
Desde a década de 70, do século passado, que o movimento da expressão musical acreana urbana tem sido pautado, em maior ou menor grau, por eventos coletivos, como festivais, motivados por forte influência do que acontece territorialmente do lado de fora. Eventos estes que têm contribuído no processo inacabável de construção – musical e discursiva – de uma identidade estética-cultural urbana de tal caráter para se chamar de sua.
Dois tipos com características singulares entre si, que são os festivais de música competitivos e os não competitivos, se apresentam como as formas que temos desde lá provado por aqui.
Dos competitivos, tivemos aqueles montados na chamada era dos festivais promovidos pela noviça indústria cultural do Sudeste do País, como as séries do FAMP-Festival Acreano de Música Popular (de 1980 a 2013), dos festivais estudantis de música popular (anos 80) e do FUC-Festival Universitário da UFAC (primeira década dos anos 2000)
Dos não competitivos, tivemos o Festival de Praia e Som do Amapá e o da Praia da Base (décadas de 80 e 90) e o Festival Varadouro (primeira década do ano 2000). Tais movimentos ocorreram também em vários municípios do Acre, além da capital Rio Branco, onde a concentração de eventos tem sido muito maior.
Com exceção aos festivais estudantis, que são essencialmente competições de interpretações do cancioneiro popular da indústria cultural, todos os demais eram fundados no estímulo à criação e circulação de músicas originais de compositores(as) locais.
De todos, o Varadouro era o único que promovia uma proposta de conexão-intercâmbio, trazendo, para tanto, em seus elencos, bandas e nomes individuais de outros lugares do País.
Além disso, se integrava a um circuito de festivais que estava acontecendo no País com os mesmos objetivos, o de manter acesa uma cena nacional da chamada música independente – a dita “fora do eixo” – da centralidade da indústria cultural do Sudeste.
Depois de algumas décadas sem edições, este ano, dois desses tipos de festivais voltam a ser realizados no Acre.
O primeiro, que já aconteceu, é o Festival da Canção, realizado pela Fundação Cultural do Estado do Acre, a envolver somente estudantes e que é voltado apenas para competição de interpretação, em regra, da música popular nacional e internacional, sem qualquer ênfase à música local.
O segundo, que acontecerá em Rio Branco dos dias 10 a 14 de dezembro, é o Festival Varadouro, promovido por entidades não-governamentais, mas com financiamento das leis de cultura, edição que mantém o caráter não competitivo e a concentração para a chamada música autoral – “fora do eixo” – local, nacional e internacional.

Tenho para mim que a importância de um evento como o Festival Varadouro são de, pelo menos, três qualidades.
Primeiro, pela visibilidade artístico-cultural que possibilita, visto que é por tais eventos que a chamada música autoral – que no Acre tenho denominado de Música Acreana Urbana-MAU – ganha registro e evidência social de peso, o que normalmente não acontece fora do âmbito desses contextos.
Segundo, pela efetiva integração de criadores (as) e intérpretes musicais, das mais variadas tendências e estilos, que ele tende a promover de forma concentrada, permitindo se aferir uma certa unidade das expressões sonoras e discursivas em sua potente diversidade; expressões estas a se intercambiarem, entre si e com os de fora, em um tempo de raros encontros públicos presenciais com esta força e qualidade.
E terceiro, também porque a distinção de que falo eleva socialmente a nossa música para além da experiência de intuição sensorial, individual ou coletiva, a do tipo que reduz a música pela música em contextos urbanos de entretenimento pelo mero entretenimento, consumo pelo mero consumo, reduzindo a arte como mera mercadoria, desconsiderando, com isso, o papel da música como expressão identitária cultural, social e política.
Estou falando do tipo de vínculo da arte com a vida vivida em que aquela tem se servido, por vezes, a embaçar, senão impedir, a consciência da existência social, política e cultural em relação a esta.
É que referida experiência – aparentemente ascética para os campos de poder – tem uma tendência a naturalizar uma simulada universalidade da expressão artística – esse tipo de regionalismo da indústria cultural produzido pelo auto proclamado Centro para consumo da sua dita Periferia.
Fenômeno esse que tem impossibilitado que os sensos de localidade e pertencimentos culturais (manifestos, em regra, pelos discursos que as canções locais produzem), possam nos atestar e manter como criadores (as), o que ocorre em razão de nossa redução colonial a meros consumidor (a) e reprodutor (a) da criação alheia, especialmente diante do malgrado produto musical colonial de massa da indústria cultural que nos absorve a todos – público e artistas – tentando, assim, nos eliminar como expressão de uma realidade artística-cultural própria.
O fato é que, como só acontece em eventos públicos desta importância e alcance, teremos pelo menos uma semana – sem tanta distração colonial – para ouvir e cantar uma música que possamos chamar de nossa a reverberar pela/para/na nossa história de criadores. É pouco, né? Também acho que seja. Afinal, estamos falando de eventos. Agora, já pensou (e viveu) a cena por uma eternidade sem encontros como esses?
Nós, os MAU-ditos, já!
João Veras é poeta, músico e escritor acreano. Publicou, entre outras obras, Seringalidade, o estado da colonialidade na Amazônia e os Condenados da Floresta, pela editora Valer, 2017.
joao_veras@hotmail.com



