Amizade, Integração e Crime: Mapa da Migração na Fronteira MAP

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Dos 6.918 quilômetros de fronteira da Bolívia, 3.423 quilômetros correspondem à divisa com o Brasil. Essa fronteira atravessa três departamentos da Bolívia: Santa Cruz, Beni e Pando, começando no Pantanal e terminando na Floresta Amazônica. Curiosamente, a fronteira entre a Bolívia e o Brasil é a segunda maior fronteira terrestre da América do Sul e uma das dez maiores do mundo.

Em nossa região MAP, as fronteiras entre o estado do Acre e o departamento de Pando são demarcadas principalmente pelos rios Abuná, Rapirran, Chipamanu e Acre. Essa fronteira porosa define três características importantes: é, de fato, uma fronteira de amizade, de integração e também, infelizmente, uma fronteira de crime.


Fronteiras Amigáveis e Resolução de Conflitos Migratórios

Em 1951, uma Conferência Internacional sobre Migração foi convocada em Bruxelas, criando um Comitê Intergovernamental Provisório sobre o Movimento de Migrantes da Europa (CIPMME). O CIPMME rapidamente se tornou o Comitê Intergovernamental para as Migrações Europeias (CIME).

Em 1980, o Conselho do CIME mudou o nome da instituição para Comitê Intergovernamental para as Migrações (CIM), em reconhecimento ao seu crescente papel global. Finalmente, em 1989, o CIM tornou-se a Organização Internacional para as Migrações (OIM), passando a fazer parte do sistema das Nações Unidas.

Por sua vez, e em relação à migração internacional não planejada, o Artigo 262 da Constituição Política do Estado Plurinacional da Bolívia estabelece:

A zona de segurança fronteiriça estende-se por cinquenta quilômetros a partir da linha de fronteira.

Nenhuma pessoa estrangeira, individualmente ou em sociedade, poderá adquirir propriedade nesta área, direta ou indiretamente, nem deter qualquer título sobre água, solo ou subsolo.

A propriedade ou posse afetada pelo descumprimento desta proibição será do Estado, sem indenização.

A zona de segurança fronteiriça estará sujeita a um regime jurídico, econômico, administrativo e de segurança especial, destinado a promover e priorizar seu desenvolvimento e garantir a integridade do Estado.


A zona de segurança fronteiriça entre a Bolívia e o Brasil é uma fronteira internacional contínua que delimita os territórios de ambos os países vizinhos. Cabe ressaltar que, ao delimitar cinquenta quilômetros de área proibida para estrangeiros, isso implica a possibilidade de que eles se estabeleçam regularmente além desse limite.

Em 2009, como exemplo de resolução de disputas sobre essa questão, o site da OIM publicou:


A OIM prestará cooperação técnica aos governos do Brasil e da Bolívia para reassentar mais de 200 famílias brasileiras que ocupam terras na área fronteiriça do Departamento de Pando, que faz fronteira com o Estado do Acre, e que são obrigadas a deixar a região. O acordo foi assinado em outubro de 2008 em Brasília, capital do Brasil. O Embaixador da Bolívia no Brasil e o Vice-Ministro de Terras da Bolívia estiveram presentes representando a Bolívia. O Ministro de Estado Interino das Relações Exteriores assinou o acordo representando o Brasil, e o Representante Regional para o Cone Sul assinou em nome da OIM.

O objetivo geral deste programa será a criação de unidades produtivas e mecanismos apropriados para que famílias brasileiras possam ser reassentadas voluntária e dignamente em áreas permitidas na Bolívia e se dedicar à extração de madeira e à agricultura de pequena escala, típicas da região.

Aqui, decisões políticas dos dois Estados convergentes (Brasil e Bolívia) são analisadas para determinar uma mediação técnica baseada em um consenso prévio: é possível reassentar-se em Pando ou repatriar brasileiros ilegalmente instalados na zona de segurança da fronteira de forma pacífica e harmoniosa.

A participação do governo brasileiro foi imediata, segundo o mesmo site:

“O governo brasileiro transferiu um orçamento de mais de US$ 10 milhões à OIM para implementar este plano.”

