“Sem território demarcado, não há clima”, afirma Ministério dos Povos Indígenas em marcha histórica na COP30
Povos indígenas levam a demarcação de terras ao centro das negociações climáticas em Belém

Por Luciene Kaxinawá, da Amazônia Vox
O início da segunda semana da COP30 foi marcado por um dos atos mais aguardados da conferência: uma marcha indígena, que tomou as ruas de Belém nesta segunda-feira (17) e recolocou a demarcação de terras no centro das discussões climáticas. A pauta voltou a ser defendida como política essencial tanto para a proteção dos biomas quanto para o enfrentamento direto da crise climática.
Segundo organizações como a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), mais de 3 mil indígenas estiveram na linha de frente da mobilização, que reuniu aliados e organizações da sociedade civil. O ato integrou o Dia dos Povos Indígenas na programação oficial da COP30 e reforçou o lema desta edição: “A resposta somos nós”.
Demarcação no centro das reivindicações
O Brasil conta atualmente com 401 Terras Indígenas (TIs) demarcadas e homologadas, segundo dados atualizados do governo federal. Apesar disso, o processo permanece lento: outras 1.296 TIs seguem em diferentes estágios de identificação, estudo, delimitação ou aguardam conclusão da demarcação.
A maioria desses territórios está localizada na Amazônia Legal, onde as TIs têm papel fundamental na preservação ambiental, na manutenção da biodiversidade e na proteção dos modos de vida tradicionais. Embora a Constituição Federal de 1988 determine que cabe ao Estado garantir esses territórios, a morosidade processual e os conflitos fundiários mantêm milhares de indígenas sob pressão e vulnerabilidade, evidenciando a urgência de políticas eficazes.

Um dos destaques do ato foi a luta pela homologação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, uma das últimas grandes áreas indígenas apenas identificadas no país e que abriga povos em isolamento voluntário.
Ângela Kaxuyana, integrante da coordenação executiva da COIAB, fez um apelo direto ao governo federal. “Estou aqui com a delegação da Terra Indígena Kaxuyana-Tunayana, que é a última maior terra indígena só identificada nesse país, que tem presença de povos indígenas isolados. E hoje, 17 de novembro, é o prazo final para o governo dar resposta sobre a homologação. Esperamos que essa energia dessa massa dê força para que o presidente Lula homologue esse território. Homologar esse território é reparar um direito violado.”
Para ela, a pauta é inseparável do debate ambiental. “A demarcação de terras indígenas é nossa prioridade número um no debate climático. Sem território, não há proteção dos biomas brasileiros.”
Marco histórico: a primeira marcha indígena dentro de uma COP
Para Dinamã Tuxá, coordenador executivo da APIB, o momento é histórico. “De todas as COPs que participaram dos debates climáticos, esta é a primeira vez que temos uma marcha indígena dentro da conferência. Isso é um marco.”
Apesar da conquista simbólica, ele alertou para a falta de participação real nos espaços de decisão. “Viemos em número expressivo, mas ainda não estamos participando das negociações. Estamos cobrando que a UNFCCC garanta assento, voz e poder real aos povos indígenas nos processos de tomada de decisão.”
Entre as demandas centrais apresentadas por Dinamã estão: demarcação e reconhecimento territorial; desmatamento zero; fim dos combustíveis fósseis e da mineração; proteção aos defensores dos territórios; e acesso direto ao financiamento climático. Segundo ele, 107 terras indígenas já estão aptas para homologação imediata.
Violência contra povos indígenas avança mesmo durante a COP
A marcha também denunciou a continuidade da violência contra povos indígenas, mesmo durante a COP30. No domingo (16), um jovem Guarani-Kaiowá foi assassinado no Mato Grosso do Sul, vítima de conflitos por territórios.
Sobre o caso, Dinamã declarou que “nem a COP, com os olhos do mundo voltados ao Brasil, inibiu a violência contra os povos indígenas. Seguimos perdendo vidas enquanto esperamos por políticas efetivas.”afirma a liderança.
Representando o Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Lenon Corezumaé, do povo Balatiponé Mutina, reforçou que a demarcação é a base de qualquer estratégia ambiental no Brasil. “Sem território demarcado, não há preservação. Onde o território não está protegido, o garimpo avança, o desmatamento avança. Sem demarcação, ainda corre sangue indígena”, disse.
Ele também destacou a desigualdade entre responsabilidade ambiental e acesso a recursos. “Somos 1,6% da população brasileira preservando 80% da biodiversidade. É fundamental que o financiamento climático chegue diretamente aos territórios.”
Participação internacional fortalece a pauta
Delegações de diversos países da Pan-Amazônia e movimentos aliados acompanharam a marcha em solidariedade, reforçando o papel dos povos indígenas como protagonistas das respostas à crise climática. “A resposta somos nós, porque somos nós que mantemos a floresta em pé. O Brasil indígena é Brasil de água limpa. Nosso trabalho precisa ser reconhecido e financiado”, Ângela Kaxuiana resumiu.
A indígena Txai Suruí também destacou a força da mobilização. “Esta é a maior delegação indígena que já vi em uma COP. Vieram parentes não só do Brasil, mas de toda a Amazônia e de várias partes do mundo para fortalecer essa luta pelo clima e pelo fim dos combustíveis fósseis”, declarou a ativista.

Ela também reforçou a potência política da mobilização. “Os povos indígenas mostram aqui a força do movimento social, a força do nosso povo, que não se cala diante da violência e não se amedronta em dizer o que precisa ser dito. Não há futuro sem os povos indígenas”, conclui.
Ministra destaca protagonismo indígena e defende demarcação como medida central na COP30
Durante a marcha, a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, reforçou que a demarcação de terras é a ação mais eficaz para enfrentar a crise climática e destacou o protagonismo indígena na COP30. “Estamos aqui para mandar uma mensagem ao mundo. Já conseguimos a maior e melhor participação indígena na história da COP”, afirmou.
Ela lembrou que a segunda semana da conferência concentra as negociações decisivas e ressaltou que os territórios tradicionais precisam estar no centro das decisões climáticas. “É fundamental que os líderes compreendam a importância de demarcar e proteger os territórios indígenas, porque a demarcação é a medida mais eficaz para enfrentar a crise climática.” A ministra destacou ainda que as terras indígenas preservadas garantem biodiversidade, água limpa e floresta em pé, elementos essenciais para o cumprimento das metas climáticas globais. “A presença indígena é presença de floresta em pé, de biodiversidade viva, de água limpa.”

Sobre o avanço das demarcações pelo atual governo, Guajajara afirmou: “Vamos conseguir avançar, sim. Estamos trabalhando para demarcar o maior número de terras possível. Ainda nesta COP, vamos dar uma resposta.”
Um recado direto à COP30
A marcha desta segunda-feira reforçou que não é possível discutir soluções climáticas sem ouvir os povos que historicamente protegem os biomas brasileiros. “A defesa do clima passa pela defesa dos territórios. E demarcar as terras indígenas é a medida mais eficaz para proteger a Amazônia e enfrentar o colapso climático”, disse Dinamã Tuxá.
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Esta reportagem foi produzida por Amazônia Vox, por meio da Cobertura Colaborativa Socioambiental da COP 30. Leia a reportagem original em “Sem território demarcado, não há clima”, afirma Ministério dos Povos Indígenas em marcha histórica na COP30



