UMA LUZ QUE ALUMIA A FLORESTA E A MEMÓRIA

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Livro imortaliza as vidas e as sabedorias dos seringueiros e seringueiras do Vale do Juruá

Histórias de moradores do rio Liberdade, no Vale do Juruá, são a base para o livro “Uma Luz na Floresta” (Foto: Tatiane Sousa)




São histórias contadas às pesquisadoras Tatiane Sousa e Valcirlene Miranda durante seus trabalhos de pesquisa de mestrado nas comunidades Itajubá, Forquilha, Cavanhaque, Bom Futuro, Periquito e Morro da Pedra, todas na Resex Riozinho da Liberdade. Obra conta com prefácio de Fabio Pontes, editor do Varadouro.


dos varadouros de Rio Branco

O professor e poeta Francisco Albecir Brito da Silva, o “poeta da floresta”, e Manoel Ferreira de Souza, o lendário Nem Soares — último arigó do rio Liberdade e curador respeitado — são dois dos personagens que iluminam “Uma Luz na Floresta”, livro que chega ao público como um esforço de resgate da memória seringueira do Vale do Juruá. Suas vidas, entre tantas outras retratadas na obra, revelam a força da oralidade amazônica e o risco de apagamento de histórias essenciais para compreender a identidade regional.

O livro é fruto de um exercício de criatividade, parte de uma tentativa de costurar diferentes vozes sobre aspectos comuns aos modos de vida e histórias das comunidades Itajubá, Forquilha, Cavanhaque, Bom Futuro, Periquito e Morro da Pedra, todas elas localizadas no interior da Reserva Extrativista (Resex) Riozinho da Liberdade, em Cruzeiro do Sul.

São histórias contadas às pesquisadoras Tatiane Sousa e Valcirlene Miranda durante seus trabalhos de pesquisa de mestrado, mas que pelo seu caráter da oralidade, da tradição, se repetem e se entremeiam, constituindo, assim, as características mais marcantes do modo de vida nos seringais da Amazônia.

O livro conta com o prefácio do jornalista Fabio Pontes, editor-executivo do Jornal Varadouro. A obra também conta com pesquisas e organização de Leonísia Moura. As ilustrações são de Angie Nobre. A diagramação e o projeto gráico foram produzidos por Raissa Grecco.

As entrevistas realizadas pelas pesquisadoras, ainda que de modo isolado com cada autor e autora do seringal, se conversam e se complementam porque constituem a memória social dos seringueiros e seringueiras.

“Com este livro, reafirmamos a importância da oralidade, da escuta e da partilha como instrumento de preservação cultural. Que Uma Luz na Floresta seja, para quem lê hoje e para os que virão, uma poronga acesa na travessia do tempo e da memória”, escrevem elas na introdução da obra.

As pesquisadoras e organizadoras de “Uma Luz na Floresta”, Val Martins e Tatiane Sousa (Fotos: Acervo Pessoal)



O resultado é um retrato minucioso de lideranças, mestres da floresta e guardiões da cultura seringueira que, embora fundamentais, estavam cada vez mais ausentes da memória coletiva.

O trabalho é fruto de anos de convivência das pesquisadoras com moradores da Resex Riozinho da Liberdade, o que permitiu transformar entrevistas em narrativas vivas, carregadas de nuances, sotaques e silêncios. Para Tatiane e Val, o livro reafirma “a importância da oralidade, da escuta e da partilha como instrumento de preservação cultural”.

A obra pode ser baixada em PDF gratuitamente na Biblioteca do Instituto Fronteiras

O poeta da floresta

Francisco Albecir Brito da Silva, morto em fevereiro de 2024, aos 61 anos, é um dos protagonistas das memórias recuperadas. Nascido no rio Liberdade, filho de seringueiros, começou a cortar seringa aos oito anos, mas encontrou nos estudos um caminho de emancipação. Formou-se em Matemática pela Universidade Federal do Acre, tornou-se educador, líder comunitário e um dos articuladores da criação da Reserva Extrativista Rio da Liberdade.

Foi também o primeiro professor do rio, alfabetizando crianças, jovens e adultos em uma escola improvisada num tapiri de jaci, carinhosamente chamada por ele de “escola da dona aranha”. A comunidade trabalha para que o local seja renomeado como Escola Estadual Rural Francisco Albecir.

Flamenguista fervoroso, pintou cercas em rubro-negro e espalhou alegria em peladas ao entardecer. Foi sepultado com a camisa do time do coração, ao som do hino do Flamengo. Sua poesia, como em “O Seringueiro”, segue como memória literária de uma vida dedicada à educação e à floresta.

Albecir no minucioso trabalho de tecer sua tarrafa (Foto: Tatiane Sousa)



O mestre da mata

Outro personagem emblemático é Manoel Ferreira de Souza, o Nem Soares. Cearense de origem, chegou ao Juruá em 1946 e se fixou no igarapé Forquilha, onde viveu até os 94 anos. Era rezador, iniciado em terreiros do Maranhão, e reconhecido pela habilidade de curar com palavras e plantas.

Conhecido como “médico da floresta”, preservou por décadas suas estradas de seringa, mesmo após o fim da empresa seringalista – gesto que simboliza sua devoção ao território. Morreu em 26 de dezembro de 2024, deixando um patrimônio de fé e conhecimento tradicional cuja dimensão e valores são inestimáveis. Para a nossa sorte, Val e Tatiane conseguem imortalizar o legado de Nem Soares em “Uma Luz na Floresta”



Prefácio: alerta e memória

No prefácio, o jornalista Fábio Pontes chama a atenção para a ameaça crescente à memória tradicional amazônica. “Todo este conhecimento tradicional é passado de geração a geração, através da oralidade, da prática no cotidiano. E essa enciclopédia amazônica fica em risco a cada momento que estes sábios da floresta fazem suas passagens para outros planos”, afirma.

Pontes define “Uma Luz na Floresta” como um antídoto contra o esquecimento e um convite a reconectar o país com sua verdadeira identidade amazônica – com a “acreanidade” que brota do som da floresta, não do berro do boi. Recordando um ensinamento do escritor amazonense Márcio Souza, reforça que o Brasil “não terá uma alma completa enquanto não ouvir a voz da Amazônia”.

O jornalista Fabio Pontes, editor do Varadouro, ressalta a importância de se preservar toda a riqueza cultural dos povos da floresta, transmitida através da oralidade (Foto: Gleilson Miranda)



Para ele, ouvir é o gesto central proposto pelo livro: ouvir histórias, risadas, dores, sotaques e sonhos de um povo que protege a floresta há séculos. “Que esta obra, como desejam suas autoras, siga sendo uma poronga acesa sobre os caminhos do tempo e da memória, guiando o coração da Amazônia para as próximas gerações.”

“Uma Luz na Floresta” foi produzido com financiamento da Lei Paulo Gustavo e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) através de bolsas de mestrado. As pesquisadoras ainda contaram com a parceria da Associação Feminina Força da Mulher Rural do Rio Liberdade (Mulher Flor), do Instituto Fronteiras e do Centro Eclético Passarinho Branco.

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