Operação que desvendou maior escândalo de corrupção do Acre completa 4 anos, sem julgamento de governador

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Quem não deve, não teme. Apesar de afirmar aos quatro ventos sua inocência, governador do Acre faz jogo de empurra-empurra para não ser julgado (Foto: Diego Gurgel/Secom/AC)




Desde que virou réu no Superior Tribunal de Justiça, Gladson Cameli usa de todos os recursos para seu julgamento não ocorrer pela Corte Especial. Sentença deveria ter sido proferida no último dia 19/11, mas liminar de Gilmar Mendes retirou o processo de pauta. Nova data pode ser nesta quarta, 17/12, isso se ministro do STF não acatar novos recursos.


dos varadouros de Rio Branco

Passados quatro anos desde a deflagração da Operação Ptolomeu, quando viaturas da Polícia Federal ocuparam as rampas de acesso ao Palácio Rio Branco para combater o maior esquema de de desvio de recursos públicos da história política do Acre, o principal protagonista do processo, o governador Gladson Cameli (PP) pode, enfim, ser julgado. Isso se até a meia-noite desta terça, 16, nenhum dos recursos impetrados por sua milionária banca de advocacia for acatado pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF). A data para o julgamento está agendada para esta quarta-feira, 17 de dezembro. É a segunda tentativa de colocar Cameli no banco dos réus em menos de um mês.

Apesar de a cada oportunidade se apresentar como inocente e expor o desejo de ser julgado para provar sua possível inocência, Gladson de Lima Cameli não exita em protelar, sempre que possível, o seu encontro com a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde tramita o processo. Assim foi no mês passado, quando ele deveria ter sido julgado no dia 19. Porém, por decisão de Gilmar Mendes, o processo foi suspenso.

O processo está todo pronto para ser analisado pelos ministros do STJ. Após quatro anos de intensos trabalhos, a ministra relatora da Operação Ptolomeu, Nancy Andrighi, concluiu o seu voto. Todavia, a defesa do governador acreano usa de todos os recursos legais para protelar o julgamento.

Em novembro de 2023, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou o governador e outras doze pessoas pelos crimes de organização criminosa, corrupção nas modalidades ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude a licitação.

A Polícia Federal classificou o governador acreano como o suposto chefe de uma organização criminosa montada no coração do poder político local para desviar mais de R$ 800 milhões. As investigações da operação Ptolomeu foram iniciadas ainda em 2019, quando o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou “movimentações atípicas” nas contas bancárias do governador e de seus parentes – que também foram denunciados.

No período de um ano, já ocupando o Palácio Rio Branco, depósitos em dinheiro vivo numa das contas de Cameli superaram o total repassado pela empresa de seu pai, onde ele tem sociedade e alega vir a maior parte de seus rendimentos; Muitos dos valores eram depositados em quantias baixas numa tentativa de não chamar a atenção das autoridades.

Entenda mais sobre este escândalo político na série de reportagens especiais intitulada Esquemão Azul, produzidas pelos jornalistas Fabio Pontes e Leonildo Rosas, com base no inquérito da Polícia Federal.



Entenda o caso

Desde o fim de 2021, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Ptolomeu, os jornalistas Fábio Pontes e Leonildo Rosas vêm produzindo o mais consistente e aprofundado registro jornalístico já feito sobre o maior escândalo de corrupção da história política do Acre.

Amparados em um inquérito policial com mais de mil páginas, ambos mergulharam em relatórios, quebras de sigilo, laudos financeiros e despachos judiciais que colocam o governador Gladson de Lima Cameli (PP) no centro de um suposto esquema criminoso instalado no coração do Palácio Rio Branco.

Enquanto grande parte da imprensa local silenciava ou tratava o caso de forma superficial, Pontes — hoje editor-executivo do Jornal Varadouro — e Rosas — à época no Portal do Rosas — assumiram o risco de expor, passo a passo, o que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República (PGR) investigavam. O resultado foi a série de reportagens batizada de “Esquemão Azul”, referência direta ao partido do governador e à engrenagem descrita pelos investigadores.

16 de dezembro de 2021: viatura da PF ocupam as ruas do Acre para deflagrar a operação Ptolomeu (Foto: Ascom PF/AC)



As reportagens revelaram que a investigação teve início ainda em 2019, a partir de alertas do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentações financeiras atípicas nas contas de Gladson Cameli, de familiares e de pessoas próximas ao governo. Segundo a PF, apenas em um ano, já no exercício do cargo, o governador movimentou quase R$ 1 milhão em dinheiro vivo, com depósitos fracionados — prática comum em esquemas de lavagem de dinheiro.

Pontes e Rosas também mostraram que, apenas seis meses após assumir o governo, Cameli abriu uma holding empresarial, utilizada posteriormente para a compra de um imóvel avaliado em cerca de R$ 5 milhões em São Paulo. Para a PF, a operação levantou fortes indícios de ocultação e dissimulação de patrimônio incompatível com a renda declarada.

Outro ponto central das reportagens foi a atuação de supostos operadores do esquema. Um dos nomes mais citados é o de Rudilei Estrela, apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do governador, responsável por receber e redistribuir recursos repassados por empreiteiras beneficiadas por contratos públicos. Os textos detalham como empresas investigadas venceram licitações milionárias e, posteriormente, repassaram valores a intermediários ligados ao núcleo político do governo.

As investigações também alcançaram contratos firmados durante a pandemia da Covid-19. As reportagens indicaram compras superfaturadas e pagamentos suspeitos, inclusive com recursos internacionais do programa REM/KfW, voltado à preservação ambiental. A Controladoria-Geral da União (CGU) apontou que parte desses recursos foi parar nas mãos de empreiteiras sob investigação, contrariando regras de fiscalização federal.

De acordo com o que Pontes e Rosas publicaram, a Polícia Federal identificou manobras do governo estadual para dificultar a atuação de órgãos de controle e burlar mecanismos de fiscalização, reforçando a tese de que a organização criminosa operava de forma estruturada e contínua.

A deflagração da Operação Ptolomeu, em 16 de dezembro de 2021, marcou um divisor de águas. Mais de 300 agentes federais cumpriram mandados no Acre, no Amazonas e em Brasília. Pela primeira vez na história do estado, a PF entrou no Palácio Rio Branco para cumprir ordens judiciais. A casa do governador foi alvo de buscas, bens foram bloqueados e medidas cautelares, como a apreensão do passaporte, seguem em vigor até hoje.

As reportagens também acompanham o desdobramento judicial do caso. Em 2023, a PGR denunciou Gladson Cameli e outras 12 pessoas por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude à licitação. O processo foi desmembrado, e uma das ações — envolvendo cerca de R$ 12 milhões em contratos — foi levada ao Superior Tribunal de Justiça, que aceitou o governador como réu.

Ao longo desses quase quatro anos, Pontes e Rosas registraram não apenas os fatos, mas também a estratégia da defesa do governador, marcada por sucessivos recursos e tentativas de adiar o julgamento. Em vídeos, artigos e análises, os jornalistas destacam que, até hoje, Gladson Cameli nega as acusações, mas nunca enfrentou o mérito das provas apresentadas pela Polícia Federal.

O conjunto desse trabalho consolidou a Operação Ptolomeu como um marco do jornalismo investigativo independente no Acre. Mais do que narrar um escândalo, as reportagens de Fábio Pontes e Leonildo Rosas escancararam as entranhas de um sistema de poder acusado de desviar centenas de milhões de reais e deixaram registrado, para a história, como o Acre viu a Polícia Federal ocupar o Palácio do Governo — uma mácula política que, como eles próprios escreveram, dificilmente será apagada.

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