Em tempo de desinformações, gestor do Censipam convoca municípios a prevenir desastres climáticos

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Montezuma Cruz
Dos varadouros de Porto Velho

A ciência aplicada mudaria a vida das pessoas para melhor, considerando-se as alterações climáticas no Planeta Terra. Mais calor, mais queimadas, enchentes e inundações com maior frequência seriam piores para Amazônia e o Brasil. O alerta foi feito pelo gerente do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam)*, Caê Moura, no final de semana em Porto Velho, durante o seminário Pensar Brasil, da Fundação Ulysses Guimarães. Formulador do evento que acontece em diversas Capitais e grandes cidades brasileiras, o ex-ministro e ex-deputado federal Aldo Rebelo voltou a bombardear organizações não-governamentais (ONGs) culpando-as pelo “entrave ao desenvolvimento.”

Gestor governamental pós-graduado em tecnologias, Moura se desculpou ao público do seminário, dizendo-se um “carregador da mensagem apocalíptica” diante da realidade das mudanças climáticas. Ele pediu cuidados maiores ao governo estadual e prefeitos municipais, aos quais recomendou o reforço de investimentos à Defesa Civil.

“É muito difícil de ser ouvido, quando se trata de sentir e dizer o que muda na vida de cada um de nós, mas seria inaceitável ter de novo o cancelamento de voos e a superlotação do Hospital Infantil Cosme e Damião, em Porto Velho, onde centenas de crianças intoxicadas foram levadas pelos pais para fazer inalação.

Em 2023, conforme lembrou o palestrante, o Censipam chamou o governo estadual para demonstrar que a seca causaria perdas enormes à produção de milho e soja em Rondônia. “A chuva é um insumo e não está à venda, sem água ninguém vive, nem se produz nada”, advertiu.

Caê Moura: alerta a Rondônia é recado do Planeta (Foto Divulgação FUG-RO)

Ele queixou-se da dificuldade em dialogar: “Em alguns momentos de ridículo vimos nas redes sociais pedidos de dança da chuva, como se apenas isso resolvesse o problema. Incisivo: “Deixemos bem claro: esse cenário não se reverterá se persistir o abrandamento de causas e nos faltarem adaptações.”

Moura lembrou que na grande cheia de 2014, por falta da instalação de sensores, o fenômeno surpreendeu.

“Houve um vazio de dados (de satélite e de estações fluviométricas) na região da Ponta do Abunã – ao longo de 300 quilômetros de Porto Velho; seria diferente, se existisse uma só unidade instalada pelo município de Porto Velho.”

“Se os os prefeitos agissem preventivamente, não teríamos tantas perdas de vidas, em enchentes e incêndios, por essa razão eu digo que o respeito à ciência serve diretamente à tomada de decisão, e a política pública vem a partir dessa ciência” – disse, propondo ao governo e aos prefeitos destinarem mais investimentos à Defesa Civil.

Citou o filme Não olhe para cima (Don’t Look Up), para justificar a dificuldade em ser compreendido nos levantamentos diários do Censipam, compartilhados com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e outros órgãos nacionais. O filme mostra um episódio no qual dois cientistas procuram alertar a humanidade sobre a aproximação de um cometa que destruirá a Terra, no entanto, enfrentam o ceticismo, o negacionismo e a manipulação da mídia.

Minutos antes, o ex-ministro Rebelo havia emocionado o auditório ao defender a coragem dos “soldados da borracha” trazidos de Fortaleza no século passado, mão de obra que enfrentou condições cruéis de trabalho na floresta amazônica, por causa do ataque da malária e de outras doenças que mataram a metade do contingente de 55 mil pessoas. No início do século passado, Rondônia e Acre receberam nordestinos recrutados em Fortaleza (CE), para a extração do látex exportado para fabricantes de carros, caminhões e aviões nos Estados Unidos e em países europeus.

No mesmo discurso, Rebelo aniquilava ONGs, sem poupar uma sequer. Ele bate nessa tecla desde a primeira das 11 edições até agora realizadas desse seminário promovido pelo MDB, visando às eleições de 2026.

O binômio do ex-ministro, repetido em outras ocasiões nos “estados do agro” onde ele se pronuncia (GO, MT, MS, PR, SP) fundamentou-se na máxima: “trabalhar e produzir.” Rebelo disse que as restrições excessivas à exploração de recursos naturais (rios que teriam novas hidrelétricas, por exemplo) estariam travando projetos que poderiam irrigar cerca de 100 mil hectares no País. E elogiou Rondônia “por estar estrategicamente mais próxima da Ásia” e por ser “a bananeira que ainda tem cacho”.

Essa previsão da irrigação viável ele diz que obteve no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em Brasília. Mais um elogio: “Rondônia integra o grupo de estados considerados integradores, por onde passa o futuro” – referindo-se à “nova vitrine do agronegócio brasileiro” – dístico cunhado nas federações de agricultura e pecuária do Centro-Oeste e Sul do Brasil.

