
Partindo do juízo de que vivemos em uma sociedade colonizada, o livro se ocupa da esfera estética desse contexto, o que se realiza como um corpus orgânico de críticas à condição colonial pela qual têm sido tratado(a)s/reduzido(a)s no Acre o/a artista da terra e suas expressões estéticas. A obra se desafia a ser uma proposição original de conhecimento e reflexão critica a respeito do assunto.
Buscando trazer aqui uma breve visão panorâmica de seu problema mais central, posso dizer que a obra de minha autoria, Artista da Terra – Uma Experiência da Crítica à Colonialidade Estética – O caso da MAU – Música Acreana Urbana (2025, editora artemeiadois), se constitui por uma série de constatações, análises e reflexões críticas, teóricas e empíricas, a respeito da condição colonial que é dada a(o) artista da terra e suas criações – caso da música – no próprio lugar em que nasce, vive e cria – seu espaço geocultural – e em quaisquer outros fora dele.
Falo da condição colonial histórico-estrutural que procura atestar inexistência ou, na “melhor” das hipóteses coloniais, subsistência do(a) artista da terra, como criador (a) fora da pretendida universalidade/centralidade cultural produto da racionalidade da instituição estado, do sistema de mercado da indústria cultural de espectros norte-eurocêntrico e brasilcêntrico e, por consequência, da mentalidade da própria comunidade de onde se origina, esta cujos sensos estético e político têm sido, em regra, formados por aqueles.
De fato, essa mentalidade absorvida socialmente opera na/pela sociedade como senso comum colonial de massa, pelo qual é reproduzida, mantida e fortalecida a forma social de ignorar e não reconhecer como digno(a) o/a artista da terra.
Nesse passo, tal condição – que é o modo como a colonialidade estética funciona – expressa e patenteia a forma como o colonizado cultural é visto e tratado pelo colonizador, o que inclui a forma que o próprio colonizado o vê, que finda por ser a mesma forma de conceber a si pelos olhos daquele.
Colonizador aqui entendido como a racionalidade moderno-colonial própria do contexto da colonialidade, esta que se impõe como o padrão global de poder, de saber e de ser que, desde a origem da colonização do continente latino-americano, nos tem governado pragmática e subjetivamente, servível para que possamos absorver e reproduzir acriticamente aludida mentalidade/racionalidade que se estabeleceu, vindo, desde então, num contínuo tomando outras formas, sobretudo de não-colonização.
No campo estético, ela se estrutura e se sustenta nas sociedades pelo tripé das agências sociais referidas – estado, mercado e sociedade – que operam como dispositivos, em grande medida mentais, que manobram os meios pelos quais se tem mantido o/a artista da terra como não-ser artista diante do que considera ser artista.
Essa base trípode de agenciamento industrial da colonialidade estética opera, de fato, basicamente quando a instituição estado – com as suas políticas de cultura, de educação, de comunicação e de memória – institui e regula como modelo o seu ser colonial, o sempre considerado abaixo da estatura de valor e qualidade que entende ter o seu padrão, que é o seu ser moderno.
Por seu turno, o sistema de mercado da indústria cultural norte-eurocêntrica e brasilcêntrica produz e mercantiliza o produto arte de modo a reforçar e radicalizar colonialmente a relação entre o que deve ser considerado de valor e de não-valor como mercadoria-arte, oferecendo à circulação e venda o que adota como a melhor mercadoria cultural, exatamente aquela oferecida para a população consumir, comprar, reproduzir, manter, fortalecer e mitificar.
Por esta direção, o(a) artista da terra é sempre colocado(a) numa relação hierarquicamente menor/inferior/pior diante do(a) outro(a).
O(a) outro(a) como o(a) artista do mercado, por seus produtos, seus astros/estrelas, suas celebridades, e da academia, com seus cânones clássicos, underground e de vanguarda. Tem-se, assim, o que (se) vende como qualquer mercadoria (por ter valor) e o que têm qualidade estética diante do que não (se) vende (por não ter valor) e não têm qualidade.
O(a) artista da terra é seduzido(a) e ensinado(a), pelo sistema de educação e difusão culturais, a acreditar/aceitar que, por natureza, é mero consumidor das expressões estéticas matriciais, modelares, paradigmáticas advinda do ser estético moderno, de quem deve consumir, copiar, reproduzir.
No sentido decolonial/contracolonial, artista da terra será o/a que se afirma e age material e subjetivamente como tal, não para aceitar a subalternidade da condição colonial, mas para existir, isto é, se expressar e se firmar como um ser próprio, o da resistência por não cair no ensino/sedução colonial, este que o faz desejar alcançar ser o que não é, isto é, abrir mão de si, para ser o/a artista universal/central da modernidade.
Por esta concepção, nas periferias – contexto geopolítico cultural a ele(a) reservado como ser colonial – não se cria, senão se consome e se copia, o que significa glorificar e reproduzir o que é manufaturado nos/dos centros.
Assim, só pode ser considerado(a) artista aquele(a) que estiver na “cola”, numa condição mimética, em relação aos considerados verdadeiros artistas, estes que o(a) artista da terra não é, nunca foi e nunca será.
É a condição colonial estabelecida como norma natural e de tal modo nesse sentido pétreo que raríssimo se torna qualquer questionamento/enfrentamento a seu respeito. Esta é a condição a qual ele(a) esta condenado(a).
