Katawixi: vestígios de um povo às margens da BR-319

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Terra Indígena Jacaraeúba-Katawixi está a somente 15 quilômetros da rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho. Imagem: Reprodução/ISA

A Terra Indígena (TI) Jacareúba-Katawixi, com pouco mais de 647 mil hectares entre as nascentes do igarapé Punaenã, do Mucuim e do Tapauá, guarda muito mais do que a paisagem revela. Cada varadouro, palhal e castanheira é fruto de uma história de longa duração, marcada por manejo, deslocamento, abrigo e retorno, como descreve o artigo “Os Kagwahiva da margem de lá: histórias, territórios e paisagens Katawixi e Juma no interflúvio dos rios Madeira-Purus (AM)”, da pesquisadora Laura Furquim, referência na arqueologia amazônica, em trabalho desenvolvido com Daniel Cangussu e Karen Shiratori. É um território profundamente humano, moldado por vidas que resistem ocultas e que, hoje, enfrentam a negligência do Estado e a contínua pressão dos grandes empreendimentos no sul do Amazonas.

Laura registra que a área da TI forma um “mosaico de florestas, matas de palhal, matas de carrascos, campos naturais e longas extensões de várzeas, entremeadas por pomares com castanheiras e palmeiras”. Não se trata apenas de vegetação, mas de cultura materializada. Campos atualmente tomados por gramíneas já foram hortas, acampamentos e caminhos de caça. As matas de palhal revelam ciclos de manejo que atravessam gerações. Os castanhais densos, frequentemente tratados como formações “naturais”, resultam de práticas de cultivo e seleção realizadas por sucessivas ocupações indígenas.

No centro desse mosaico, as chamadas bolas de mata — elevações entre 100 e 120 metros onde a floresta se adensa — concentram grande parte dos vestígios dos Katawixi, como fragmentos de cerâmica, restos de fogueira, sinais de acampamento e as padarias subterrâneas de pães-de-índio, descritas por Laura como uma “grande concentração de pães-de-índio (…) ocorrendo em verdadeiras ‘padarias’ subterrâneas ao longo dos varadouros dos castanhais”.

Morador da região segurando um pedaço de pão-de-índio retirado do pão que encontra-se enterrado em sua frente. Equipe da FPE Madeira- Purus no castanhal do Chincha, onde os pães-de-índio foram identificados. Na extremidade de baixo da imagem, um pão aflorando em superfície. Fotos do artigo citado neste texto.

Os Katawixi pertencem à família linguística Kawahiva, povo historicamente distribuído entre os rios Madeira e Purus. Os registros mais antigos remontam ao século XVII.

Em 1641, o padre Christovão D’Acuña, ao descer o Amazonas e passar pela foz do Purus, fez o primeiro relato conhecido sobre os Quetauxis, grafia inicial atribuída ao grupo.

Em 1862, João Martins da Silva Coutinho descreveu os Catauixis como habitantes de campos e florestas dos rios Tapauá, Mucuim e Mari, vivendo em aldeias com um barracão central e pequenas choupanas. Destacou suas relações com outros povos, a habilidade como oleiros e a agricultura diversificada.

Em 1872, o coronel Antônio Labre mencionou os “Cathauichys”, descrevendo-os como pacíficos, cultivadores, habilidosos na produção de louça e “bonitos, limpos, bem feitos e claros”. Esses relatos, somados às observações feitas posteriormente por indigenistas, ajudam a reconstruir parte da trajetória do grupo antes de seu isolamento completo.

O último avistamento direto ocorreu na década de 1980, quando moradores e extrativistas relataram ter visto um grupo de “bocas-preta” no rio Mucuim. A presença dos isolados foi reconhecida oficialmente durante o planejamento das usinas de Santo Antônio e Jirau, quando a Funai alertou o Ibama para vestígios de ocupação indígena na área.

Em 2007, foi expedida a primeira Portaria de Restrição de Uso, inaugurando um ciclo de renovações descontínuas que marcaram toda a política posterior para o território.

Desde então, as Portarias de Restrição de Uso passaram a ser renovadas em intervalos curtos, variando entre um e quatro anos, o que transformou a proteção da TI Jacareúba-Katawixi em um regime de suspensão permanente.