Sobre as famílias que concordaram com a repatriação, o artigo “Eliz Tessinari: Conflito Brasil x Bolívia” afirma o seguinte:

Cada família receberia 10 hectares de terra, uma casa de alvenaria com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. Além disso, o Incra garantiria o direito às estradas, assistência técnica por dois anos e um empréstimo de R$ 3.200 para a compra de ferramentas e alimentos.

Enquanto isso, no lado boliviano da fronteira, em Pando, 40 famílias brasileiras estão consolidando assentamentos legais a mais de 50 quilômetros da zona de segurança da fronteira em duas comunidades rurais.

Com isso, uma controvérsia que poderia ter levado a confrontos fratricidas foi resolvida em um contexto de solidariedade e migração planejada. Um exemplo disso é mostrado por Chávez, Aguilar e Tirina em seu livro “Pensando a Amazônia a partir de Pando” (Pensando la Amazonía desde Pando)

(atividades amigáveis na fronteira) que estão ligadas à existência de tecidos sociais muito fortes, laços familiares, trânsito bidirecional, bilinguismo e trocas tradicionais entre Madre de Dios, Acre e Pando, que geralmente passam despercebidos pelos Estados, mas dão sentido às relações cotidianas.

E essa indiferença estatal em relação à fronteira MAP pode ser explicada pelo fato de que, devido à distância das capitais nacionais, Acre no Brasil, Madre de Dios no Peru e Pando na Bolívia não recebem atenção suficiente em relação às suas demandas por desenvolvimento sustentável, educação e saúde.



Fronteira amigável para o trânsito diário

Estudantes universitários brasileiros estudam em Pando. Na Universidade Técnica Privada Cosmos (UNITEPC), 80% de seus alunos são de nacionalidade brasileira, enquanto estima-se que 30% dos alunos da Universidade Amazônica de Pando (UAP) também sejam de origem brasileira.

Situação semelhante ocorre na filial de Pando da Universidade Privada Domingo Sávio (UPDS). E não apenas em Pando, como nas demais cidades da Bolívia, estima-se que, dependendo do ano, entre 10.000 e 20.000 jovens brasileiros ingressem em estudos, principalmente em medicina e enfermagem.

Essa migração transfronteiriça – que pode ser considerada cíclica ou temporária – proporciona tanto benefícios econômicos na Bolívia quanto desenvolvimento profissional no Brasil, já que profissionais formados na Bolívia retornam ao seu país com diploma universitário. E em nossa fronteira, o MAP aprimora os serviços de saúde que Estados nacionais distantes negligenciam visivelmente.

A busca por instituições estrangeiras, segundo Giselle Cristina Martins Real no artigo “Brasileiros na Bolívia: Identificando as Razões para a Educação Transfronteiriça”,

Está relacionada à demanda por vagas em instituições, no caso de brasileiros, uma vez que, como a oferta de ensino superior no Brasil está aquém da demanda existente, gera iniciativas dos próprios estudantes buscando soluções para acessar o ensino superior, muitas vezes em outros países. Essa mobilização estudantil também pode ser atribuída às maiores possibilidades de acesso às instituições, dada a ausência de processos seletivos (vestibular) e à valorização do real em relação ao boliviano, favorecendo a redução de custos para brasileiros na educação privada naquele país. Além disso, a proximidade geográfica com o Brasil, a facilidade de acesso a instituições de ensino superior estrangeiras e a similaridade de idiomas são fatores que podem explicar esse movimento.

Ainda de acordo com a mesma fonte,

observa-se que Medicina é o curso mais procurado por estudantes brasileiros em universidades de países vizinhos. E, apesar do aumento do número de vagas para esse curso no Brasil nos últimos anos, a oferta não tem sido suficiente para atender à demanda.

Num certo sentido de reciprocidade, os cobijeños cruzam a fronteira diariamente para se abastecer de alimentos, principalmente em supermercados e lojas da Epitaciolândia, assim como muitos irmãos e irmãs brasileiros fazem quando cruzam para Cobija para comprar eletrônicos e outros produtos da zona franca.

