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Os grafites desenhados nas paredes do elevado Beth Bocalom, a maior obra (faraônica) do prefeito de Rio Branco, Sebastião Bocalom (PL), podem ser definidos como as maiores representações do antagonismo político-ambiental vivido pelo Acre desde 2019, com a retomada ao poder da velha direita acreana. Um antagonismo histórico entre a preservação da Floresta Amazônica e o avanço da agropecuária. Uma dualidade que, num passado não muito distante, foi responsável pelo derramamento de sangue sobre estas terras.
Antes de entrarmos na bela obra de arte estampada no concreto (aqui não falo com ironia, por favor) é preciso dizer que o elevado da Estrada Dias Martins é a única obra a ser mostrada pelo prefeito da capital. Saindo de seus arredores, não muito longe dali, o que temos é uma Rio Branco suja, tomada por buracos e pelo matagal, além de muito lixo. Em resumo, Rio Branco é hoje uma cidade maltratada e muito mal cuidada.
Voltando ao elevado que leva o nome da falecida ex-esposa de Bocalom, as suas paredes foram caprichosamente cobertas pelo trabalho artístico dos grafiteiros de Rio Branco. Foi a forma encontrada pela prefeitura para evitar que o local fosse pichado pela “arte marginal” da galera da pichação – que também expressa a sua arte e as revoltas invisíveis das periferias pelo concreto cinza da cidade.
Quem anda apressado em suas caixas de aço por ali muitas das vezes nem percebe a bela arte exposta ao ar livre. Artes que merecem toda a nossa reverência. Eu como um bom apreciador da arte e pedaleiro que sou não poderia ficar indiferente. Sempre estou a mirar, a registrar e a postar a arte urbana de Rio Branco – incluindo as pichações.
Dias atrás até cheguei a presenciar o trabalho da turma do Maha Graffiti, os autores dos desenhos. Logo de cara me chamou a atenção do que estavam desenhado. Para mim, pra ser bem sincero, foi assustador. Ao invés de ver a manifestação de nossos símbolos culturais amazônicos e/ou históricos, o que tinha ali era um verdadeiro enaltecimento ao agronegócio.
Sei que a culpa não é da galera do Maha Graffiti. Se dependesse deles, aquelas paredes estariam cheias de expressões das nossas raízes amazônicas. É assim que eles se apresentam em sua página no Instagram. Uma manifestação artística que expõe toda a nossa riqueza e diversidade culturais de uma relação ancestral entre o homem e a floresta.
Contratados pela prefeitura, eles tinham que desenhar aquilo para o qual foram demandados. Conhecendo um pouco da personalidade centralizadora e autoritária de Tião Bocalom, sei que nenhum desenho ali foi autorizado a ser pintado sem antes passar por seu crivo. Ele jamais deixaria que somente grafites enaltecendo a floresta e os povos da floresta fossem feitos na sua principal (e única) vitrine eleitoral.
Afinal, isso é coisa de comunista.
Um político que passou a vida toda defendendo o desmonte das políticas ambientais para favorecer o agronegócio não deixaria que só desenhos de castanheiras, samaúmas, seringueiras, onças, araras, bichos-preguiça, jiboias e botos ocupassem aquele espaço.
O foco da sua gestão diz ser a produção, mesmo que hoje em dia a gente vá ao mercado e compre banana vinda de São Paulo ou da Bahia. No campo, os agricultores estão abandonados, sem assistência. Nesta época de inverno, os ramais ficam intrafegáveis.
A única política de fortalecimento do agro feita pela dobradinha Bocalom-Gladson Cameli foi levar o Acre a níveis recordes de desmatamento e queimadas. A cada época de verão, fica insuportável respirar em Rio Branco com uma cidade tomada pela fumaça.
Será este agro que Bocalom enaltece nas paredes do elevado?
Num dos grafites, silos graneleiros surgem entre a floresta, envolvidos por tratores. Estas são as estruturas que passaram a ser comuns de ser vistas às margens de nossas estradas. Silos que armazenam toda a soja que se expande sobre as terras do velho Aquiry – causando os maiores impactos ambientais (e sociais) possíveis. Noutra imagem, o gado que pasta tem ao fundo uma floresta (ainda) de pé.
Eu não quero aqui fazer um discurso contra a agricultura ou a pecuária. Dependemos do que vem do campo para comer. Ao longo de cinco décadas já perdemos quase 15% de nossa cobertura florestal. Uma área hoje ocupada pela atividade agropecuária – e uma outra grande parte está degradada, sem nenhum aproveitamento.
O problema é que hoje temos políticos no poder que fomentam, ainda mais, a devastação da floresta, ao invés de colocarem em prática políticas que conciliam uma produção agrícola sustentável com a valorização dos recursos florestais. Para essa turma no poder, a floresta é sinônimo de pobreza. Para eles, derrubar a Amazônia para colocar boi ou soja é o progresso.
Um pensamento arcaico que leva o mundo e o Acre ao colapso climático. Essa gente tem a dificuldade de compreender que sem floresta em pé, o agro não se sustenta. A floresta assegura a água para irrigar lavouras e pastos. Uma racionalidade tão simples. A política de fortalecimento da produção rural não se faz com desmonte de fiscalizações, mas com valorização da agricultura familiar, acesso à tecnologia ao homem e mulher do campo, crédito rural, assistência técnica e ramais trafegáveis.
E como falei no começo, não é só uma dualidade entre floresta e campo, entre preservação ou devastação. O que vivemos hoje no Acre é uma tentativa de apagamento da nossa identidade cultural, de nossa relação com a floresta, de nossas raízes seringueiras e indígenas. De sermos um povo da floresta. O Acre nasceu não de uma relação com a agropecuária, mas de nossos antepassados com a Amazônia.
Mas nem tudo é pavoroso. A turma do Maha Graffiti resistiu e fez belíssimos desenhos de nossas raízes caboclas e indígenas. Toda a riqueza de nosso território e nossas populações – que tanto chama a atenção do mundo – foram grafitadas. Uma arte que representa a nossa verdadeira essência de sermos um povo da Amazônia.
Talvez os grafites expressos no elevado Beth Bocalom possam nos dizer que, sim, o Acre pode conviver perfeitamente harmônico entre a preservação da floresta e a produção do campo. Uma coisa não anula a outra. Os modelos agroflorestais exemplificam isso. E, talvez, a arte expressa naquele concreto seja o retrato de uma agrofloresta no asfalto.
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