Em diferentes momentos, a terra ficou meses e, recentemente, mais de um ano inteiro, sem portaria vigente, exatamente nos períodos de maior avanço de invasores, abertura de ramais e expansão de áreas desmatadas. As renovações, quando publicadas, funcionaram mais como retomadas tardias de uma proteção interrompida do que como parte de uma política contínua. Essa instabilidade fortaleceu o cerco sobre um povo cuja sobrevivência depende, justamente, da garantia de isolamento.

Em 2011, durante uma expedição da Frente de Proteção Etnoambiental Madeira-Purus, servidores da Funai relataram terem sido “rodeados pelos indígenas isolados”, percebendo sua presença por sons que imitavam animais e por batidas nas árvores.

O artigo também menciona famílias que vivem hoje em Lábrea, Canutama e Tapauá e que se reconhecem como descendentes dos Katawixi, ainda sem atendimento indigenista estruturado. A história recente desse povo não é marcada por aparições, mas por recuos sucessivos, diante da violência e da expansão territorial que transformaram o ato de se recolher na única forma de continuar existindo.

A TI Jacareúba-Katawixi é hoje pressionada por três frentes que remodelam a Amazônia meridional: a BR-319, as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau e o avanço da grilagem. A BR-319 deixou de ser apenas estrada e se tornou vetor de ocupação. Onde ela chega, surgem ramais; onde surgem ramais, instalam-se serrarias; onde serrarias se consolidam, a floresta cai e, com ela, desaparecem os corredores que permitem que povos isolados evitem o contato forçado.

Segundo o boletim anual do Sirad-Isolados, do Instituto Socioambiental (ISA), o desmatamento na TI disparou nos últimos anos, passando de 4,58 hectares em 2023 para 28,62 hectares em 2024, um aumento de 525,36%. O salto está relacionado à entrada de invasores em uma área que, mesmo com portaria, permanece vulnerável. A TI tem 96% de sobreposição com o Parque Nacional Mapinguari e 3% com a Reserva Extrativista Ituxi, sobreposições que deveriam funcionar como barreiras, mas não têm impedido o avanço ilegal.

O boletim indica que parte desse avanço se concentra na porção leste, a mais próxima da BR-319 e do complexo hidrelétrico do Madeira, onde a abertura de novos ramais tem empurrado a fronteira ilegal para dentro da TI. No setor sul, os ramais ligados aos assentamentos Joana D’Arc e Jatuarana, conectados diretamente à BR-319, intensificam o fluxo de madeira ilegal.

A sobreposição com o Parque Nacional Mapinguari, uma das unidades de conservação mais pressionadas do Amazonas, agrava o cenário. Pastagens e áreas abertas avançam pelo limite oeste, enquanto a Reserva Extrativista Médio Purus enfrenta problemas semelhantes. O corredor que deveria funcionar como proteção tornou-se um conjunto de territórios fragilizados por grandes obras e ausência de fiscalização.

Nenhum empreendimento, porém, alterou tanto o Madeira quanto as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau. A mudança no pulso do rio, o declínio das espécies migratórias, o assoreamento e a abertura de acessos para atividades ilegais já reverberam até o Interflúvio Madeira-Purus. O colapso observado em Rondônia repercute diretamente no sul do Amazonas.

Laura lembra que “acampamentos e outros vestígios dos ‘isolados’ eram avistados com frequência há cerca de 80 anos”. Oitenta anos são pouco na escala da floresta e na memória indígena. A presença Katawixi não é fantasma, e a recusa ao contato não tem nada de romântico, é estratégia de sobrevivência.

Enquanto o Brasil sobe ao palco da COP30 e anuncia demarcações como demonstração de compromisso climático, no Interflúvio Madeira-Purus o povo Katawixi continua sem homologação definitiva, sem fiscalização contínua, sem garantias de que o território que os protegeu por séculos permanecerá inteiro. Não basta anunciar demarcações em Belém; é preciso proteger, de fato, aqueles que escolheram não ser vistos. Para eles, aparecer quase sempre significou morrer.

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