RELATO

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Há 35 anos, Fórum de Xapuri virou vitrine mundial no julgamento dos assassinos de Chico Mendes

Praça central de Xapuri (AC). Fotos: Fabio Pontes/Jornal Varadouro




Eu também estava lá vendo de camarote, ou melhor, de uma rede alugada por pernoite em uma casa em construção. Jornalista do Varadouro, João Maurício da Rosa relembra como foi sua chegada a Xapuri para acompanhar o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes, ocorrido em 22 de dezembro de 1988.


dos varadouros de Rio Branco

Edificada na confluência dos rios Xapuri e Acre, a cidade parece ter nascido para o cinema. Dá vontade de lamber com os olhos, como dizem nas quebradas de Pilar do Sul, minha terra natal também cercada por um sertão. Xapuri parece ter sido plantada para ser cidade cenográfica, mas foi a história, dura, violenta e emblemática, que a transformou em cenário mundial a partir de dezembro de 1988, quando um tiro de cartucheira matou, na cozinha de casa, o líder sindical e ambientalista Chico Mendes.

Dois anos depois, entre os dias 12 e 16 de dezembro de 1990, o Fórum da pequena cidade acreana tornou-se o centro das atenções do planeta durante o julgamento do fazendeiro Darly Alves da Silva e de seu filho, Darci Alves Pereira, acusados de mandar matar e executar o seringueiro.

Eu estava lá, aos 33 anos, durante uma pausa no emprego, fazendo um bico para uma revista paulista que nunca publicou uma linha de minha viagem. Até porque eu também não escrevi. Nunca escrevi uma linha sobre minha viagem a Xapuri para ver o julgamento. Tudo o que eu me recordo é que naquele dezembro, Xapuri viveu os dias mais movimentados de sua história desde o ataque de Plácido de Castro à sede da intendência boliviana, em 1902, marco inicial da Revolução Acreana.

Jornais, emissoras de televisão e agências internacionais enviaram seus principais correspondentes para acompanhar um julgamento que simbolizava, para o mundo, a possibilidade de responsabilização pelos crimes cometidos contra defensores da floresta amazônica.

A cidade não tinha estrutura para tamanha demanda. Os dois hotéis lotaram rapidamente, casas foram alugadas às pressas, famílias inteiras se mudaram temporariamente para residências de parentes e barracas se espalharam pela praça da Igreja de São Sebastião. Jornalistas dormiam em redes, sacos de dormir ou improvisavam alojamentos em quartos inacabados, meu caso.

A Embratel precisou montar em Xapuri uma estrutura de telecomunicações equivalente à de grandes eventos internacionais. Antenas e torres faziam funcionar aparelhos de fax, telex e os então raros laptops a partir do casarão histórico às margens do rio Acre, antiga sede da intendência boliviana. Dali, repórteres disputavam tomadas e linhas para transmitir textos e imagens para redações espalhadas pelo mundo.

Correspondentes de praticamente todos os grandes veículos internacionais marcaram presença em Xapuri. Entre os profissionais acreanos, estavam Tião Maia e Edson Caetano, pelo jornal O Rio Branco e Altino Machado, correspondente do Estadão, no Acre, que fazia parceria com João Domingos, da Sucursal de Brasília, entre outros. Sandra Passarinho, Marcos Losekan e Ernesto Paglia, cobriam pela Rede Globo; Emanuel Nery pela Folha de São Paulo e Roberto Cabrini, do SBT, chegou sozinho, com câmera e mochila.

O New York Times enviou o chefe de sua sucursal no Rio de Janeiro, James Brooke. Também circulava pela cidade o cineasta anglo-chinês Adrian Cowell, referência mundial em documentários sobre a Amazônia e autor da série “A Década da Destruição”, registrando não apenas o julgamento, mas os bastidores da cobertura jornalística.

O jornalista Zuenir Ventura também marcou presença. Autor do célebre livro “1968: O Ano Que não Terminou”, Zuenir havia assinado uma série de reportagens sobre o assassinato de Chico Mendes no Jornal do Brasil e eu lera todas elas. Algumas reportagens eram assinadas por Zuenir em parceria com o jornalista acreano Elson Martins, que também foi correspondente do JB no Acre. Uma coletânea destas reportagens seria publicada em livro em 2008 em alusão aos 20 anos do assassinato.

Zuenir teve o privilégio de uma vaga na casa das freiras de Xapuri, onde também estavam o cineasta Adrien Cowell e o advogado assistente de acusação, Márcio Thomaz Bastos, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e futuro ministro da Justiça, uma celebridade do mundo jurídico nacional. Em 1991 eu o encontraria em uma sala do Departamento de Investigações Criminais (Deic) da Polícia Civil de São Paulo defendendo um traficante preso em flagrante com uma carga de cocaína e uma carteira de assessor parlamentar do deputado Jabes Rabelo, de Rondônia, mas esta é outra história.

