O melhor lugar para se viver na Amazônia em 2010: Quando o Acre desafiou a impunidade

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No cenário de 2026, onde os estados da Amazônia ainda lutam contra as cicatrizes deixadas pela guerra de facções, olhar pelo retrovisor para o ano de 2010 nos oferece uma lição valiosa de gestão pública. Naquela época, enquanto o Pará registrava assustadores 45,9 homicídios por 100 mil habitantes e o Amazonas via sua violência escalar, o Acre consolidava-se como o melhor lugar para um cidadão comum, especialmente mais pobres, viver na região Norte.

O sucesso do Acre de 2010 não foi obra do acaso, mas o ápice de um planejamento estratégico (2007-2010) que tratou a segurança como ciência, e não como palanque político. Enquanto o Brasil patinava em um “apagão” de dados, o Acre entregava resultados dignos de primeiro mundo: era o 6º estado mais seguro do país e detinha uma das maiores taxas de elucidação de crimes da história nacional.

O que o Acre fez de diferente?

A resposta reside em quatro pilares de uma gestão republicana e anticlientelista:

Primeiro, a inovação institucional. Ao elevar a Polícia Civil ao status de Secretaria de Estado independente, o governo garantiu autonomia administrativa e orçamentária para a investigação. O resultado foi imediato: o fim da “impunidade de balcão”. Quem cometia um crime no Acre em 2010 tinha a real certeza da punição, algo raro em uma Amazônia marcada pelo descaso.

Segundo, a modernização administrativa. Com a criação das Unidades de Segurança Pública (USPs) e do Sistema Integrado de Gestão (SIGO), o Estado chegou aos municípios mais isolados. A segurança deixou de ser um privilégio da capital e passou a ser um direito do morador do interior.

Terceiro, a inteligência sobre a força. Sob a liderança inovadora de uma gestão que incluiu mulheres em cargos estratégicos de comando, como a Dra. Márcia Regina, a segurança pública acreana rompeu o ciclo do “olho por olho” para focar em dados e manchas criminais. Era um sistema moderno, focado em metas e valorização profissional através de Planos de Carreira sólidos e criação de uma Escola de Formação para Policiais.

Por fim, o que tornava o Acre o melhor estado para o pobre viver era a sua gestão republicana. Em um ambiente não clientelista, a segurança não era um favor trocado por votos, mas um serviço público eficiente. O cidadão da periferia de Rio Branco em 2010 tinha uma taxa de homicídios próxima de 20 por 100 mil — um índice que hoje, mesmo com as reduções históricas celebradas em 2026, ainda serve como o “padrão-ouro” de paz social a ser perseguido.

O Acre de 2010 provou que a Amazônia não está condenada à violência. Com inteligência e coragem política para modernizar a máquina pública, é possível transformar a floresta em um território de cidadania.




Binho Marques, 62 anos, é ex-governador do Acre (2007-2010). Historiador e mestre em educação pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Atuou como professor, gestor público, secretário de Educação (municipal, estadual e no MEC/SASE), consultor do Unicef e parceiro de Chico Mendes em comunidades extrativistas.

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