FORA DO EIXO

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Como a gestão Bocalom conduz o transporte coletivo de Rio Branco rumo ao caos

Dias antes, veículo que ficou sem o eixo traseiro na Via Chico Mendes por muito pouco não pegou fogo no Terminal Central da cidade (Foto: Divulgação Internet)




A cidade, que aos poucos tentava construir um sistema um pouquinho eficiente, agora se depara com verdadeiras sucatas circulando em via pública, uma única empresa operando com contrato emergencial há mais de quatro anos, linhas encerradas e terminais de integração fechados.



João Maurício da Rosa
dos varadouros de Rio Branco

Ônibus quebrados no meio da rua e passageiros ao relento à espera do próximo veículo para continuar a viagem – isso se também não ficar no prego por aí. Ônibus que pegam fogo. Carros que se esfumaçam por causa de peças superaquecidas.. Portas e elevadores para cadeirantes que não funcionam. No caso mais recente, numa das aberrações mais grotescas, o veículo perdeu por completo o eixo traseiro, colocando em risco a vida das pessoas.

O incidente (que por muito pouco não virou um acidente com vítimas) aconteceu na Via Chico Mendes, Segundo Distrito, envolvendo um ônibus da linha Belo Jardim 2. Este era o mesmo veículo que dias antes por muito pouco não pegou fogo dentro do Terminal Urbano do centro.

Este é apenas um entre os muitos retratos do caos no qual se transformou o transporte coletivo da capital acreana desde a chegada de Sebastião Bocalom (PL) à prefeitura.

A cidade, que aos poucos tentava construir um sistema um pouquinho eficiente, agora se depara com verdadeiras sucatas circulando em via pública, uma única empresa operando em status de emergência há mais de quatro anos, linhas encerradas e terminais de integração nos bairros fechados.

Quem tem um pouco mais de dinheiro e não quer passar horas em paradas tomadas pelo mato ou caindo aos pedaços (isso quando existem) à espera da condução, recorre aos aplicativos de transporte – seja de carro ou de moto.

Enquanto o país avança rumo à mobilidade inteligente e sustentável, Rio Branco ainda tenta sair do atraso crônico com ônibus incendiando ou se despedaçando, passageiros à mercê da sorte e contratos emergenciais que se arrastam há anos. Este é o retrato crônico de um sistema sem planejamento, transparência ou eficiência.

Rumo ao caos: muitas promessas e nenhuma eficiência com a gestão Bocalom frente à Prefeitura de Rio Branco (Foto: Secom PMRB)



Em setembro, o congresso Connected Smart Cities, realizado em São Paulo, elegeu Vitória (ES) como a cidade mais inteligente do Brasil, desbancando Florianópolis, que ocupava o topo do ranking havia dois anos. Niterói, São Paulo e Curitiba completam o grupo das cinco mais bem avaliadas.

O levantamento, porém, contempla apenas as cem cidades mais inteligentes entre os mais de cinco mil municípios brasileiros. Se o ranking incluísse todas, Rio Branco certamente ficaria mal colocada — especialmente no quesito mobilidade urbana, um dos principais indicadores de modernidade urbana.

Entre os dias 29 de outubro e 4 de novembro, dois ônibus da concessionária Ricco Transportes quebraram com lotação máxima — um incendiou-se espontaneamente, outro teve a carroceria desprendida do eixo. Casos como esses são relatados com frequência por usuários nas redes sociais e se tornaram pauta recorrente na Câmara Municipal.

Crise e críticas

O vereador André Kamai (PT) afirma que o mesmo veículo envolvido nos dois incidentes é o símbolo do colapso do sistema. Ele cobra do prefeito a realização urgente de uma licitação para substituir a Ricco, que opera o serviço de forma emergencial há mais de um ano.

Procurada pelo Varadouro, a RBTrans, autarquia que administra o setor na Prefeitura, informou, por meio do superintendente Clendes Vilas Boas, que um processo licitatório está sendo preparado em parceria com o Ministério Público do Acre (MPAC). Segundo Vilas Boas, o município também aguarda a chegada de 51 novos ônibus adquiridos com R$ 67 milhões de crédito do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), do governo Lula.