E será em tal contexto que o(a) artista da terra vai sofrer, com plenitude, a pecha colonizadora reducionista que o racializa como o ser que não é, tratando-o como não-ser estético, o polo negativo/passivo da relação colonial brasilcêntrica, e enquadrando, por sua vez, o ser estético aquele(a) que tem o selo de artista brasileiro(a), o do centro, o universal, o do polo positivo/ativo da mesma relação moderno-colonial.
Daí se justificar o seu status de ente reservado, cuja existência, quando considerada, tem vigência limitada no seu nicho de expressão, que é a sua terra, o seu reduzido lugar (periférico), de modo a não oferecer – nem dentro, tampouco fora de seu escaninho – qualquer risco – como ser próprio e não tão-somente mimético – à hegemonia colonial da cultura dita universal do centro.
Não se trata de desconsiderar o considerado ser estético dito moderno. Trata-se de considerar o que não é considerado, o ser estético dito colonial. Trata-se de não se aceitar que a existência do primeiro anule a existência do segundo. Trata-se de defender a coexistência e não uma centralidade/universalidade de um em detrimento da existência digna e própria do outro.

No sentido decolonial/contracolonial, artista da terra será o/a que se afirma e age material e subjetivamente como tal, não para aceitar a subalternidade da condição colonial, mas para existir, isto é, se expressar e se firmar como um ser próprio, o da resistência por não cair no ensino/sedução colonial, este que o faz desejar alcançar ser o que não é, isto é, abrir mão de si, para ser o/a artista universal/central da modernidade.
E será exatamente por este sentido que, para o/a artista da terra, ser é justamente não ser, eis a questão posta para reflexão e tomada de posição, desta feita não contraídas e não dominadas pela colonialidade estética em sua legitimação social via senso comum colonial de massa.
Tal quadro de posições não é nada precário e circunstancial. É produto de uma história de longa duração, que é a história da estrutura moderno-colonial construída pela colonialidade – uma estrutura de hierarquias raciais, racializantes – instalada sob a alcunha de modernidade pelos europeus e seus agentes coloniais consectários na América Latina, no Brasil e, pensando de forma mais específica ainda, na sua Amazônia, no Acre, em Rio Branco, em Porto Acre, em Santa Rosa do Purus… e em qualquer lugar geo-epistêmico-cultural considerado periférico, desde a origem e que ainda se mantém por si, por conta própria, pelas mentes e ações dos próprios nacionais/locais, agora conduzidas por seus crioulos, pelos fenômenos do colonialismo, da colonialidade interna, como a seringalidade, no nosso caso.
No Acre, tal mentalidade/racionalidade produz um modo de fazer/tratar artista da terra, que categorizo na obra como o modo de produção da colonialidade estética, cujos danosos efeitos sociais, políticos e culturais determinantes têm sido de, pelo menos, três predicados supra colonizadores radicalmente inter relacionados:
(1) Um, o da impossibilidade da existência de uma criação/criador locais próprios, pela crença de que nas periferias seus artistas não passam de copiadores/reprodutores dos artistas/produtos dos centros, impossibilidade esta plenamente correlata com a ideia de que sua população não passa de um público consumidor/comprador de mercadoria do sistema da indústria cultural, para o que ambos são servíveis na divisão internacional do trabalho cultural, na economia da condição colonial histórico-estrutural.
(2) Dois, o da impossibilidade de um contexto local de criação e circulação independentes e próprios. A impossibilidade de que nas ditas periferias existirá um mercado interno autossustentável que se faça também da valorização, da circulação e do consumo de suas próprias criações – possibilitando e estimulando mais criações – não necessariamente nos moldes voltados para a relação compra e venda clássica, pela qual a arte é tratada como mera mercadoria, mas das inter-relações de trocas culturais sobre questões políticas e culturais próprias sem vínculos e desejos tão-somente financeiros, senão de diálogos das convivências entre artistas e comunidade da qual integram a tal ponto de não se distinguir um do outro de modo que a inventividade estética seja de fato considerada um atributo constituinte de todo ser humano e não apenas dos “escolhidos”, estes só prestáveis para a mercantilização, enquanto a população para o consumo e compra.
E (3) três, o da impossibilidade da ideia de pertencimento orgânico-social a uma comunidade histórico-cultural de identidade própria (que a distinga de qualquer outra e possa nesta condição se relacionar de igual sem a pecha de origem de inferior) – em favor de um contexto cuja ideia de sociedade de pertencimento se reduz à massa de “felizes” entretenidos/distraídos pela arte dita universal, todos constituintes orgulhosos consumeristas de bandeiras, símbolos e gostos que aprendem a chamar de seus, todavia comumente alheios, senão contra, aos contextos de suas vidas vividas.
E assim, sem uma criação local reconhecida institucional e socialmente; sem um sistema autossustentável de circulação interna de seus atores e de sua expressão estética que os possibilitem subsistir nos planos cultural e econômico, e, ainda, sem se vincular ao elemento pertencimento/identidade que o afirme/legitime como um ser estético e culturalmente digno/próprio, o/a artista da terra continuará sendo o que sido historicamente tratado(a): esse não-ser estético, inexistente ou de valor naturalmente inferior, portanto, por isso, merecidamente ignorado(a), tal como um nada, como todo(a) colonizado(a) racializado(a) assim tem sido historicamente considerado(a), global, nacional e localmente.
João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.
joao_veras@hotmail.com