Um nome conhecido fora do Brasil

A presença maciça da imprensa estrangeira em Xapuri refletia uma realidade pouco assimilada no país à época. Chico Mendes era mais conhecido fora do Brasil do que dentro dele. A notícia de seu assassinato chegou a muitos brasileiros pela televisão. O ex-governador Binho Marques, que foi muito próximo de Chico, lamentava que os acreanos o ignorassem e até mesmo o odiassem. “Vivem me perguntando se Chico era mesmo tudo aquilo que ele foi”, comentava.

Eu ouvi a notícia do assassinato pela primeira vez no Jornal Nacional, um dia depois do crime. Era uma noite de horário de verão em Campinas (SP). Ainda havia luz do dia quando o noticiário começou. Minha namorada arrumava as malas para viajar de férias quando ouvi o nome de Chico Mendes e soltei, em voz alta: “Puta que pariu!”. Do quarto, ela não entendeu o espanto. Quem era Chico Mendes naquele momento? No Brasil, quase ninguém sabia.

Eu ouvira falar dele um ano antes, em junho de 1987, em Cuiabá (MT). Uma comitiva do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) visitava a cidade para avaliar os impactos da pavimentação da rodovia BR-364 ligando Cuiabá a Porto Velho. Sem outra pauta para o Diário da Manhã, na verdade um jornal vespertino impresso em Goiânia, fui acompanhar uma reunião entre os banqueiros e o consultor do BID no Brasil, o médico sanitarista Oswald Cid Nunes da Cunha, ex-coordenador de saúde indígena do Parque Nacional do Xingu.

Diante de um quadro negro, Cid desenhou um mapa tosco do Brasil e traçou uma linha reta representando a rodovia. Ao longo do traço, marcou pontos brancos, cada um correspondendo a um povo indígena impactado pela obra. Terras invadidas, comunidades removidas, massacres silenciosos. Ao final, senti que faltavam peças para compreender aquele quebra-cabeça. Procurei Cid, que, espantado com minha ignorância, tirou do bolso um recorte de jornal e mandou que eu lesse com atenção.

O texto era da Gazeta Mercantil, assinado pela antropóloga Mary Helena Alegretti. Não era um artigo de opinião, mas um relato sobre a viagem de um seringueiro de Xapuri aos Estados Unidos, onde denunciara no Congresso Nacional os impactos da BR-364. A visita resultou na suspensão de financiamentos internacionais e na conquista do Prêmio Global 500 da ONU, colocando Chico Mendes entre as 500 personalidades mais importantes do mundo.

Ali compreendi que acabara de testemunhar a investigação das denúncias feitas por Chico Mendes e pelas quais ele estava sendo ameaçado de morte. Era um período de extrema tensão no campo. Assassinatos de lideranças camponesas e indígenas se multiplicavam. A Comissão Pastoral da Terra (CPT) publicara uma lista de pessoas marcadas para morrer. Em abril daquele ano, o padre espanhol Vicente Cañas, que vivia entre povos indígenas ameaçados no Mato Grosso, foi assassinado a mando de fazendeiros.

Da estrada em chamas ao Acre

Eu assisti da janela de meu quarto de hotel a uma missa ao ar livre em homenagem a Vicente Cañas. Estava hospedado em uma espelunca localizada a 5 metros da escadaria da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, a mais antiga de Cuiabá, construída em 1730. Eu estava na cidade desde março de 1987, quando completei 30 anos e achava que já era maduro o suficiente para conhecer o Brasil.

Pedi demissão do Diário do Povo, em Campinas, e iniciei um projeto quase inconsequente de viajar fazendo bicos em jornais. Vendi uma motocicleta e parti para Brasília, depois Cuiabá, onde participei por três meses do projeto do Diário da Manhã. Em julho, logo após a visita do BID, decidi seguir viagem até Porto Velho e, depois, Rio Branco.

Nos quase 1.500 quilômetros até Porto Velho, o ônibus seguiu com os faróis acesos em pleno dia. A fumaça das queimadas era densa. Nunca a floresta amazônica vira tanto fogo. Enquanto a Assembleia Nacional Constituinte discutia a Constituição de 1988, fazendeiros, grileiros e posseiros queimavam a mata para abrir pastagens antes que a lei endurecesse. Entre julho e outubro daquele ano, cerca de 200 mil quilômetros quadrados da Amazônia Legal queimaram — área equivalente ao estado do Paraná.

