VOZES DA AMAZÔNIA

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Dia da Amazônia: lideranças e pensadores da região apontam soluções para o futuro da floresta

A presidente da Associação Agroextrativista Nossa Senhora dos Seringueiros (Apanss) em Brasileia, Iranilce Pereira da Silva Lanes (ao centro): “Precisamos de participação real nas decisões”. (Foto: Divulgação)

No Dia da Amazônia, o Varadouro reuniu vozes de lideranças extrativistas, pesquisadores e agentes sociais do sul do Amazonas, leste do Acre e noroeste de Rondônia — região conhecida como Amacro — para refletir sobre os desafios e caminhos para o território. Entre eles, estão Iranilce Pereira da Silva Lane, da Resex Chico Mendes; o pesquisador da Embrapa, Eufran Amaral; o professor Ricardo Gilson da Costa Silva, da Universidade Federal de Rondônia; o coordenador do Fórum das Águas em Manaus, Sandoval Rocha; e o agente da Comissão Pastoral da Terra, Cosme Capistrano da Silva.

Steffanie Schmidt
Dos Varadouros de Manaus

Em um cenário onde debates globais e políticas públicas frequentemente ignoram ou mesmo marginalizam realidades territoriais, falar de Amazônia pode levar ao lugar comum  da abordagem dos aspectos de preservação baseados em números e mapeamento que, muitas vezes, não traduzem a realidade dos povos que habitam o território e suas complexidades, anseios e sonhos. Para o Varadouro, o dia da Amazônia é uma oportunidade de ir além dos discursos oficiais e dar voz a quem realmente vive e respira a floresta: seus povos. 

Sob uma mesma perspectiva: o que você pensa sobre o atual contexto de debates sobre a Amazônia; isso te representa?, o Varadouro ouviu lideranças, pensadores e movimentos ligados ao território para entender o que pensam, o que sentem e como veem as discussões sobre um território que habitam, mas onde, muitas vezes, não se sentem representados.

Abaixo, você encontra cinco medidas necessárias para a Amazônia a partir das vozes que habitam os três territórios de maior pressão ambiental hoje: o sul do Amazonas, leste do Acre e noroeste de Rondônia, conhecida como Amacro.  

Ouvimos a liderança extrativista Iranilce Pereira da Silva Lane, da Resex Chico Mendes, no Acre; o doutor em Ciências Sociais e coordenador do Fórum das Águas em Manaus, Sandoval Rocha; o professor Dr. Ricardo Gilson da Costa Silva, da Universidade Federal de Rondônia, que pesquisa temas ligados a dinâmicas agrárias, agricultura familiar, território, direitos humanos e cartografia crítica na Amazônia; o pesquisador da Embrapa, Eufran Amaral, ex diretor-presidente do Instituto de Mudanças Climáticas e Regulação de Serviços Ambientais do Acre; e o agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Cosme Capistrano da Silva.

1. Investir nas comunidades

Filha e neta de seringueiro,  Iranilce Pereira Silva é presidente da associação de agroextrativista Nossa Senhora dos Seringueiros, residente na Reserva Chico Mendes, no Acre. Para ela, manter a floresta em pé é um desafio possível. “A partir do momento em que a comunidade entende e consegue captar recursos, e investir em produtos da biodiversidade, a gente consegue avançar aos poucos. A floresta de pé é mais importante do que ela no chão”, afirma

O detalhe é que para se chegar a essa realidade existe um dever de casa que nunca foi cumprido: garantir o acesso à educação, à saúde, ao bem viver dentro do território.  

“Isso precisa ser em primeira mão e precisa ser organizado e executado de uma forma que realmente atenda a necessidade dos povos da Amazônia. Ter escolas, posto de saúde mais próximos às comunidades”, afirma. 

Na região do baixo Acre, dentro da resex, a luta por uma escola estadual dentro da comunidade já dura dois anos sem resposta. Atualmente, mais de 25 crianças e pré-adolescentes estão fora da escola por falta de escola. “Quando a gente fala sobre o que realmente garante essa floresta de pé, tem muita coisa envolvida como a educação que respeita a realidade local, que também valoriza os saberes da floresta”, explica. “Hoje, as crianças, os adolescentes não estão mais envolvidos igual antigamente, que realmente queriam ouvir, fazer o que o pai e o que o avô faziam no momento de uma doença. Agora tem o medicamento farmacêutico, industrializado”, completa Iranilce. 

