Uma floresta sob pressão e o ‘custo do progresso’ mostram força dos Noke Ko’í na luta pelo território

No segundo capítulo da trilogia Guardiões sob Ameaças, minidocumentário revela impactos da linha de transmissão de energia (o linhão) dentro da Terra Indígena Campinas Katukina, em Cruzeiro do Sul. A derrubada de samaúmas sagradas e o aumento de casos de malária estão entre os impactos sofridos pelos Noke Ko’i. O filme mostra como o “progresso” rasgou a floresta e violou acordos.
dos varadouros de Rio Branco
No segundo capítulo da trilogia produzida dentro do projeto “Guardiões sob Ameaças”, o Varadouro e o Coletivo Tetepawa apresentam o documentário “O Preço da Energia”. O minidocumentário, fruto da parceria viabilizada pelo Fundo Casa Socioambiental através da chamada “Comunicação Comunitária e Direitos Humanos”, joga luz sobre a resistência do povo Noke Ko’í, conhecidos também como Katukina, diante dos impactos avassaladores de grandes obras de infraestrutura em seu território, a Terra Indígena Campinas Katukina.
Os Noke Ko’í, que significa “gente verdadeira”, habitam uma área de floresta que se vê hoje “espremida” às margens da BR-364, que conecta Cruzeiro do Sul a Rio Branco. O documentário revela como a chegada de um linhão de energia rasgou a mata e secou nascentes, trazendo consequências severas para a saúde e o equilíbrio ambiental da comunidade.
Entre os relatos mais impactantes, destaca-se a crise sanitária desencadeada pela obra. Em 2024, a comunidade enfrentou um grande surto de malária com mais de 700 casos registrados para uma população de, aproximadamente, 895 pessoas. Alguns chegaram a se contaminar cinco vezes.
Surtos de diarreia e gripe também foram observados na comunidade, causados pela contaminação dos igarapés. “A gente sentia o mau cheiro da água dos igarapés por conta da quantidade de folhas derrubadas das árvores que caíram na água”, relata Powa Noke Koî, cacique geral sobre o contraste com o tempo em que a água era pura e potável.
Um ponto central de conflito retratado é a quebra de confiança por parte da empresa responsáveis pela obra. Apesar de meses de negociação e de um protocolo de consulta estabelecido, os acordos foram ignorados. O golpe mais profundo, no entanto, foi espiritual: a derrubada de seis Sumaúmas, árvores ancestrais consideradas “mães sagradas” pelos Noke Ko’í.
Diante da traição e até de ameaças de morte proferidas por representantes das empresas, o povo decidiu resistir de forma contundente, paralisando a obra federal por 28 dias. Essa mobilização forçou o Estado e as autoridades a irem para a mesa de negociação, envolvendo o Ministério Público Federal (MPF), o Ibama e da Funai.
A luta resultou em uma conquista jurídica sem precedentes: a criação de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) e de um fundo de compensação. Pela derrubada das Sumaúmas, foi garantido o valor de R$ 1 milhão, além de recursos destinados à soberania alimentar, como a construção de 52 tanques de piscicultura e casas de farinha.

Parceria que fortalece
“Foi muito importante essa primeira parceria com Varadouro para a gente construir esse projeto para que muitas pessoas conheçam as realidades dos povos indígenas, dos territórios. Muitas pessoas não conhecem essa realidade desse processo que fala da falta de regulamentação, que impactou bastante a nossa comunidade. Então, o projeto veio para fortalecer o nosso trabalho, veio para fortalecer o coletivo (Tetepawa). Através desse projeto, da parceria com o Varadouro, a gente está bem animado para que possa atingir mais pessoas e venham, também, nos apoiar de alguma maneira”, afirma o jovem comunicador Isaka Huni Kuĩ, um dos co-fundadores do Coletivo Tetepawa.
Diante do avanço da desinformação, das fake news e dos ataques à democracia no Brasil, o Fundo Casa Socioambiental lançou a chamada “Comunicação Comunitária e Direitos Humanos” com o objetivo de reconhecer o papel fundamental da comunicação comunitária e popular no fortalecimento da democracia, na defesa dos direitos humanos e no enfrentamento das violações socioambientais, especialmente na Amazônia Legal e no Matopiba.
Além dos documentários, o projeto promoveu, em dezembro de 2024, uma oficina de comunicação para quase 20 jovens comunicadores indígenas em uma escola da Terra Indígena Campinas/Katukina, em Cruzeiro do Sul. Foram três dias de formação com ulas sobre mídias digitais, comunicação/linguagem, captação e edição de vídeos.
Para esta etapa, o projeto também contou com o suporte e a parceria do Instituto Fronteiras.

A chamada apoiou projetos voltados ao fortalecimento de organizações, coletivos e redes de comunicadores populares com atuação nas comunidades locais para combate à desinformação e produção de informação sobre emergência climática, sociobiodiversidade e conflitos territoriais. Foram selecionados 20 projetos, com apoio de até R$ 50 mil cada, totalizando R$ 1 milhão.
“Esse projeto fortalece cada vez mais o nosso trabalho enquanto comunicador indígena nos territórios que, através de audiovisual, possa atingir mais pessoas, mais liderança de outras comunidades e mais pessoas que possam ajudar nossa comunidade também. E muitos territórios passam por esse processo, enquanto tem invasão, enquanto ameaça. Então todas as falas das lideranças, a gente enquanto comunicador indígena, enquanto coletivo indígena, a gente está levando isso para que as pessoas possam ter esse conhecimento”, completou Isaka.
Como lembra a liderança Itsomi Varanawa: “A gente tá trabalhando para o mundo, não é pro território… estamos trabalhando para o mundo inteiro”.
Ficha Técnica: O Preço da Energia
- Filmagem e Direção: Isaka Huni Kuĩ
- Filmagem: Samuel Arara
- Produção Executiva: Veriana Ribeiro
- Montagem, Trilha, Edição de Vídeo e Finalização: Régis Fonseca
- Pós-produção, Checagem e Edição Executiva: Steffanie Schmidt
- Editor Executivo (Varadouro): Fabio Pontes