Cheguei a Porto Velho em busca de trabalho. Encontrei o jornalista Eurípedes Pena Clayton, que se tornara empresário da comunicação local. Com muito tato, Pena me desanimou. Emprego em redação era escasso e a viagem até Rio Branco poderia levar semanas. Voltei para Campinas. Quando Chico Mendes foi assassinado, em dezembro de 1988, eu era, de novo, repórter do Diário do Povo e achei que jamais conheceria o Acre. Até que, dois anos depois, o fotógrafo Carlos Torraca me convidou para cobrir o julgamento.

A cidade lotada

Desembarquei na rodoviária de Xapuri ao anoitecer de segunda-feira, 10 de dezembro de 1990 depois de passar o final de semana hospedado no Hotel Epílogo, em Rio Branco. Não havia mais vagas em hotéis em Xapuri, nem no camping improvisado na praça da igreja. A cidade estava tomada. Pouco depois de chegar fui abordado por uma jovem simpática que ofereceu uma rede para dormir em sua casa, mediante o pagamento antecipado de uma modesta diária. Aceitei sem hesitar.

Na quarta-feira, 12, começaria o julgamento que colocaria Xapuri sob os olhos do mundo. Por alguns dias, a pequena cidade amazônica seria redação global, palco histórico e símbolo de uma luta defendida por todo o mundo. Ninguém pode imaginar o alívio de contar naquele momento com uma rede na casa da Maria Dulce, nome de nossa anfitriã.

A casa de Maria Dulce ainda estava em obras. Havia apenas as quatro paredes erguidas, o telhado e o piso bruto. O banheiro era improvisado no quintal, um buraco cercado por tábuas e, ao lado, uma torneira despejando água sobre um tambor, de onde se tirava, com um balde, o necessário para o banho.

Cheguei a imaginar que o dinheiro arrecadado com a hospedagem dos jornalistas durante o julgamento permitiria algum avanço na construção. Bastou, porém, o primeiro dia para perceber que nossa anfitriã era de uma generosidade quase inconsequente. Gastava o que entrava distribuindo bombons, acolhendo visitantes e circulando pelos bastidores como uma espécie de relações públicas informal de Xapuri.

Quando o dinheiro e as redes começaram a faltar, Maria Dulce recorreu a uma prática comum nas companhias aéreas: o overbooking. Assim, ao retornar tarde da noite para o segundo dos cinco pernoites que havia pago antecipadamente, encontrei minha rede ocupada.

Passei por cima de uma mochila e de uma mala descomunal até alcançar a rede e identificar o intruso. Pedi licença em voz baixa. Repeti, um pouco mais alto. Sem resposta, toquei-lhe o ombro. Ele fingia dormir. Virou o rosto, e então reconheci o repórter famoso da TV Globo que havia se transferido para o SBT, Roberto Cabrini.

Expliquei, com a máxima gentileza possível, que a rede estava paga e que lamentava a situação. Mas, se alguém tivesse de dormir no chão naquela noite, deveria ser quem chegara por último. Ele ajeitou a mochila sobre a cabeça e não o vi pela manhã, quando acordei com a cabeça latejando de ressaca, efeito de um drink tipicamente acreano feito de pinga curtida na semente de jucá, uma bebida que os seringueiros tomam como anestésico para aliviar a dor de contusões.

Cabrini foi o último a chegar, mas sua presença logo começou a se propagar, dada sua forma de trabalhar solitário, ele próprio segurando a câmera e o microfone, abrindo espaço à cotoveladas aproveitando seu 1,80 metro de altura. Além disso, segundo outros jornalistas, ele chegou ao QG da imprensa reclamando que furtaram todo o seu dinheiro na casa de Maria Dulce e que suspeitava que tinha sido furtado pela anfitriã, no que a unanimidade dos colegas saiu em defesa da jovem que distribuía bombons para a imprensa.

Enfim, salvo o furto das diárias de Cabrini, o julgamento ocorreu sem maiores problemas e o enorme aparato policial montado na cidade não chegou a ser de grande utilidade. O resultado o mundo inteiro acompanhou. Pai e filho foram condenados a 19 anos de prisão, fugiram, foram recapturados, cumpriram pena e foram liberados.

Hoje Darci, o executor de Chico é pastor e chegou a ser candidato a vereador pelo PL, partido do ex-presidente Bolsonaro. Darly vive em sua fazenda em Xapuri e costuma dizer que Chico não foi assassinado, ele próprio se matou quando ousou desafiá-lo.

Darci Pereira Alves, condenado pela morte de Chico Mendes, hoje é pastor e político bolsonarista. Foto: Reprodução/Twitter



História lucrativa

Pouco mais de um ano após o assassinato de Chico Mendes, no início de 1990, a indústria editorial produziu três livros sobre o caso: o escritor amazonense Márcio Souza lançou “O Empate contra Chico Mendes”, o jornalista estadunidense Alex Shoumatoff publicou “O Mundo em Chamas – A Devastação da Amazônia e a Tragédia de Chico Mendes” e outro jornalista, Andrew Revkin, lançou “Tempo de Queimada, Tempo de Morte – O Assassinato de Chico Mendes e a Luta pela Amazônia”.

