“Pegar saúde”

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Por Riobaldo, Guimarães Rosa disse que “o correr da vida embrulha tudo”. E nesses tempos acelerados em que as dinâmicas de trabalho inundam nossas casas e finais de semana por meio dessa prótese que carregamos na mão e chamamos de celular, não tenho encontrado tempo pra fazer essa dança alquímica entre meus dedos e o teclado do computador. Toda palavra que não é acadêmica ou burocrática parece não deter a mesma urgência e vai ficando pra depois, inclusive esta coluna que tanto gosto. E é aí que eu erro comigo mesma, já que é a palavra livre de ABNT, SEI e qualquer coisa que o valha quem mais me salva de mim. E exausta de tanto, inclusive de errar comigo mesma, cá estou. Olá, você que me lê!

Aqui pelas bandas do Juruá tem acontecido um monte. Tivemos o III Festival Internacional de Cinema LGBTQIAPN+ Transamazônico. Mana, que coisa incrível. De Kika Sena brilhando em “Paloma” à festinha com discotecagem da DJ Lily com drinks da Maralícia, a gente lembra que a vida presta e é muito!

E por falar em vida que presta – beijos, Fernandinha, traz o Oscar pra nós – o ano por aqui começou com três dias de oficina do “Carimbó para o despertar do corpo”, método criado e facilitado pela diva parariobranquense Camila Cabeça. Uma atividade do projeto de extensão “Insubmissas Flores: grupo de apoio e partilha para mulheres”, coordenado por mim, Flávila D’avila, Emylli Tavares e Vivian Vivanco – professoras do Direito e da Enfermagem da Ufac, campus Floresta.

O evento aconteceu no CAPS Náuas naquele pique: teve música amazônida, teve dança, teve riso, teve choro, relatos de memória deste chão, literatura juruaense, comida regional, laços se formando e outros se apertando e, acima de tudo, teve muita vontade de sonhar junto. Como diria uma grande amiga: ô coisa boa é coisa boa!

Oficina de Carimbó para o despertar do corpo (Foto: Val Martins/jan/2025)

Mas eu tenho um momento favorito desses três dias de oficina: Camila perguntando pra que a arte serve na vida da gente e Andressa, usuária do CAPS e conhecida de boa parte da população cruzeirense, respondendo imediatamente: “– Serve pra gente pegar saúde!” . A arte serve pra gente pegar saúde! Com genialidade, Andressa nos sintetiza a potência que a boa implementação da política de atenção psicossocial pode alcançar. Em tempos de medicalização e medicamentalização da vida, que a gente não pegue só doença, né? Que a gente tenha coragem de ir atrás de pegar saúde. E isso Riobaldo também nos ensina, que o que a vida quer da gente é coragem.

Em meio aos apagões elétricos que Cruzeiro do Sul vem enfrentando desde o tal do linhão e às artes de Bega já perdendo nitidez nos muros da cidade, tenho feito cada vez mais malabarismo pra criar coragem e seguir o dia a dia. E haja arte na causa! Ainda bem que me rodeio de artistas. Na semana passada outra atividade do nosso projeto foi a Oficina “De quem é a poesia?”, facilitada pelas poetas Flávila (Poeta da Terra) e Karen Loiane (Kaeli). Nesse dia – em que saí de casa com o desejo de permanecer em minha cama – escrever, ler e ouvir poemas me salvaram o dia, quem sabe a semana, o mês e por aí vai.

E nessa de criar coragem, aproveito o embalo pra dividir o resultado de quatro anos de pesquisa. Minha tese de doutoramento pela UnB, “Esporão de arraia”: memória e verdade em contextos de feminicídio no Acre, já está circulando no mundo. Esse título corresponde à uma metáfora utilizada pela mãe de uma vítima de feminicídio assassinada pelo marido em 18/07/2021 – mesmo dia em que completei 32 anos de idade – em Cruzeiro do Sul.

A metáfora surgiu pela tentativa de descrever a dor de perder uma filha por esse tipo de violência, um meio inventivo de narrar o trauma diante da falibilidade das palavras que o luto impõe, como coloca a escritora nigeriana Chimamanda Adiche. Esporão de arraia é essa tentativa de narrar histórias de mulheres que tiveram sua vida interrompida pela violência de gênero para além da condição de vítimas e de estatísticas, trazendo mais “carne” às “peles de papel”, nos termos da poeta originária Ellen Lima Wassu, a fim de aprofundar a reflexão sobre o dever de direito à memória e à verdade que o Estado detém em contextos de feminicídio, ou seja, após ter falhado na sua obrigação de proteger vidas.

O texto é de minha autoria, mas nem de longe uma realização isolada. Contei com o apoio de muitas mulheres, principalmente as que concordaram em conversar comigo e dividir um pouco de suas dores ligadas ao trauma do feminicídio, um “divisor de águas” em suas vidas. Também recebi muito apoio de mulheres ligadas à academia e a instituições do Sistema de Justiça, especialmente do Centro de Atenção à Vítima e do Observatório da Violência de Gênero, órgãos do Ministério Público do Acre.


O desenho acima foi uma pintura feita por Veronisa Viana a partir do título da tese. Nele há a imagem de um rio com casas tipicamente acreanas, uma arraia ocupa o centro em uma escala maior do que o natural, no canto direito do quadro, a condutora de um pequeno barquinho nomeado Fé descansa o remo enquanto contempla a magnitude do animal. Parar, observar e construir memória nesses contextos é uma ferramenta essencial para não deixar o passado ser esquecido, para fazer do presente um espaço de significação do luto desde a própria experiência e com fins de ampliar as expectativas de futuro, um futuro com menos violência de gênero e que precisa ser tecido desde o agora.

A arte foi presenteada à autora da metáfora e está pendurada na parede de madeira da sua sala, pintada exatamente do mesmo tom laranja da arraia. Uma das muitas “coincidências” do percurso do feitio dessa tese. Sem falsa modéstia, vale a pena a leitura – e tem muita arte no meio!

Através desse link ela está disponibilizada gratuitamente:

O que eu mais quero como escritora é ser lida.

E se você me leu até aqui, sinta minha gratidão e lembre de pegar saúde sempre que possível.

Asè.



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