“Greenwashing acadêmico”: UEA e Ifam chancelam projeto de exploração de potássio em Autazes, ignorando alertas históricos e a ausência de estudos científicos

O caso da Potássio do Brasil contra o povo Mura expõe a velha disputa entre Davi e Golias, em que o poder dos megaprojetos se sobrepõe aos direitos dos povos. O episódio revela os dilemas de um país que, ao sediar a 30ª COP e prometer convergência entre sustentabilidade e financiamento, ainda não consegue resolver seus próprios conflitos de interesse que moldam o futuro da Amazônia — em diferentes níveis de (des)governança: federal, estadual e municipal. No território, como dizem os moradores, “o buraco é mais embaixo”.
Steffanie Schmidt dos varadouros de Belém (PA)
Apesar dos alertas do povo Mura e das recomendações do Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e o Instituto Federal do Amazonas (Ifam) assinaram, em 30 de outubro de 2025, memorandos de intenções com a Potássio do Brasil — empresa responsável pelo polêmico projeto de exploração de potássio em terras indígenas de Autazes.
A iniciativa insere as duas instituições de ensino na frente de apoio ao Projeto Potássio Autazes, que já conta com entidades como a Secretaria de Estado de Energia e Mineração (Semig), o Centro de Educação Tecnológica do Amazonas (Cetam) e órgãos do Sistema S, como Sebrae, Senai e Senar.
As parcerias foram firmadas mesmo após as reitorias terem sido notificadas, em 16 de outubro, pela Organização Indígena da Resistência Mura de Autazes (Oirma), que apresentou documentação sobre as ilegalidades e riscos do empreendimento. O material incluiu pareceres e recomendações de autoridades públicas, como o MPF.
A Potássio do Brasil – subsidiária da canadense Brazil Potash Corp.-, apresenta o projeto como estratégico para o agronegócio nacional, ao prometer reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados – hoje em torno de 90%. No entanto, estudos apontam que a exploração pode gerar rejeitos de sal a céu aberto com até 25 metros de altura, volume cinco vezes superior ao liberado na tragédia de Brumadinho (MG). Há também riscos de salinização de solos e rios, ainda não dimensionados, e possibilidade de subsidência do terreno e sismos induzidos, a exemplo do ocorrido em Maceió (AL) devido à extração de sal-gema pela Braskem.
A reitoria da UEA justificou o acordo como uma ação voltada ao “desenvolvimento socioeconômico e sustentável do município, com foco em educação, pesquisa e qualificação profissional”. O reitor André Zogahib, candidato à reeleição, afirmou que a cooperação busca promover “revitalização e melhoria da qualidade de vida em integração com as comunidades locais”.

Entretanto, o Jornal Varadouro vem acompanhando o caso e aponta violações de direitos. Em reportagem de campo, destacou que a narrativa de um novo “Eldorado Amazônico”, usada para justificar o projeto, reflete mais a ausência de políticas públicas e de presença efetiva do Estado do que a falta de oportunidades econômicas.
Em nota de repúdio divulgada por um coletivo de organizações indígenas, o Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam) criticou a UEA por ignorar o Comitê Gestor de Políticas Indigenistas (Portaria nº 467/2024 – GR/UEA), criado para orientar a universidade em suas relações com povos originários. A publicação classificou o apoio institucional como “greenwashing acadêmico” e “capitulação do saber diante do capital predatório”, acusando as reitorias de atuarem como “lavanderia de reputação” para a Potássio do Brasil.
Em fevereiro, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) rescindiu o termo de cooperação com a mesma empresa, que previa o Programa Autazes Sustentável (PAS). A decisão foi considerada um marco na resistência do povo Mura à mineração em seu território e recebeu apoio de movimentos sociais em defesa dos direitos humanos e da autodeterminação dos povos indígenas.
A disputa jurídica e o lobby no STF
O projeto da Potássio do Brasil se arrasta há anos e está envolvido em uma batalha judicial complexa. Nos últimos meses, a empresa tem buscado reforçar sua imagem pública por meio de parcerias e convênios com instituições de ensino e pesquisa, incorporando-as a uma estratégia de relações institucionais e comunicação.