Ela reforça que o desenvolvimento sustentável depende de investimentos em bioeconomia, turismo comunitário e manejo florestal, com presença efetiva do poder público que deve começar pela educação, com a conscientização ambiental nas escolas, essencial para formar cidadãos que preservem a floresta desde cedo.

“A gente sabe da importância quando se fala de meio ambiente dentro das escolas, tanto pública quanto privada. E se isso não acontece, a criança vai crescendo uma criança de qualquer jeito e quando depois que tiver adulto, aí o próprio sistema quer repreender pela lei sem o povo estar junto, sem aquele povo estar fazendo parte. Então, por que não conscientizar agora, enquanto criança, para que não tenha problema de falta de conscientização quando for adulto?”, questiona.

Iranilce é categórica ao afirmar que o “desmatamento zero é impossível” para quem vive na Amazônia sem o apoio governamental necessário, como maquinários de médio porte para reaproveitar áreas degradadas. A verdade, segundo ela, é que o próprio governo não oferece alternativas reais, levando à continuidade das derrubadas. Embora o ICMBio tenha começado a licenciar o reaproveitamento de pastagens e capoeiras na Resex Chico Mendes, o gargalo persiste na falta de parceria entre prefeituras, estado e comunidades para operacionalizar esse trabalho.

Acima de tudo, Iranilce reivindica “participação real nas decisões”. Extrativistas, indígenas e ribeirinhos precisam ter assento nas mesas de negociação e serem consultados antes de qualquer lei ou projeto. “As coisas não podem chegar já aqui na base, as coisas tudo pronta, sem o nosso sem nós estarmos na roda da conversa”. Ela acredita que o desenvolvimento sem destruição é possível com investimentos na bioeconomia, turismo de base comunitária e manejo sustentável, mas isso exige uma forte corrente com o poder público.

2. Olhar além do ‘vazio verde’

O doutor em Ciências Sociais Sandoval Rocha, coordenador do Fórum das Águas em Manaus, corrobora a percepção de que a Amazônia é frequentemente vista de forma unidimensional. Ele critica a perspectiva que a entende como um “espaço vazio de pessoas”, focado apenas em recursos naturais como florestas e águas. Para ele, é crucial romper com essa lógica e reconhecer a “complexidade muito grande de cultura, uma diversidade de culturas” que se entrelaçam no território.

Ele defende que, ao invés de uma visão globalizante que ignora o povo, deve-se considerar primeiramente as pessoas, pois elas não desaparecerão. Ele ressalta que as cidades amazônicas enfrentam problemas urbanos graves, como moradia precária e falta de infraestrutura básica e que a “desarborização” nas cidades representa um imaginário colonizador que prevalece sobre a realidade local, que faz esquecer que vivemos em uma floresta.

“A gente sempre olha a Amazônia e o que vem à cabeça são os recursos naturais. Mas as pessoas têm vida, tem nome e querem viver na melhor qualidade. E elas estão nas cidades, nos territórios. Imaginemos que são nove grandes cidades, então, são muitas complexidades que afetam esse meio ambiente. E a lógica que prevalece nesses espaços é afastar cada vez mais a realidade de que nós estamos dentro de uma floresta, que vivemos em uma floresta, então desconsideramos os rios, os igarapés viram estrada. Pensamos que é preciso estudar na Europa, no primeiro mundo, que a gente não sabe nada e adotamos modelos de vida que não cabem aqui. A gente precisa decolonizar um pouco a nossa cabeça enquanto cidadãos moradores da cidade em relação à convivência com a floresta”, afirma.