Do total, 45 serão movidos a diesel com tecnologia Euro 6 — 14 articulados e 31 padron, todos com ar-condicionado e Wi-Fi — e 6 serão elétricos. Além disso, a empresa vencedora da futura licitação deverá complementar a frota com mais 70 veículos novos, totalizando 130 ônibus modernos em circulação.

“A gestão do prefeito Tião Bocalom está empenhada em resolver um impasse histórico de mais de 20 anos sem licitação no transporte coletivo”, afirmou Vilas Boas. “O objetivo é oferecer um sistema moderno, limpo, eficiente e digno da população.”

Além de esperar até horas pelo ônibus, passageiros ainda se veem em risco ao andar em veículos sucateados e sem manutenção (Foto: Divulgação Internet)


Mais do que novos ônibus

Para o vereador Kamai, entretanto, comprar veículos não resolve o problema estrutural do transporte. Ele defende a revisão completa do modelo, com o retorno dos terminais de integração, reorganização das linhas e modernização tecnológica.

“Já tivemos ônibus com GPS e aplicativos que mostravam o tempo de espera. Hoje o sistema opera no escuro. A população não sabe o que a prefeitura pretende fazer”, lamentou.

Kamai ressalta que a oposição não é contra o financiamento do PAC obtido pela prefeitura, mas cobra transparência sobre a gestão da futura frota. “É normal recorrer a crédito quando há saúde financeira. O problema é que o prefeito não explica como esses ônibus serão integrados ao sistema e quem vai operá-los.”

Segundo ele, a prefeitura mantém contratos emergenciais há quase cinco anos, sem realizar a licitação definitiva, o que considera irregular. “Era para ser uma medida temporária, mas já foi renovada mais de seis vezes. O prefeito não esclarece se criará uma empresa pública para operar os veículos ou se entregará a frota a concessionárias privadas”, afirma.

Kamai também questiona o impacto do novo modelo sobre as tarifas e a possibilidade de transporte gratuito. “Nós vamos pagar por essa frota com dinheiro público. O mínimo seria apresentar um plano de gestão e metas claras, mas nada disso foi incluído no projeto aprovado pela Câmara”, aponta o petista.

O parlamentar informou ainda ter protocolado pedidos formais de informação à e solicitado acompanhamento dos órgãos de controle. “O prefeito tem um histórico de prometer e não entregar. Montou uma serraria estatal para construir casas populares e até hoje não fez nenhuma. Pegou R$ 150 milhões para o programa Asfalta Rio Branco e a cidade continua esburacada”, disse.

Ministério Público acompanha situação

Desde 2022, o Ministério Público investiga a precariedade do transporte público de Rio Branco. A 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Consumidor tentou resolver o impasse extrajudicialmente e chegou a discutir com a prefeitura um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) para viabilizar uma nova licitação — que nunca foi formalizado.

Com as constantes prorrogações dos contratos emergenciais e a falta de consulta à população, a promotora Alessandra Marques ingressou, em janeiro de 2022, com uma ação civil pública exigindo que o município realizasse licitações periódicas para o setor.

No mesmo ano, a 2ª Promotoria de Defesa do Patrimônio Público ajuizou outra ação para suspender o repasse de R$ 7,9 milhões à empresa Ricco Transportes. Um inquérito civil segue em andamento para apurar irregularidades na contratação emergencial da concessionária e possíveis violações à Lei de Concessões (8.987/95), incluindo ofensas aos princípios de competitividade, impessoalidade e igualdade.

Mais recentemente, em 2024, a Promotoria de Habitação e Urbanismo abriu novo procedimento para acompanhar a reestruturação da malha viária do transporte público, após o anúncio da Prefeitura sobre a futura contratação de uma nova operadora para o Sistema Integrado de Transporte Urbano (SITURB).

Sem acessibilidade: apesar de oficialmente terem elevadores, muitos deles não funcionam de forma adequada (Foto: Fabio Pontes/Varadouro)

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