Como cobrir a Amazônia em segurança: protegendo jornalistas e fontes

No dia em que completou dois anos de retomada de suas atividades para a era da comunicação digital, o jornal das selvas participou, em São Paulo, do 20o Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Nossa editora Steffanie Schimdt falou sobre os desafios da produção de um jornalismo independente na região amazônica.
dos varadouros de Manaus
Nascido da necessidade de denunciar os conflitos sociais no Acre no final da década de 1970, Varadouro promoveu uma “revolução” na linguagem, no comportamento político e no diálogo da sociedade ao jogar luz sobre as desigualdades que se acentuavam a partir da ocupação da região dentro de um projeto desenvolvimentista desenhado pela ditadura militar.
Passados quase 50 anos, essa realidade ganhou novos contornos e dinâmicas para velhas práticas de crimes ambientais, o que vem exigindo novos protocolos e cuidados no fazer jornalístico dentro do território. A experiência ao longo de dois anos, desde a sua retomada, foi o tema da participação do jornal das selvas durante o 20º Congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em São Paulo.
Em um cenário de crescentes ameaças e desinformação, a necessidade de um jornalismo comprometido e seguro na Amazônia foi defendido pela jornalista Steffanie Schmidt, editora de jornalismo baseada em Manaus , que representou Varadouro na mesa “Como cobrir a Amazônia em segurança: protegendo jornalistas e fontes”, a convite da Abraji. O debate, realizado no dia 10 de julho, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), teve a participação da jornalista Paula Litaiff, fundadora da Revista Cenarium e mediação do jornalista Daniel Camargos, repórter do site “Repórter Brasil”.
“Olhar para a Amazônia a partir de sua pluralidade exige um exercício de se deslocar além do imaginário do exótico, que distancia o repórter da realidade e das complexidades de relações dentro do território. Os desafios sociopolíticos e geográficos que ameaçam a vida de jornalistas são os mesmos que ameaçam a vida das fontes. Diante desse contexto, a criação de protocolos de segurança se tornou essencial para atuação na cobertura de campo”, afirma a jornalista Steffanie Schmidt.
Durante a apresentação, ela compartilhou algumas experiências vivenciadas na cobertura realizada no Acre, Amazonas e Rondônia e lembrou que o respeito às fontes é parte da história do jornal, que completou dois anos da retomada de sua história no dia 10.07. “No editorial número um, de apresentação, Varadouro se apresenta como ‘dever de consciência de quem acredita no papel do jornalista’. Trazer à tona as injustiças e a voz de quem vivencia essas injustiças é compromisso e que continua cada vez mais atual, diante da crescente violência contra os povos da floresta”, lembrou.
A retomada do jornal em 2023 foi impulsionada pela necessidade de um jornalismo em favor das questões socioambientais, especialmente após a pandemia e a gestão do Governo Bolsonaro que promoveu o desmonte da fiscalização e proteção ambiental e a guerra de narrativas e pressão política, incluindo a institucionalização da violência contra defensores do meio ambiente dentro do parlamento e executivo.
Nesse cenário, além dos conflitos agrários tradicionais, a violência no território ganhou um “braço armado especializado” com a infiltração de facções criminosas nos crimes ambientais. Exemplo disso foram os ataques sofridos por agentes ambientais do ICMBio e Ibama durante operação de combate ao comércio ilegal de terras e madeira na Resex Chico Mendes.
A nova realidade trouxe impacto direto no trabalho jornalístico com aumento da hostilidade e criação de “ambiente de insegurança, evidenciados com o assassinato do jornalista inglês Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, em junho de 2023, no Vale do Javari, Terra indígena localizada no extremo oeste do Amazonas.

A confidencialidade e o anonimato das fontes; análise de risco colaborativa, com contribuições de jornalistas locais; a comunicação segura e planejamento, com a adoação de protocolos para situações de perigo, além do aprofundamento na apuração, ajudam a minimizar riscos e danos durante o trabalho em campo, conforme ressaltou a jornalista Steffanie Schmidt.
Esse trabalho muitas vezes envolve o combate à desinformação, contextualizando os fatos e mostrando que as operações ambientais visam infratores com decisões judiciais, e não pequenos produtores, a fim de evitar que o trabalho jornalístico seja utilizado de maneira indevida como discurso antiambiental.
A fragilidade dos dados oficiais sobre crimes socioambientais favorece esse cenário, conforme aponta o boletim “Além da Floresta: conflitos socioambientais e deserto de informações”, coordenado pelo professor Fábio Candotti. Apesar dos mais de 41 mil crimes ambientais registrados entre 2023 e 2024 via Lei de Acesso à Informação esses números são “insuficientes para se ter garantia do diagnóstico sobre a realidade socioambiental”. As limitações da Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que não abrange conflitos agrários ou violações contra comunidades tradicionais, resulta em baixas notificações e falta de padronização de dados entre as secretarias.
A impossibilidade de identificar vítimas como pertencentes a comunidades tradicionais nos registros policiais também impede um retrato fiel da violência.
A falta de dados oficiais robustos evidencia a necessidade de um jornalismo que vá além da superfície. Varadouro, com sua proposta de “dar visibilidade aos graves conflitos sociais, econômicos e da luta pela terra vivida pelos povos da floresta”, e de “abrir as páginas da palavra escrita para a palavra falada”, continua a missão de visibilizar e não apenas reportar, mas de ser um “varadouro” — um caminho de conexão e resistência — para a verdade na Amazônia.
Sobre a retomada
“Varadouro”, um termo regional para “caminho” ou “conexão” que comunica os seringais por dentro, simboliza também a busca por um novo caminho de resistência e defesa da floresta e dos direitos dos povos da região. Fundado pelos jornalistas acreanos Elson Martins e Silvio Martinello, Varadouro parte da ideia de informar para dentro, de trazer a própria representação do que se vivencia no território para o território, rompendo com padrões estéticos, mas não com o compromisso com a verdade e os fundamentos jornalísticos.