Apesar das controvérsias, o licenciamento ambiental vem sendo conduzido pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), que concedeu autorizações de forma considerada “irregular e fragmentada” — prática conhecida como fracionamento do licenciamento. O MPF sustenta que o processo deveria ser de competência do Ibama, por envolver impactos diretos sobre terras indígenas.
A Justiça Federal chegou a suspender o licenciamento, mas o Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1) reverteu a decisão, validando a atuação do órgão estadual. Em outubro de 2025, o tribunal confirmou a autorização para o prosseguimento do projeto.
Organizações indígenas e socioambientais acusam a Potássio do Brasil de promover um “simulacro de consulta, fraudulento e sem legitimidade”. Segundo essas entidades, há registros em áudio e vídeo entregues à Justiça Federal que apontam a cooptação de lideranças do Conselho Indígena Mura (CIM) por meio de subornos — com pagamentos entre R$ 5 mil e R$ 40 mil — para obtenção de apoio artificial ao empreendimento.
O risco de avanço do projeto é agravado pela influência política que a empresa tem exercido junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). O advogado da mineradora, Luís Inácio Lucena Adams, ex-Advogado-Geral da União, integra a mesa de conciliação do processo do Marco Temporal e tem defendido um projeto de lei que permitiria a mineração em Terras Indígenas sem o consentimento dos povos afetados — uma medida que favoreceria diretamente os interesses da Potássio do Brasil.
Demarcação: fator crítico no contexto da COP
O Projeto Potássio Autazes avança sobre uma região onde vivem cerca de 200 famílias da etnia Mura, nas comunidades Lago do Soares e Urucurituba, que aguardam a demarcação oficial de seu território pela Funai desde 2003. O empreendimento se sobrepõe à Terra Indígena Soares, e a área prevista para a mina subterrânea coincide, em projeção vertical, com a Terra Indígena Jauary.
A ausência de demarcação tornou-se o principal ponto de vulnerabilidade explorado pela empresa em suas manobras jurídicas. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), ao autorizar a continuidade do projeto, baseou-se justamente nesse argumento — de que a competência seria do órgão estadual, o Ipaam, porque a terra ainda não está oficialmente demarcada.
Esse impasse revela um contraste simbólico no momento em que o Brasil sedia a 30ª Conferência das Partes (COP), defendendo a proteção da floresta e a transição ecológica. A demora de mais de duas décadas na demarcação dos territórios Mura expõe a distância entre o discurso internacional de sustentabilidade e a realidade local, marcada por pressões, insegurança fundiária e ameaças permanentes aos povos indígenas da Amazônia.
‘Mineração verde’
O setor mineral brasileiro, articulado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), tenta moldar a narrativa da COP30, em Belém (PA), apresentando a mineração como pilar da transição energética global e da sustentabilidade. Em seu green paper sobre “Minerais Críticos e Estratégicos”, o Ibram argumenta que a descarbonização depende da extração de minerais como lítio e cobre, e que o Brasil, por possuir uma matriz energética considerada limpa, poderia liderar a diplomacia mineral. O documento também defende que minerais utilizados na produção de fertilizantes são estratégicos para a soberania e segurança alimentar, que a mineração “sustentável e rastreável” deve integrar as metas climáticas, e que a certificação e o branding verde podem atrair investimentos e consolidar o país como ator-chave nas cadeias industriais globais.
Enquanto o discurso ganha espaço nas instâncias internacionais, a realidade em campo mostra outro cenário. No Pará — sede da COP 30 — comunidades tradicionais denunciam a destruição ambiental e as violações de direitos provocadas pelo avanço da mineração e do agronegócio. Regiões como Barcarena, marcadas por sucessivos crimes ambientais, tornaram-se símbolo da resistência local. Lideranças alertam que o modelo extrativista vigente é incompatível com os princípios da justiça climática.
No Amazonas, o setor conta com o apoio político do deputado estadual Sinésio Campos (PT), que tem articulado parcerias institucionais com a Potássio do Brasil, mesmo diante das denúncias de cooptação e suborno envolvendo o Conselho Indígena Mura. O governador Wilson Lima também tem incluído a mineração entre as prioridades de seu governo, acelerando a concessão de licenças para empreendimentos de exploração de potássio, gás e óleo — como o projeto do Campo de Azulão, em Silves, a 203 quilômetros de Manaus.
O Varadouro procurou as assessorias da UEA, do Ifam e da Potássio do Brasil, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.