Essa fronteira representa um vínculo duplo e fraterno que nutre relações familiares amigáveis estabelecidas, em muitos casos, antes da fundação do estado do Acre e do departamento de Pando.



Fronteira de Integração

O maior esforço para gerar caminhos de integração na região MAP é, sem dúvida, a autodenominada Iniciativa MAP, que surgiu na década de 2000 como resposta aos desafios compartilhados dessa região amazônica: desmatamento, mudanças climáticas e pobreza.

A Iniciativa MAP é um esforço trinacional de integração e desenvolvimento sustentável na região amazônica, compartilhada por Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia). Seu nome deriva das iniciais desses três territórios fronteiriços. Ela busca integrar atores locais e regionais dos três países em um espaço compartilhado para diálogo de conhecimento e grupos de encontro.

A Ponte da Integração que liga o Brasil à Bolívia, na tríplice fronteira amazônica MAP (Foto: Acervo Varadouro)



É um processo impulsionado pela sociedade civil para promover a cooperação transfronteiriça entre comunidades, instituições e governos locais. Busca integrar esforços em conservação ambiental, desenvolvimento econômico, equidade social e políticas públicas. É fato que foi graças à Iniciativa MAP que essa tríplice fronteira amazônica foi renomeada como tal, em reconhecimento ao seu status como uma região com preocupações compartilhadas entre os atores locais, como pesquisadores como Stephen Perz e outros apontaram.

Seus principais objetivos incluem:

Promover o desenvolvimento sustentável, respeitando a biodiversidade e os direitos das comunidades locais.

Fortalecer a resiliência climática por meio de sistemas de alerta prévios para inundações, secas e poluição do ar.

Promover a cooperação regional em questões como educação, saúde, infraestrutura e gestão de recursos naturais.


Suas ações notáveis incluem:

Implementação do Sistema Trinacional de Alerta Antecipado (SAP) para aprimorar a resposta a desastres naturais.

Organização de reuniões do MAP (MAP I, II, III, etc.) que reúnem centenas de atores sociais, acadêmicos e governamentais para definir agendas comuns.

Criação de “mini MAPs”, grupos temáticos que trabalham em projetos específicos entre pelo menos dois dos três países. Vale destacar o Mini MAP Gestão de Riscos.


Este tipo de iniciativa demonstra como a colaboração entre comunidades fronteiriças pode gerar soluções inovadoras e sustentáveis.

Fronteira do Crime

O contexto em que ocorre o tráfico de hidrato e cloridrato de cocaína está presente na prática ancestral do consumo da folha de coca, não apenas como medicamento, mas também como identidade cultural.

Na Bolívia, onde 48% dos bolivianos se identificam como indígenas, a mastigação da folha de coca é legal e amplamente praticada, especialmente em áreas rurais e urbanas como Santa Cruz, onde o consumo cresceu até mesmo entre comunidades de classe média e alta.

No Peru, estima-se que seis milhões de pessoas consumam folha de coca para fins medicinais e rituais, e na Colômbia, em comunidades indígenas como os Kogui, a mastigação tem valor espiritual e medicinal. Esses são os países onde a matéria-prima para a fabricação da cocaína é produzida.

A área de fronteira entre Bolívia, Peru e Brasil é amplamente utilizada por redes criminosas para o tráfico de cocaína para o mercado brasileiro e, posteriormente, para a Europa e a África.

Segundo reportagem do jornal “Sol de Pando”, a droga peruana passa por Cobija e é entregue em Brasiléia e Epitaciolândia a operadores das facções PCC (Bode 13) e Comando Vermelho. A droga peruana é composta, em sua maioria, por pasta base de cocaína (sulfato), em comparação com uma porcentagem menor de cocaína cristalizada (cloridrato). Além disso, segundo a mesma fonte, o tráfico provém dos municípios de Santa Rosa del Abunã, Bella Flor e Bolpebra, em Pando.

As organizações criminosas utilizam diferentes meios de transporte terrestre, utilizando veículos públicos de passageiros e de carga ou veículos particulares, adaptando carros ou vans para esconder a droga.

