
No dia 4 de julho passado, a The Bubuias (banda acreana formada por mim, Rafael de Castela, Silvio Margarido, Ketlen Bona e Carlos Castelo), realizamos, no Teatro de Arena do Sesc, em Rio Branco, a última apresentação do show FAMP 88 – O Canto em Defesa da Floresta, cuja matéria musical foi o LP do Festival Acreano de Música Popular-FAMP, a versão do ano de 1988, que traz como tema O Canto em defesa da floresta.
O show é a reprodução das treze faixas do disco vinil produzido na época pela Fundação Cultural do Estado e a saudosa Associação dos Músicos do Acre, enquanto conta a história do evento e sua relação com os contextos político, social e cultural naquele momento histórico.
Esta iniciativa é, em si, também um produto histórico o qual – passados mais de 36 anos de sua realização – ao mesmo tempo em que objetiva tirar o festival e seus produtos musicais do desconhecimento das gerações atuais, é uma manifestação pública de seu reconhecimento e de sua valorização como ação artística-cultural e também política de extrema importância para a história da música acreana urbana e das lutas de proteção ambiental na Amazônia.
Como registro da memória de uma época, o festival se constitui em um exemplo da relação cultura-sociedade, arte-política, tendo em vista o manifesto conteúdo discursivo de suas letras pautadas pelo tema do evento, o que coloca a arte e os artistas envolvidos em lutas/causas da sociedade, no caso ambientais, para além de causas do puro entretenimento, estas em suas potencialidades massificantes de tirar a sociedade da agência de seus problemas de modo a lhe fazer ignorar, quem mais sofre com eles, os sistemas de poder que dominam, exploram e colonizam.
Este show pode servir ainda para demonstrar a todos quão distância se encontra hoje tal relação. Justamente quando a defesa da floresta vem deixando de ser paulatinamente uma causa em nome da vida de todos no planeta para ser um negócio em favor de poucos.
Não por acaso que, enquanto a floresta vai ardendo de fogo e pasto, o maior evento cultural de massa do estado seja uma feira de negócios agropecuários cujas canções que por lá tem feito a massa ouvir e cantar só tenha a ver, em regra, com os conflitos interpessoais de ardências passionais, justamente em um dos estados da federação brasileira que já chegou a ter o segundo maior índice de feminicídio do país (dados de 2023).
Você me perguntaria: Haveria aí uma relação de causa e efeito? Não posso afirmar que sim. Todavia, esta incerteza não pode ter o condão de me imobilizar para a reflexão e suposição dos modos que se opera no mundo real a relação cultura-sociedade, para o bem e para o mal.
João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.
joao_veras@hotmail.com



