Operação da PF no sul do AM gera ondas de críticas da extrema direita por excesso de abuso

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Operação Boiúna destruiu 98 dragas até o momento e gerou pânico na população do sul do Amazonas e repúdio por parte de políticos. (Foto: Divulgação PF)

Uma semana após a inauguração do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia) em Manaus (AM), a primeira operação coordenada pelo novo órgão gerou revolta por parte da população atingida e onda de críticas e repúdios por parte de instituições e políticos ligados à extrema direita no Amazonas. 

A operação conjunta da Polícia Federal (PF), Força Nacional de Segurança Pública e Polícia Militar, que teve início na segunda-feira, 15.09, nos municípios de Humaitá e Manicoré, no Amazonas (distante 591 quilômetros e 350 quilômetros de Manaus, respectivamente), e em áreas de Rondônia, para combater o garimpo ilegal no rio Madeira. 

A ação, denominada “Operação Boiúna”, que faz parte dos esforços da Polícia Federal no combate à mineração ilegal na Amazônia desde 2023, cumpriu uma ordem judicial expedida pela Justiça Federal do Amazonas e focou na destruição de dezenas de dragas e balsas de grande porte utilizadas na extração mineral ilegal. No primeiro dia, 71 dragas foram destruídas apenas no Amazonas, e até o fim da terça-feira, o número chegou a 98 no estado, totalizando 177 equipamentos inutilizados entre Amazonas e Rondônia. 

A destruição das balsas e a condução da operação provocaram protestos em Humaitá, com confrontos entre garimpeiros e agentes das forças de segurança. Diante da tensão, a prefeitura de Humaitá chegou a suspender as aulas e paralisou os serviços públicos na terça-feira, 16 de setembro, devido à possibilidade de novos conflitos. 

De acordo com o prefeito de Humaitá, Dedei Lobo (União), em declaração dada à Band News Difusora, as aulas seguem suspensas para 3.500 alunos nas comunidades da área ribeirinha. Na cidade, os 11 mil alunos seguem com aula normal.  

Em nota conjunta, a Câmara Municipal e a Prefeitura de Manicoré, comandada pelo prefeito Lúcio Flávio (PSD), repudiaram a operação classificando-a como desrespeito às celebrações religiosas em homenagem à padroeira do município. De acordo com a nota divulgada, a destruição dos equipamentos — descritos como “esperança e moradia de muitas famílias” — provocou “grande dor e desilusão”, além de interromper os festejos religiosos.

Em ambos os municípios, a forte queixa concentrou-se, principalmente, no método empregado na ação com uso de explosivos, colocando em perigo a segurança da população e o impacto psicológico em crianças e idosos, além do impacto na fauna local. 

A Diocese de Humaitá e as Paróquias de Manicoré também emitiram uma nota de repúdio, manifestando indignação contra a violência e reafirmando a solidariedade da Igreja às famílias dos garimpeiros artesanais.

Em pronunciamento na rede social da Polícia Federal, o diretor da Amazônia e Meio Ambiente da Polícia Federal. delegado Humberto Freire, afirmou que o garimpo nos rios da Amazônia é ilegal e criminoso, não possuindo autorização e sendo insustentável. Citou a contaminação severa da fauna e flora por substâncias como mercúrio e cianeto, o que coloca em risco, também, a vida da população. 

Diante disso, peritos realizam estudos para documentar os níveis de contaminação. Ressaltou ainda que o Supremo Tribunal Federal e a Justiça Federal do Amazonas já emitiram decisões judiciais contra o garimpo ilegal e a inutilização das dragas. Além disso, ele afirma que a prática de trabalho escravo também foi constatada. Servidores do Ministério Público do Trabalho (MPT) e do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) acompanharam a operação para fiscalizar as condições precárias de trabalho dos garimpeiros.

O fato gerou pronta ação da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal, presidida pela senadora senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que reforçou a necessidade de apuração, criticando a “falta de tato da Polícia Federal, delicadeza e cuidado com as crianças na cidade” e questionando por que as balsas não foram explodidas longe da cidade. 

A comissão aprovou uma diligência aos municípios localizados no sul do Amazonas para investigar as denúncias de violações de direitos, conforme requerimento do senador Plínio Valério (PSDB), que tem alinhamento com as críticas da extrema direita em relação à política ambiental do Governo Federal.

O governador do Amazonas, Wilson Lima (União), que prontamente manifestou solidariedade ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), durante seu julgamento pelo STF, e pretenso candidato ao Senado em 2026, não se pronunciou sobre o assunto. 

No Amazonas, a Defensoria Pública, por sua vez, emitiu nota reafirmando “seu compromisso com a defesa da vida e dos direitos humanos das populações do interior”, denunciando os impactos do uso de explosivos e informando um mutirão para atendimento jurídico e institucional dos atingidos pela operação.  

Outros possíveis candidatos na eleição do ano que vem, como o presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), deputado Roberto Cidade (UB), e os deputados João Luiz (Republicanos), Wilker Barreto (Mobiliza), Delegado Péricles (PL), Adjuto Afonso (UB), Rozenha (PMB) e Comandante Dan (Podemos) também se posicionaram com discursos contrários à operação das balsas às margens do rio Madeira. 

Sem cargo público, a pré-candidata da direita ao governo do Amazonas, professora Maria do Carmo (PL), também criticou o uso excessivo da força policial, os “transtornos causados à população e ao meio ambiente”, fazendo críticas ao presidente Lula (PT), acusando-o de “ações espetaculosas” e de prejudicar o desenvolvimento do Amazonas. A pré-candidata demonstrou, também, preocupação com os impactos causados ao meio ambiente não pela ação contínua das balsas, mas pela operação da PF. 

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