Das vielas da Rocinha, por Alexandre Cruz Noronha
Acostumado a vivenciar pautas pelos rios e a andar pelos varadouros na floresta, subi o morro da favela mais populosa do Brasil, a Rocinha, no Rio de Janeiro. Fui como representante do Jornal Varadouro na 3ª Conferência de Jornalismo de Favelas e Periferias, que teve como tema “Justiça climática para os nossos territórios.”
Fui pensando que, além de debater justiça climática, falaríamos muito de nossas fragilidades estruturais e da crônica falta de recursos. Mas, ao contrário de fragilidade, o que mais me marcou foi a força e a resiliência das pessoas que tocam seus veículos nas favelas e periferias desse Brasil.

Na verdade, mais do que produtores de matérias e reportagens, esses jornalistas são pontos de referência em suas comunidades, pessoas que, muito além de noticiar e denunciar, lutam ativamente para mudar, ou ao menos mitigar, as realidades tão duras em que vivem.
Contam com espírito combativo, alma sensível e uma capacidade técnica irretocável. Certa vez, meu amigo e lenda viva do jornalismo amazônico, Elson Martins, escreveu um artigo sobre mim no qual me chamou de “repórter almático”, em referência ao meu amor e sensibilidade para contar a história das pessoas. Mas minha paixão se constrangeu diante da profundidade do que ouvi e senti daqueles colegas.

Não foi apenas um evento, foi um encontro de grandes potências. De gente que revoluciona com o mínimo de financiamento, raramente conseguido. Além de denúncias e reportagens, agem como proteção comunitária, articulam projetos de educação e cultura e ainda chegam a tocar cozinhas comunitárias para alimentar a vizinhança.
Usam suas formações, talentos e energia vital para acabar com os desertos de notícias e, principalmente, para contar outras narrativas, combatendo estereótipos tantas vezes criados pelas grandes mídias e por quem não vive o contexto daqueles territórios.

Claro que o preço de tanto empenho sai caro: muitos desses jovens convivem com ameaças por todos os lados, de traficantes, policiais e até, pasme, de pastores evangélicos que tentam impor o silêncio.
Me senti feliz por estar ali, no meio de pessoas que ainda mantêm viva a esperança e que, como eu, amam o que fazem. Aliás, só mesmo o amor pode ser tido como explicação para tamanho movimento.
Me acolheram e me inspiraram, renovaram minha parte “almática”, tantas vezes sufocada pelo cotidiano.
O futuro do jornalismo brasileiro se inverterá e virá de dentro para fora dos territórios.




