Em Marechal Thaumaturgo, Bocalom solta suas bravatas contra preservação da Amazônia

Prefeito de Rio Branco vai ao Alto Juruá para culpar a presença de unidades de conservação e territórios indígenas por possível empobrecimento do Acre. Para ele, política de preservação trava produção. Lideranças rebatem fala de bolsonarista. “As terras indígenas, a reserva extrativista e o parque nacional não tem problema algum para a sobrevivência da população”, diz a liderança Ashaninka Benki Piyãko.
Fabio Pontes
dos varadouros de Rio Branco
Como se nada tivesse a fazer para cuidar da infraestrutura urbana e rural de Rio Branco, o prefeito Tião Bocalom (PL) saiu da ponta leste para a ponta oeste do estado a fim de esbravejar sua velha e batida retórica contra as políticas de preservação da Floresta Amazônica, colocando-as como as únicas responsáveis pelas mazelas históricas do Acre. Em Marechal Thaumaturgo, no Alto Juruá, Bocalom culpou a presença de unidades de conservação e de terras indígenas por aquilo que considera como o empobrecimento da população.
Ele, que ainda sonha em ser candidato ao governo em 2026, mesmo já sendo rifado pelo governador Gladson Cameli (PP) – que lançará a vice Mailza Assis (PP) para sua sucessão – foi a Thaumaturgo numa agenda de pré-campanha. O prefeito da capital esteve acompanhado do senador Márcio Bittar (União) – ambos os principais porta-vozes do desmonte da agenda ambiental e defensores do agronegócio em sua versão mais nefasta.
Na visão da dupla bolsonarista, a existência de áreas protegidas que asseguram a manutenção da floresta em pé e o modo de vida tradicional das populações representam um verdadeiro atraso para o Acre. É exatamente esse discurso que Bocalom mantém desde 2006, quando passou a disputar sucessivas eleições majoritárias no Acre; seja para o governo, seja para a prefeitura de Rio Branco.
O forte discurso de ódio alimentado pelo bolsonarista contra a agenda ambiental ao longo dos últimos 20 anos virou uma “verdade” para parte expressiva da sociedade acreana. E foi justamente essa retórica que mirava a chamada florestania ou governos da floresta do PT, que levou de volta ao poder a velha direita acreana alinhada ao agronegócio, representada por figuras como o governador Gladson Cameli, Bocalom e o senador Márcio Bittar.
“Não dá para plantar com 94% do território proibido plantar, proibido trabalhar. Noventa e quatro por cento aqui de Thaumaturgo não pode trabalhar, não pode fazer agricultura, não pode criar um gadinho. O que eles querem? Manter o povo na miséria?”, disse o prefeito de Rio Branco, em discurso na Câmara Municipal de Marechal Thaumaturgo.

Bocalom ainda criticou a falta de assistência técnica rural ao pequeno agricultor. Como bom bolsonarista, responsabilizou o governo Lula. Só esqueceu que essa política básica é feita pelos governos estaduais e municipais. Omitiu que, se o pequeno produtor do Alto Juruá não tem suporte na produção, a culpa é a de seu aliado Gladson Cameli – cuja única política de fomento ao agro foi abrir a porteira para a boiada.
Com uma população de 17 mil habitantes e com pouco mais de oito mil quilômetros quadrados, o município possui um grande mosaico de Floresta Amazônica preservada formado pela Reserva Extrativista (Resex) Alto Juruá, o Parque Nacional da Serra do Divisor, as Terras Indígenas (TI) Kampa do Rio Amônia, TI Arara do Rio Amônia, TI Jaminawa/Arara do Rio Bagé e a TI Kaxinawa/Ashaninka do Rio Breu.
“A Resex Alto Juruá é um território nosso, que deve ser protegido porque é a nossa maior conquista. É de lá que tiramos o sustento para as famílias. É de onde é produzido o alimento que abastece Marechal Thaumaturgo. Mais de 70% do alimento que vem para a cidade é da Reserva Extrativista”, diz Orleir Moreira, presidente da Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá (Asareaj).
“Se desmatar essa floresta aqui todinha o rio Juruá seca. Se a gente desmatar o parque nacional, a reserva extrativista e as terras indígenas, a gente vai ver o impacto que esse município vai sofrer. A gente vai ver as pessoas sem comer um peixe que sobe esses rios. Os rios secos na época do verão que ninguém mais vai poder navegar, completa a liderança Ashaninka Benki Piyãko.
“As terras indígenas, a reserva extrativista e o parque nacional não tem problema algum para a sobrevivência da população de Marechal Thaumaturgo. O que falta é um projeto que possa, realmente, dar suporte às necessidades, de uma maneira equilibrada. Nós não vivemos sem a floresta.”
Desde 2010, ele lidera uma das maiores iniciativas dentro da Amazônia que concilia produção agrícola com a preservação e a recomposição da floresta. Localizado de frente para Marechal Thaumaturgo, o Instituto Yorenka Tasorentsi mostra como é possível as famílias desenvolver seus roçados e criações sem a necessidade de desmatar. Para isso, destaca Benki, basta ter boas políticas públicas que assegurem assistência técnica a quem quer produzir.