Alagação em Rio Branco (AC) no ano de 2022: região tem vivenciado ciclos climáticos extremos cada vez mais próximos (Foto: Alexandre Noronha/Varadouro)

E essa visão passa pela questão de que a floresta é algo que precisa ser monetizado. A perspectiva economicista, que vê a Amazônia como uma “potência ecológica” apenas para ser “monetarizada” através da bioeconomia, é uma “velha lógica” com novas palavras, que se esquece das pessoas, suas culturas e dificuldades. Para Sandoval, é necessário “descolonizar a nossa cabeça” e ter uma visão mais realista, complexa e completa das “várias Amazônias”, valorizando a convivência entre homem e natureza.

3. Regularização fundiária como base para preservação 

Cosme Capistrano, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) Regional Acre, classifica a questão da preservação da Amazônia como política: há uma dissonância entre o discurso que prevalece dentro das instâncias de poder, do Congresso Nacional, e a realidade dos territórios.

“Grandes latifundiários e fazendeiros, amparados por grupos que não querem ver a Amazônia preservada, acreditam que a única via para o desenvolvimento é o desmatamento da floresta e substituir produtos da biodiversidade, como a castanha e o açaí, pela pecuária e pela soja. A grilagem de terra é um problema central: invasores tomam áreas já trabalhadas por centenas de famílias para evitar a caracterização de desmatamento direto, mas se apropriando das benfeitorias já realizadas”, exemplo disso são os conflitos em Manduá, Marielle Franco, Seringal Entre Rios e Antari como exemplos dessas invasões.

“Enquanto o estado não tiver presente para regularizar a questão fundiária, nós não vamos ter uma Amazônia preservada porque quem vai chegar lá vai ser o capital”. Projetos de gás e o agronegócio são vistos por ele como iniciativas que visam devastar a floresta para beneficiar os grandes interesses, e não as comunidades. 

Ele defende que o governo deve lotear as terras e apoiar os trabalhadores da agricultura familiar e o extrativismo, que são constantemente sufocados pelo agronegócio. “A preservação está intrinsecamente ligada à regularização fundiária, pois se não tem nada regularizado, quem tem dinheiro chega, faz do jeito que quer, joga veneno com drone, joga com avião e as multas, muitas vezes aplicadas a laranjas, não resolve”.

4. A luta por uma nova psicosfera 

Encontrar saídas para os atuais problemas vivenciados dentro da Amazônia não é uma tarefa simples porque retrata uma realidade “paradoxal”: enquanto pesquisas demonstram a importância da floresta em pé e das populações tradicionais, os projetos para a Amazônia são, em sua maioria, de “destruição ambiental” através da expansão agropecuária, madeireira e mineração.

Essa é a análise do professor Ricardo Gilson da Costa Silva, pós-doutor em Ciências Humanas e Sociais pela Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (UBA), docente do Departamento de Geografia da Universidade Federal de Rondônia (Unir). 

Para o professor, a “elite econômica brasileira ainda não sentiu que é politicamente importante preservar a Amazônia”. Ele aponta que a maioria dos parlamentares federais são ruralistas com uma agenda política de “destruição do ambiente”. 

Mais preocupante ainda é a existência de “ciências da destruição”, presente nas universidades com currículos de agronomia e economia focados em produtividade sem preocupação socioambiental, que fornecem base para essa devastação, afastando ainda mais a academia da realidade da Amazônia. 

Todo esse cenário cria uma “psicosfera” do agronegócio, que se tornou uma força hegemônica na sociedade regional, unindo diferentes economias extrativistas em um projeto para uma elite. “Esta psicosfera destrói a ‘estética amazônica’, ou seja, sua beleza natural, seus rios preservados e a diversidade de seus povos. Ser amazônida é considerado feio. Por isso, parte da sociedade regional, fruto da colonização, aceita essa destruição e não se sente parte da Amazônia ao ponto de ‘gado’ ser vendido como cartão postal em Rondônia, por exemplo”.

Tradicional cavalgada pelas ruas de Porto Velho abre programação da Exposição Agropecuária, todos os anos (Foto: Dhiony Silva/Governo do Estado de Rondônia)

Para combater essa hegemonia, Ricardo Gilson entende que os embates se dão no campo da educação e da comunicação. “As universidades precisam se conectar com a sociedade, usando novas tecnologias para dialogar com as novas gerações, que muitas vezes veem a Amazônia como algo distante”.

