O “Desaguar da COP30”: Semana Chico Mendes 2025 conecta debates globais ao território do Acre

Para a organizadores, este é o momento de traduzir os resultados da Conferência do Clima de Belém para a realidade das comunidades amazônicas. O evento no Acre serve como um contraponto necessário aos grandes encontros diplomáticos. Há mais de quatro décadas, em sua luta pela defesa da floresta e de seus povos, Chico já alertava para os impactos da devastação em nome do “progresso”.
dos varadouros de Rio Branco
Após a intensa mobilização global em Belém durante a trigésima edição da Conferência do Clima, o movimento socioambiental acreano realiza um movimento de retorno às suas bases. O Comitê Chico Mendes promove, entre 15 e 22 de dezembro, a Semana Chico Mendes 2025. Com o tema “O Desaguar da COP30”, a programação marca a volta das grandes discussões globais para o território onde a luta se faz prática diária.
A Semana Chico Mendes mantém vivo o legado e a história de luta do líder seringueiro, reforçando a sua atualidade para os dias de hoje. Passados quase 40 anos da morte de Chico Mendes, a Amazônia continua a enfrentar os mesmos problemas que ele e seus companheiros e companheiras se depararam entre as décadas de 1970 e 1980.
“Ele teve uma atuação muito forte e justamente atingindo, ou impactando aqueles que, até hoje, procuram não só falar mal dele, mas continuar com as más práticas da época dele. Ele era uma pessoa muito conciliadora. A sua grande defesa sempre foi o ponto de equilíbrio”, afirma Ângela Mendes, filha do líder seringueiro e presidente-executiva do Comitê Chico Mendes.
Em julho, ela esteve no Papo no Seringal – o podcast do Jornal Varadouro
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A semana é uma referência à data de nascimento (15/12/1944) e de assassinato de Chico Mendes, ocorrido em 22 de dezembro de 1988, em Xapuri. Morto numa tocaia no quintal de sua casa, o líder seringueiro entrou para a história como uma das referências globais na luta pela preservação da Amazônia e dos direitos dos povos da floresta.
Há mais de quatro décadas, Chico Mendes já alertava para as graves consequências que a humanidade enfrentaria caso continuasse a alimentar o processo de devastação da floresta em nome do “progresso econômico”. Ao lado de outros seringueiros e seringueiras, Chico liderou a luta de resistência comunidades tradicionais pelo direito de permanência na terra.
Um dos movimentos mais conhecidos foram os “empates”, correntes humanas colocadas de frente a tratores, pelotões e jagunços para conter o avanço da devastação em seus territórios.
Este foi um dos momentos mais críticos da história recente do Acre, marcada por violações de direitos, assassinatos, corrupção, crimes ambientais e o crescimento da miséria com a expulsão de seringueiros e indígenas de suas terras, provocando a criação de grandes bolsões de pobreza nas cidades, em especial Rio Branco.
Boa parte deste período foi acompanhado pelo Jornal Varadouro, o único veículo de comunicação do Acre a expor e denunciar as violações contra os povos da floresta. As reportagens denunciavam a situação de miséria de seringueiros e indígenas nas periferias de Rio Branco, além das resistências seringueiras pelo Acre, o sul do Amazonas e em Rondônia.
“O Varadouro era um jornal que tinha como objetivo divulgar o que estava acontecendo nos seringais aqui do Acre. A gente criou uma admiração muito grande pelo Jornal Varadouro. A sua equipe era muito próxima da gente. O Elson, o Silvio, o Alberto, o Arquilau, o Suede Chaves”, diz Raimundo Mendes de Barros, o Raimundão, primo de Chico Mendes.
“O Chico nunca deixou quando ele voltava de Rio Branco de trazer um pacote de jornais que sobraram lá na redação para distribuir entre os companheiros seringueiros.”
Essa atuação foi reconhecida em dezembro de 2023, quando o Jornal Varadouro foi agraciado com o Prêmio Chico Mendes de Resistência.
A semana 2025 no pós-COP
Para a organização, este é o momento de traduzir os resultados da COP para a realidade das comunidades. Karla Martins, articuladora do Comitê Chico Mendes, analisa que o evento no Acre serve como um contraponto necessário aos grandes encontros diplomáticos.
“Ao analisar esta COP, percebemos questões inerentes a ela. Se, por um lado, não houve grandes avanços nos pactos globais, por outro, houve um fortalecimento do movimento social, principalmente o brasileiro e o das Amazônias. Esse fortalecimento se deu no sentido de pensar coletivamente ações para pressionar por justiça climática e enfrentamento às mudanças do clima”, explica Karla.
A programação oficial tem início em Xapuri, cidade que Chico Mendes, Wilson Pinheiro, Marina Silva e diversas lideranças socioambientais importantes para a história nasceram. A escolha do local não é aleatória; é uma reafirmação política.
“Xapuri sempre teve essa importância. É ali, na divisa com a Bolívia, às margens do rio, que começa o episódio épico da guerra que resultou na anexação do Acre ao Brasil”, relembra a articuladora.
A agenda em Xapuri começou na segunda-feira, 15 de dezembro, com a Feira de Economia Solidária, às 16h, em frente ao Sindicato, valorizando produtores locais como a CooperXapuri e o Doutor da Borracha. À noite, o palco da prefeitura recebeu a cerimônia do Prêmio Chico Mendes de Resistência, seguida de apresentações culturais de Dona Zenaide, Baquemirim e grupos de forró locais.