“São Paulo exportou apenas 5%, enquanto Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Pará passaram de 100%, e Rondônia ultrapassou 200%”, exemplificou, reforçando o potencial produtivo da região. Nenhuma palavra a respeito dos revezes causados por fenômenos climáticos.

“O que tem as mudanças climáticas têm a ver com a nossa vida? – colocam-me como tema neste encontro. Tudo! A intensidade de fenômenos ocorridos em 2024 nos advertiram de que há chances de ocorrerem situações iguais ou piores, à frente” – previu Moura.

Funcionária da Companhia de Águas de Rondônia visita rio assoreado em Rondônia; em 2024 alguns municípios do interior ficaram sem água para o abastecimento (Foto Assessoria Caerd)

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O gestor lamentou que as pessoas, “mesmo as mais bem informadas”, ainda duvidem de um futuro caos, e mencionou o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), organização científica da ONU criada em 1988 para avaliar as informações científicas relacionadas às mudanças climáticas. “Se hoje estamos 1,5º acima (com base em eras geológicas), não é hora de constatar de vez que atividades humanas são as causas disso tudo? A emissão de gases é a principal causa das alterações, e notamos isso no município de Espigão d’Oeste (leste de Rondônia), a 541 Km de Porto Velho, onde faltou água para o consumo da população no ano passado”, descreveu.

“Espigão sofreu horrores e as autoridades até cogitaram (Companhia de Águas e Esgotos, Departamento de Estradas de Rodagem e Prefeitura Municipal) a fazer transposição de rios para restabelecer o abastecimento de água. No ano passado, mais de um milhão de litros de água tratada foram enviados por cidades vizinhas e pelo governo, em caminhões-pipa, para atender moradores de Espigão do Oeste. O volume foi insuficiente para atender mais de 29 mil habitantes (segundo o IBGE).

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“A temperatura elevou-se em diversos lugares do mundo, imaginemos se eles alcançarem 2º a mais, se aproximando de 4º; os lugares ficariam inabitáveis e nos depararíamos com fluxos migratórios, gente fugindo do clima”, disse.

Antes da fala de Moura, o ex-ministro e deputado federal Rebelo inflamava novamente o público ao bater na tecla da “retomada do desenvolvimento e na manutenção do regime democrático”, embora incentivasse o Congresso a revogar normas fiscalizatórias cuja paralisação comprometeria alternativas de mitigação dos problemas.

Amazônia Ocidental irrespirável”

O gestor do Censipam lembrou no seminário a situação de 2024 na Amazônia Ocidental Brasileira: “Foi um crime respirar naquele período de intermitentes queimadas e quando o Rio Madeira baixou a 16 mm na régua da ponte da BR-319, paralisando as atividades do porto organizado da Capital de Rondônia.”

Moura juntou a esse caos, o fogo no Parque Estadual de Guajará-Mirim, que perdeu 33% de sua vegetação natural; mostrou fotos da fumaça que durou 90 dias em Porto Velho e noutras regiões do estado,

Em silêncio, de chapéu, cabisbaixo, ora observando a tela, Aldo Rabelo ouviu toda a palestra na qual o gestor mostrou o cenário da seca, da fumaça e do fogo ocorridos em 2024. O ex-ministro centrou uma de suas críticas às “ONGs estrangeiras” que, segundo ele, agiram e agem “para frear projetos de desenvolvimento no Brasil.” “Jirau e Santo Antônio foram verdadeiros milagres”, disse Rebelo, referindo-se às hidrelétricas no rio Madeira.

Moura encerrou seu pronunciamento dizendo que se todos criarem situações de adaptação às mudanças do clima será possível encontrar luz no fim do túnel. Lembrou os 15 anos da 1ª concessão florestal do País, a Flona Jamari, “exemplo de produção sustentável”: “Ela tem produzido madeira a rodo, e a Floresta Bom Futuro proporcionará o crédito de carbono, dando ao produtor alternativa de ganho se tirar proveito de áreas com diversificação de culturas.”

Deixou o recado geral a todos os participantes do seminário: “Proteger a Amazônia é proteger quem somos e garantir o que seremos.” E, pessoalmente: “Tenho quatro filhos, quero o melhor para eles.”

Adptações sugeridas por Caê

● Agricultura climaticamente inteligente
● Sistemas agroflorestais
● Infraestrutura resiliente
● Proteção de nascentes e rios
● Monitoramento comunitário e alertas de cheia e seca
● Energia limpa descentralizada
● Educação climática local
● Seguro rural climático
● Fortalecimento da defesa civil municipal
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* O que faz o Censipam

Monitora e analisa as condições hidrometeorológicas para prognosticar eventos de secas severas.
Produz o diagnóstico prévio que previne o comprometimento de abastecimento público, o assoreamento dos rios e lagos e a ocorrência de doenças de veiculação hídrica.
Criado em 17 de abril de 2002, tem como objetivo promover a proteção, inclusão social e o desenvolvimento sustentável da Amazônia Legal.

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