Ele identifica o movimento indígena como o “principal movimento de resistência” na atualidade, defendendo uma “indissociabilidade com a natureza” e que consegue pautar o debate nacional, tendo aceitação favorável pela sociedade brasileira. “Este movimento tem conquistado resultados significativos e serve como um exemplo de reconexão com a floresta”.

5. COP além da vitrine: um compromisso real 

Sobre a COP 30, que será no Brasil, Iranilce Silva expressa uma esperança cautelosa. Ela aponta que a redução do desmatamento no Acre observada ao longo dos últimos meses já resultou em chuvas no período certo, como antigamente. Contudo, ela alerta que “muitas das vezes, essas referências ficam só nos discursos bonitos e promessas, que não chega até nós, que moramos na dentro da floresta”.

Iranilce deseja que a COP 30 não seja apenas uma “vitrine para os políticos”, mas uma verdadeira oportunidade para que ativistas, indígenas, ribeirinhos e outros povos se manifestem. “Quem de fato mantém a floresta viva somos nós. Quem vive na Amazônia somos nós. Então, ninguém melhor que nós para dizer o que que nós queremos dessa Amazônia”.

Com maior ceticismo, o professor Ricardo Gilson afirma que a conferência tem sido uma “relação de estado” e que o diálogo social do governo com os movimentos está fragilizado, o que pode frustrar a expectativa de um compromisso real. “A COP não conseguiu mobilizar socialmente, permanecendo restrita ao campo da diplomacia e sem um ‘up’ que melhore a imagem ou gere um debate social amplo nos territórios”.

Baseado na experiência de quem acompanha as negociações a partir do território desde a década de 1990, Cosme Capistrano lembra que ao longo desse período “pouco foi executado”. “Apesar da preocupação global com a situação climática, o clima está piorando”. 

Ele questiona a real participação e o compromisso de países poderosos e poluentes, como Estados Unidos, China, Coreia e Japão. “É fundamental que cada um faça o papel de casa e questione também os parceiros que são esses países aí”. Ele espera que a COP 30 seja um verdadeiro compromisso com a prática, e não apenas discursos bonitos e promessas que não chegam a quem mora na floresta.

Alerta: ponto de não retorno se aproxima

Reforçando a urgência observada pelas comunidades, o professor Eufran Amaral, da Embrapa Acre, detalha as graves consequências do ritmo atual de desmatamento. Ele alerta que, com a progressiva perda de cobertura florestal, a floresta remanescente é “empobrecida”. Sem a floresta, os serviços ambientais fundamentais – como sequestro de carbono, polinização, filtragem da água e regulação climática – deixarão de ser fornecidos. O estado Acre pode ser o primeiro a chegar à condição de “savana”

No Acre, a perda da cobertura florestal ocorre “sem critérios”, tornando difícil saber exatamente onde e como o desmatamento está acontecendo. Essa desorganização nos aproxima de um ponto crítico onde a floresta não conseguirá mais prestar seus serviços ambientais, resultando em mais eventos extremos, problemas de temperatura, ciclos de chuva irregulares, perda de biodiversidade e diminuição da disponibilidade de água.

Tais problemas são intensificados com a progressiva perda de florestas, que também aumenta as bordas da mata remanescente, impactando-a negativamente até o ponto em que “não teremos mais uma floresta”, mas sim um conjunto de organismos se aproximando de uma savana.

“O tempo não nos dá mais tempo. É crucial ter rapidamente uma estratégia de conservação da floresta e garantir que ela permaneça em pé, com seus serviços ambientais funcionando. Há necessidade de começar a plantar novas florestas com urgência, através de sistemas agroflorestais produtivos, medicinais e de restauração ecológica”, afirma Amaral. 

“Essas ações são vitais para aumentar os estoques de carbono no solo e nas plantas, reduzir processos erosivos (que já se manifestam em enchentes mais intensas), aumentar a biodiversidade, garantir maior disponibilidade de água, regular o microclima e, por fim, ter uma maior produção de alimentos de qualidade, protegendo as florestas existentes”, completa.

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