 40% de toda a extensão de sua mata ciliar. Sem a floresta de borda, o manancial tornou-se mais suscetível a eventos climáticos extremos, o que resulta em grandes alagações e vazantes críticas.

Dos 11.670 hectares de mata ciliar do rio localizados em território acreano, cerca de 4,5 mil estão completamente devastados. De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em seu núcleo da Universidade Federal do Acre (Ufac), Epitaciolândia é o município com a maior área de mata ciliar devastada: 58%. Em segundo lugar, com 43%, está Rio Branco.
Ao perder quase metade de sua vegetação nativa, o rio Acre tornou-se mais vulnerável a eventos climáticos extremos, provocando grandes inundações que atingem cidades e comunidades ribeirinhas no inverno, além de vazantes severas que comprometem a segurança hídrica de metade da população acreana durante o verão.
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Outro efeito direto da destruição da mata ciliar é o aumento do transporte de sedimentos para o leito do rio, processo conhecido como assoreamento. Quanto maior a carga de sedimentos, mais raso se torna o leito.
“Quando se tem uma área sem floresta, o rio tende a ficar mais assoreado, pois mais sedimentos são levados pela força das águas. Um rio assoreado implica um leito mais raso, com pouca profundidade. Por isso, o rio Acre, aqui na região de Rio Branco, quando ocorre uma chuva mais acentuada, apresenta maior risco de alagamento, justamente porque já perdemos grande parte da nossa mata ciliar”, explica o cientista Evandro Ferreira, do Inpa/Ufac.




