Nova plataforma permite acompanhar a qualidade do ar no Acre

Compartilhe

Bombeiro apaga fogo em área de vegetação no bairro Irineu Serra: queimadas em alta nos meses do verão levam a população acreana a respirar um ar com elevada concentração de material paritculado contaminado (Foto: Fabio Pontes/Varadouro)




Rede coordenada pela Ufac passa a utilizar sensores fabricados no Brasil e prepara integração com estação de referência instalada em Rio Branco; ferramenta ganha importância com o avanço da seca e o aumento do risco de queimadas e incêndios florestais no estado.

dos varadouros de Rio Branco

Com a intensificação do período seco e a aproximação das semanas mais críticas para a ocorrência de queimadas e incêndios florestais, a população do Acre volta a contar com uma ferramenta essencial para acompanhar a qualidade do ar que respira. A Rede de Qualidade do Ar do Acre relançou sua plataforma de monitoramento em um novo endereço institucional da Universidade Federal do Acre (Ufac). Por meio do site (ACESSE AQUI) é possível consultar dados produzidos pelos sensores distribuídos pelo estado e acompanhar as concentrações de material particulado presentes na atmosfera.

A nova ferramenta foi desenvolvida pelo Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (Labgama), do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul. Em operação desde 2019, a rede foi criada para preencher uma importante lacuna no monitoramento ambiental do estado. Agora, a plataforma passa por uma nova etapa de modernização, com a adoção de sensores produzidos no Brasil e mudanças no processamento e na divulgação das informações.

A substituição dos equipamentos ocorre por meio de parceria com a RedeAr, iniciativa liderada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Por serem fabricados no país, os novos sensores devem permitir maior agilidade na manutenção e na reposição de peças – aspecto fundamental para manter os equipamentos funcionando justamente durante os meses mais críticos do verão amazônico.

A plataforma também recebeu rotinas automatizadas e mais eficientes para processar e disponibilizar os dados coletados pelos equipamentos.

Nos próximos meses, o sistema deverá incorporar as medições da estação de referência instalada no campus-sede da Ufac, em Rio Branco, pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pelo Ministério do Meio Ambiente, como parte do projeto FioAres.

A integração representa um avanço importante. Enquanto os sensores de menor custo permitem ampliar a cobertura territorial e acompanhar as variações da poluição em diferentes pontos, uma estação de referência utiliza equipamentos de maior precisão e poderá ajudar na avaliação e na comparação dos dados coletados pela rede.

De acordo com dados do programa BD Queimadas, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Acre já registrou 121 focos de calor ao longo de 2026. Os três municípios com os maiores registros de ocorrência são Feijó (24), Cruzeiro do Sul (14) e Rio Branco (11). Na comparação com o mesmo período do ano passado há uma redução de quase 52%.


Um perigo quase invisível

A poluição causada pelas queimadas não é formada apenas pela fumaça que encobre o céu, reduz a visibilidade e deixa no ar o cheiro de vegetação queimada. Um de seus componentes mais perigosos é o chamado material particulado fino, conhecido como PM 2,5.

São partículas sólidas ou líquidas suspensas na atmosfera com diâmetro de até 2,5 micrômetros. Por serem extremamente pequenas, conseguem penetrar profundamente nos pulmões e alcançar a corrente sanguínea.

A exposição, mesmo durante períodos curtos, pode agravar quadros de asma, provocar infecções respiratórias e reduzir a função pulmonar. A exposição prolongada está associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, doença pulmonar obstrutiva crônica e câncer de pulmão.

Crianças, pessoas idosas, gestantes e pacientes com doenças respiratórias ou cardiovasculares estão entre os grupos mais vulneráveis. A Organização Mundial da Saúde (OMS) detalha os efeitos do material particulado sobre o organismo.

A OMS recomenda que a concentração média de PM 2,5 durante um período de 24 horas não ultrapasse 15 microgramas por metro cúbico de ar (ug/m3). Para a média anual, a recomendação é de apenas 5 ug/m3.

No Brasil, a Resolução nº 506 do Conselho Nacional do Meio Ambiente estabeleceu uma transição gradual entre os padrões nacionais e os valores recomendados pela OMS. Desde janeiro de 2025, o padrão intermediário brasileiro para a média de PM 2,5, em 24 horas, é de 50 ug/m3 – mais de três vezes o limite recomendado pela organização internacional.

O país pretende reduzir esse valor por etapas, mas o padrão final da OMS ainda não possui data definida para entrar em vigor. A resolução também determina o acesso público às informações sobre a qualidade do ar.


Além das queimadas em áreas rurais, fogo no terrenos blldios no perímetro urbano da capital contribuem para agravar a crse ambiental durante os meses críticos do verão (Foto: Alexandre Cruz Noronha/Varadouro)




A crise de 2024


A importância desse acompanhamento ficou evidente em setembro de 2024, quando Rio Branco e quase todos os municípios acreanos enfrentaram um dos episódios mais críticos de poluição atmosférica de sua história recente. Um pesadelo ainda vivo na memória das pessoas, quando as cidades ficaram encobertas pela fumaça e os cidadãos asfixiados pela fumaça tóxicas das queimadas.

Serviços públicos tiveram que ser interrompidos, as aulas foram interrompidas e as unidades de saúde ficaram abarrotadas com pessoas respirando através de balão de oxigênio – o único ar não contaminado na época. As velhas máscaras usadas durante a pandemia de Covid-19 tiveram que ser reutilizadas para proteger os pulmões das micropartículas contaminadas. Atividades ao ar livre ficaram restritas.

Naquele período, a capital acreana chegou a aparecer no topo de um ranking internacional das cidades mais poluídas do mundo. Em 20 de setembro, um dos sensores instalados na região central registrou 441 ug/m3 de PM 2,5 – quase 30 vezes o valor diário recomendado pela OMS.

Durante vários dias, os moradores perderam a visão do céu azul e passaram a respirar uma atmosfera carregada pela fumaça das queimadas e dos incêndios florestais.

Naquele mesmo mês, levantamento do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente da Ufac (Labgama) identificou 94 pontos com possíveis ocorrências de fogo em áreas de floresta em Rio Branco e municípios do Baixo Acre. A área atingida poderia chegar a 2,7 mil hectares.

A crise foi relatada pelo Varadouro na reportagem “A cidade mais poluída do mundo”.

Em um estado que passou a conviver com secas mais intensas, temperaturas elevadas e grandes incêndios florestais, monitorar a qualidade do ar deixou de ser apenas uma atividade científica. Tornou-se uma ferramenta de vigilância ambiental, proteção da saúde e defesa da vida.

É a forma de tentarmos amenizar os impactos de uma crise climática e ambiental que se intensifica ano após ano.



LEIA TAMBÉM
Como o desmonte da política ambiental pelo bolsonarismo transformou capital do Acre num faroeste das queimadas

Durante a crise de 2024, Rio Branco chegou a ocupar o topo de ranking global de poluição do ar; concentração de material particulado tóxico ficou até 30 vezes superior ao recomendado pela OMS (Foto: Juan Diaz)
Logomarca

Deixe seu comentário

VEJA MAIS