Programações em Xapuri e Rio Branco
O dia 16 de dezembro traz o momento de maior emoção, com a tradicional caminhada solene, que sai às 7h da Casa de Chico Mendes rumo ao túmulo do líder. Para Karla Martins, honrar essa memória é vital para as novas gerações:
“Chico Mendes é uma potência, uma revolução, um pensamento contemporâneo que aponta para o futuro (…) Não é possível que o herói nacional, patrono do meio ambiente brasileiro, não tenha seu local de nascimento reconhecido como importante e inspirador.”
Ainda em Xapuri, a programação inclui o “Cine Juruá” com filmes do Greenpeace e da Funai, debates sobre juventude e, no dia 18 de dezembro, a Imersão na Resex Chico Mendes. Esta atividade, realizada em parceria com o ICMBio, levará os participantes para dentro da floresta através da Trilha Chico Mendes (única atividade que requer inscrição prévia).
O conceito de “Desaguar” que batiza esta edição é uma metáfora sobre a troca de saberes. “É o desaguar de cada um neste lugar, que é onde os pensamentos, metaforicamente representados pelas águas, chegam e se encontram, trazendo debates”, define Karla.
Seguindo esse fluxo, a partir de 19 de dezembro, a programação chega a Rio Branco focada em ferramentas para o futuro e direitos humanos. O Sesc Centro sediará oficinas sobre segurança digital e inteligência artificial (parceria com o PNUD/ONU), além de exibições cinematográficas.

No dia 22 de dezembro, data que marca os 37 anos da morte de Chico, o evento se encerra com a mesa “Direitos Humanos e Justiça Climática” no Museu dos Povos Acreanos e o ato “Legado de Luz”, pela parte da noite, um grande encontro em memória na Praça Povos da Floresta.
A Semana Chico Mendes 2025 é realizada com o apoio de diversos parceiros que, segundo a organização, são fundamentais para estabelecer “intercâmbios e possibilidades de construção”. O evento é um chamado aberto a toda a sociedade acreana e aos observadores do mundo.
“É uma alegria fazer este convite especial (…) para que participem da semana, vivam o Prêmio Chico Mendes, a caminhada, a trilha, e acompanhem os debates. É um momento para refletir sobre as possibilidades de inspirar, agir e atuar socialmente no tempo presente. Precisamos de pactos sociais relevantes, pactos amorosos com a nossa sociedade, e este é o momento ideal para isso” , finaliza Karla Martins.



