VIDAS SERINGUEIRAS

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A fé e a espiritualidade nos seringais da Resex Riozinho da Liberdade – Vale do Juruá

Muitas das vezes isoladas e invísiveis, as populações da floresta aprendem a desenvolver a sua própria espiritualidade misturando a fé do cristianismo com o credo nos seres místicos da Amazônia (Foto: Gleilson Miranda)



Desde os varadouros e as ladeiras de Cruzeiro do Sul, a capital do Vale do Juruá, a antropóloga e pesquisadora Tatiane Silva Sousa passa a nos enviar as suas missivas nos contando os causos e o modo de vida das populações da floresta, em especial das comunidades seringueiras da Resex Riozinho da Liberdade, região onde ela viveu por mais de dois anos. Aqui neste texto, Tatiane nos fala sobre a fé e a espiritualidade típica das populações amazônidas.



Tatiane Silva Sousa
dos varadouros de Cruzeiro do Sul

Navegando pelo rio Liberdade e pelo Alto Juruá, logo fui conhecendo as práticas religiosas e de cura típicas dos seringais. Os novenários, as promessas, a fé nos Santos católicos, a devoção ao peregrino Irmão José, os banquetes ofertados aos vizinhos quando uma graça é atendida, as rezas para diversas enfermidades e os trabalhos espirituais de cura foram e ainda são bem características das comunidades tradicionais do Alto Juruá.

Apesar disso, alguns ritos, como o “passar fogo”, parecem ter ficado encerrados na memória e no passado. Neste ritual realizado para o estabelecimento de relações de parentesco simbólico (compadrio), “os pretendentes passam um tição de fogo próximo ao corpo e pulam juntos uma fogueira feita para os santos juninos” (Martini 2005:98-99) declamando uma reza específica, onde Santo Antônio, São João e São Pedro dizem e confirmam a ritualização do laço de compadrio.

Para minha surpresa, a reza juruaense é praticamente idêntica à que era declamada nas fogueiras durante a infância de minha mãe na periferia de Belém. A única diferença: a devoção a São Marçal que por cá nunca nem ouvi falar.

Outra prática tradicional de cura espiritual bem característica dos seringais do Alto Juruá é o “trabalho com caboclo”, como é chamada esta manifestação religiosa por estas bandas de cá Para melhor explicar, contarei um pouco sobre Dona Raimunda Santana. Esta senhora, já falecida, foi uma mestra de notório saber. Nascida e criada no rio Liberdade, sua família conta que ela tinha um dom desde criança.

Altar típico das casas nos seringais do Vale do Juruá. A foto foi tirada na casa de Sônia e Raimundo, casal veterano da comunidade Ingazeira, rio Boa Fé, Guajará – Amazonas. (Foto de Tatiane Sousa)




Aprendeu a rezar, conhecia as plantas medicinais da floresta e aquelas que são cultivadas nos terreiros ao redor das casas, assim como conhecia as partes dos animais que possuem fins medicinais.

Rezava para diversos mal de reza e mal de criança, doenças que são curadas apenas com rezas. Diz-se que era vidente e que aprendeu a trabalhar com caboco com Dona Maria Merce, do igarapé Campinas. Era espírita e se atuava, incorporando seres encantados da linha da água. Trabalhava, principalmente, com o caboclo de nome Arlindo, o qual realizava os mais diversos tipos de cura, da loucura à panema1.

Contam que à boca da noite ela chamava a todos para entrar em sua casa e fechava as portas. Aos seus pés por vezes poderia ter cachaça e tabaco, instrumentos utilizados pelos encantados que atuavam em seu corpo. Contam ainda que suas feições e voz mudavam. Mesmo que o caboco se valesse da cachaça, quando retornava do transe, estava sóbria. Ainda hoje é conhecida nos mais diversos seringais da região do Alto Juruá.



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Apesar de já ter residido na ilha de Mosqueiro em Belém do Pará, onde havia dezenas de Casas de Santo, principalmente da umbanda, candomblé e tambor de mina e também perceber semelhanças entre o trabalho com caboclo e os ritos das religiões de matriz africana, diria que esta manifestação religiosa é distinta, única e autêntica dos seringais do Alto Juruá.

A família de Dona Santana, como é conhecida, conta que vinham pessoas de diversos lugares em busca da cura de pessoas que estavam doidas, acometidas de mal espiritual e sob influência de cafanjés, espíritos malfazejos.

Não somente ouvi relatos sobre suas forças no rio Liberdade, mas em diversos seringais e aldeias do Vale do Juruá, como no rio Juruá Mirim, Paraná dos Mouras e Boa Fé. Narrativas contadas por diferentes pessoas dos mais variados lugares, mas que através da memória atestam ainda hoje o poder da finada Santana. Por fim, deixo com vocês trechos de relatos sobre nossa querida Mestra da Floresta.

Antes, o pessoal se valia mais. Na questão da medicina que ela trabalhava, no caso, ensinava bastante chá, curava o povo ensinando remédio caseiro. Também, assim, da casa, ela tinha uma experiência sobre isso, né? O pessoal procurava muito. Tinha um tempo que a casa da minha mãe ficava cheia de gente. Trinta pessoas, quarenta pessoas na casa. Iam atrás de se curar. Pessoas que foram desenganadas pelos médicos em Manaus. Vinha gente de Manaus lá pra casa dela!

Ela não cobrava nada. Trabalho voluntário mesmo. No caso assim, ela tirava os espíritos que se atuavam, né? Isso me marcou porque vinha muita gente. Uma outra coisa também, pessoas que tinham problema mental. Ela curava muito o problema mental. Eu não sei como, mas… Ia lá pra casa dela. As pessoas às vezes iam doido pra lá e voltavam boas. Bonzinho!

E até na hora de ganhar meus meninos, minha mãe que pegava. Ela era parteira também. Então eu tenho esse testemunho. O mundo podia acabar, mas ela estava ali, né. Eu me sentia muito protegida! Então eu tenho isso como testemunho e quero compartilhar essa história. De dizer, pra quem tem mãe, valorizar a sua mãe, porque a minha era muito valorizada pra mim.”



Maria Renilda Santana da Costa, mais conhecida como Branca, filha de Santana e liderança da Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade no livro Uma Luz na Floresta (2025).





Sobre a autora:

Sou amazônida com muito orgulho! Filha de uma preta da periferia da cidade de Belém do Pará com um ribeirinho do Nordeste deste estado. Sou nascida na região metropolitana da capital paraense, migrante durante muitos anos entre Pará, Rondônia e Acre. De formação acadêmica, licenciada em ciências biológicas, especialista em zoologia, ecologia e manejo da vida silvestre. Mestre em antropologia social pela Universidade Federal do Pará (PPGA/UFPA).

Contato: tatisousa4backup@gmail.com




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