A competição pela melhor história começou antes do velório de Chico Mendes. Shoumatoff já tinha expertise em publicar reportagens em calhamaços de 400 páginas. Em 1976 passou seis meses na Amazônia e publicou reportagem sobre seus rios no livro “The Rivers Amazons“; dez anos depois, chegou primeiro para relatar o assassinato da primatologista Dian Fossey, que pesquisava a vida dos gorilas de Ruanda. Sua reportagem serviu de base para o roteiro do premiado filme “A Montanha dos Gorilas”, de 1988, com Sigourney Weaver no papel principal.

Casa onde o líder seringueiro morava e foi morto. Foto: Fabio Pontes/Jornal Varadouro



Quando publicou “O Mundo em Chamas”, Shoumatoff já contava que a obra seria utilizada para um filme sobre Chico Mendes que já vinha sendo negociado entre o ator Robert Redford e a família do herói. No livro, o jornalista conta que Redford sofria resistência por parte de amigos de Chico Mendes, como o agora advogado Gomercindo Rodrigues, porque representava a cara do imperialismo norte-americano.

Diante da oposição, o filme acabou sendo negociado com uma produtora genuinamente nacional, dos irmãos Roberto e Reginaldo Farias, que acabaram revendendo os direitos da filmagem para os gringos. O resultado da negociação foi o filme Amazônia em Chamas, baseado na obra de Revkin, lançado em 1994. Dirigido por John Frankenheimer, com Raul Júlia e Sônia Braga, venceu o Globo de Ouro na modalidade melhor filme e rendeu prêmio de melhor ator para Raul Julia.

Revelação: Luís dos Santos não tirou a foto do cadáver

O fotógrafo Luís dos Santos, já falecido, é reconhecido como autor da única foto do corpo de Chico Mendes com o peito crivado de chumbo, uma imagem que correu o mundo após ser vendida clandestinamente pelo repórter e editor do O Rio Branco, Júlio César Fialho, que mais tarde se revelaria um trapaceiro de carteirinha. Fialho teria vendido a imagem por algumas centenas de dólares e desaparecido logo após o negócio.

Em agosto de 1993, viajando com Luís dos Santos com a Caravana da Cidadania do então candidato a presidente Lula da Silva, Luís confessou que, na verdade, quem tirou a foto foi o próprio Fialho, porque ele ficou com medo de encarar o cadáver de Chico. Diante da hesitação de Luís, Fialho pegou sua máquina, saltou por uma janela e fez o serviço. “Ele não assinou, porque decerto estava no Acre escondido”, comentou Luís.

A imagem gerou a suspeita de que o jornal O Rio Branco, já de propriedade do empresário e político Narciso Mendes, fora avisado sobre o local e o horário em que Chico seria assassinado. Isso porque Fialho andou bravateando que saiu de Rio Branco após ser informado do assassinato de Chico às 18h30 e chegou a Xapuri em 1h30, uma façanha e tanto para 180 quilômetros de lama.

Epílogo

Depois de velho vim a saber que o nome do Hotel Epílogo é derivado do nome do seu proprietário, não se trata de nenhuma mensagem filosófica. Passei três noites no Epílogo porque, pedi ao taxista do Aeroporto que me levasse a um hotel que tivesse frigobar, telefone e vista para o rio Acre. Após o julgamento em Xapuri, retornei para Campinas na terça-feira seguinte, após três dias aguardando vaga em voos para São Paulo, às vésperas do Natal.

No Ano Novo comecei a trabalhar no Notícias Populares do grupo Folha de São Paulo e, em maio de 1992, com o assassinato do governador Edmundo Pinto em São Paulo, o Acre voltou a frequentar a minha agenda. Em julho pedi a conta do NP e fui assistir à Eco 92, no Rio de Janeiro, que seria o embrião da COP30, realizada recentemente em Belém.

Durante a Eco 92 frequentei um estande do Conselho Nacional dos Seringueiros onde conheci vários personagens centrais da história de Chico Mendes e decidi que tinha que mudar para o Acre. Lá estavam o txai Antônio Macedo, hoje enfermo e precisando de apoio, e Gomercindo Rodrigues, um dos principais amigos de Chico, hoje advogado atuante no Estado. Em agosto de 1992, com as bençãos da diretora da Agência Folha, Júnia Nogueira de Sá, embarquei para Rio Branco e assumi o posto de correspondente no Acre e em Rondônia.

Lembrando o jornalista José Chalub Leite, ninguém vem para o Acre impunemente.

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