Sem apoio governamental e com a ajuda de parceiros internacionais, a liderança Ashaninka reflorestou uma área de 1.150 hectares que antes estava degradada pelo pasto. “Começamos do zero plantando árvores. Já plantamos perto de quatro milhões de árvores. Hoje estamos providenciando a instalação de uma indústria de polpa de frutas. Hoje temos aqui 50 açudes cheios de peixe porque o rio já não atende as necessidades “, afirma Benki Piyãko.
“O que antes era uma área degradada hoje virou floresta, e a gente não morreu de fome. Tem tanta gente aí dizendo que se não criar o gado vai morrer de fome, se não derrubar a floresta vai morrer de fome. Eu digo o contrário: se não plantar, a gente não come”, resume ele.
“Derrubar a floresta para dizer que vai trazer riqueza para vida aqui das populações? Vai criar é pobreza e desastre para todo o município e para todo o país”.

Um campo abandonado
Apesar de apontar o agronegócio como a única solução para os problemas sociais e econômicos do Acre, Sebastião Bocalom deixa a zona rural de Rio Branco ao deus-dará. Durante os meses do inverno, as comunidades ficam isoladas por conta de ramais intrafegáveis. Bocalom enalteceu seu projeto do “produzir para empregar”. Como de costume, enalteceu o município de Acrelândia – seu berço político-eleitoral – como exemplo de pujança no campo.
Ele esqueceu de citar que mais de 50% dos alimentos agrícolas presentes nos supermercados do Acre continuam a vir de fora. Que sua gestão conseguiu acabar com as feirinhas de bairro que outrora eram robustas. Feiras comunitárias que asseguravam valor e mercado à produção rural de Rio Branco e municípios vizinhos.
O prefeito afirmou que sua gestão assegura mecanização agrícola aos produtores rurais em substituição ao fogo. A informação contrasta com a realidade de uma cidade, todos os anos, tomada pela fumaça das queimadas. Graças à dobradinha Bocalom-Gladson, Rio Branco ganhou o título de “capital do fogo”. Em 2024, os rio-branquenses dormiam e acordavam inalando fumaça tóxica. A cidade ocupou as primeiras posições entre as mais poluídas do mundo.

O atual grupo político já está há quase uma década no poder, mas Sebastião Bocalom não se cansa de responsabilizar os governos petistas por todas as mazelas históricas do Acre. Em um estado bolsonarista, tal retórica rende bons resultados eleitorais. Não precisa fazer gestão ou apresentar resultados concretos na administração pública: basta vociferar contra Lula e Marina Silva, que o sucesso eleitoral está garantido.
Enquanto políticos do nível de Sebastião Bocalom vão a uma das regiões mais bem preservadas do estado fortalecer o discurso de ódio contra a proteção ao meio ambiente, a população é intensamente impactada pelos eventos climáticos extremos ano após ano. Do Alto Acre ao Alto Juruá, os efeitos são os mesmos. Das grandes alagações às secas extremas, os mais afetados são, justamente, estes que o bolsonarista afirma defender: o homem e a mulher do campo.
Já abandonados pelo poder público em sua incompetência para executar uma política eficaz para a zona rural, os agricultores familiares perdem roçados e criações para as alagações no inverno, a falta de chuvas e o fogo no verão. Os extremos climáticos que atingem o Acre com cada vez mais frequência e intensidade. Porém, é melhor culpar Lula e Marina Silva, a fazer o simples dever de casa.
Sem floresta, sem agro
Na Rio Branco “administrada” por Bocalom, como exemplo, a prefeitura precisa levar água potável em caminhões-pipa para as comunidades rurais não passarem sede durante os meses da seca. Em 2024 e 2025, as comunidades ribeirinhas perderam a produção para as enchentes do rio Acre.
Ao longo das últimas cinco décadas, mais de 70% do desmatamento no estado se concentraram na região leste, na Bacia do Rio Acre. Desde 2019, a devastação migra, a passos largos, rumo ao extremo oeste, no Vale do Juruá. É isso que defende Bocalom ao responsabilizar terras indígenas e unidades de conservação em Marechal Thaumaturgo por travar a agricultura.

Localizado na fronteira com o Peru, o município é território das populações Ashaninka, Apolima-Arara, Huni Kui e Jaminawa. Ainda há os Kuntanawa, que sem ter uma terra demarcada, possuem suas aldeias dentro da Resex Alto Juruá, a primeira reserva extrativista oficialmente criada no país. Uma das regiões mais preservadas de Floresta Amazônica, capaz de minimizar os impactos da crise climática que ameaça a sobrevivência do próprio agronegócio.
Marechal Thaumaturgo também é conhecido por ser um dos maiores produtores de feijão do estado. Não por acaso a festa popular da cidade é o Festival do Feijão, que oorre entre o fim de junho e o começo de julho.
A produção de feijão – e outros alimentos básicos – poderia triplicar no município, caso os agricultores pudessem contar com a devida assistência técnica rural por parte do governo; o que não acontece. Então, é melhor culpar a tão demonizada “florestania”.