Também utilizam carregadores — mochileiros e “cargachos” — com a segurança de pistoleiros para impedir assaltos e confrontar a polícia. Uma investigação da Mongabay Latam e da Earth Genome revelou a existência de 67 pistas de pouso clandestinas na floresta peruana, utilizadas por redes de narcotráfico em novembro de 2024 e operadas e vigiadas por essas organizações criminosas.

Recentemente, o sociólogo Marcos Ferreira, no VI Simpósio “Defesa Nacional: Fronteiras e Migrações”, organizado pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército Brasileiro e pelo Programa de Mestrado em Geografia da Universidade Federal do Acre, realizado nos dias 24 e 25 de junho de 2025, exibiu fotos – em Cobija – de pichações feitas por grupos do crime organizado que controlam o tráfico de cocaína na região do Acre.

Abaixo, uma dessas fotos, que serve como um lembrete preocupante das consequências da emigração criminosa do Brasil.

Pichações das facções brasileiras PCC e CV na cidade boliviana de Cobija



Essa migração do crime organizado do Brasil muda radicalmente a percepção de que apenas refugiados dos confins das Américas vêm para este país em busca de melhores condições de vida, embora também haja emigração de brasileiros pelos mesmos motivos.

A migração é bilateral e, infelizmente, além da agradável migração temporária de jovens estudantes brasileiros, o Brasil é a fonte da pior migração criminosa que nossos países já viram na região do MAP.



Guillermo Rioja-Ballivián é antropólogo social, é professor na Universidade Amazônica de Pando e membro da iniciativa MAP, que reúne pesquisadores e acadêmicos da tríplice fronteira MAP: Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia).



En Español

Amigables, De Integración Y Crimen: Migraciones En La Frontera MAP



De los 6.918 kilómetros de fronteras que tiene Bolivia, 3.423 kilómetros corresponden a la separación limítrofe entre Bolivia y Brasil. Esta línea fronteriza recorre en Bolivia tres departamentos: Santa Cruz, Beni y Pando, comenzando en Pantanal y terminando en la selva Amazónica. Es interesante percibir que la frontera entre Bolivia y Brasil es la segunda frontera terrestre más extensa de América del Sur y una de las diez más largas del mundo.

En nuestra región MAP, los límites entre el estado de Acre y el departamento de Pando son demarcados principalmente por los ríos Abuná, Rapirran, Chipamanu y Acre. Frontera porosa que marca tres importantes características; es de hecho una frontera amigable, de integración y también -por desgracia- una frontera de crimen.


Frontera amigable y resolución de conflictos migratorios

En el año de 1951, en Bruselas, se convoca a una Conferencia Internacional sobre Migraciones que crea un Comité Intergubernamental Provisional para los Movimientos de Migrantes desde Europa (CIPMME). Rápidamente, el CIPMME pasa a ser el Comité Intergubernamental para las Migraciones Europeas (CIME). En 1980 el Consejo del CIME cambia el nombre de la Institución a Comité Intergubernamental para las Migraciones (CIM), en reconocimiento de su creciente papel mundial. Finalmente, en 1989, el CIM pasa a ser Organización Internacional para las Migraciones (OIM), formando parte del sistema de las Naciones Unidas.

A su vez, y sobre el tema de la migración internacional no planificada, la Constitución Política del Estado Plurinacional de Bolivia, Artículo 262, establece:

Constituye zona de seguridad fronteriza los cincuenta kilómetros a partir de la línea de frontera.


Ninguna persona extranjera, individualmente o en sociedad, podrá adquirir propiedad en este espacio, directa o indirectamente, ni poseer por ningún título sobre aguas, suelo ni subsuelo,

La propiedad o la posesión afectadas en caso de incumplimiento de esta prohibición pasarán a beneficio del Estado, sin ninguna indemnización.

La zona de seguridad fronteriza estará sujeta a un régimen jurídico, económico, administrativo y de seguridad especial, orientado a promover y priorizar su desarrollo y a garantizar la integridad del Estado.


La zona de seguridad fronteriza entre Bolivia y Brasil es un lindero internacional continuo que delimita los territorios de ambos países colindantes. Y aquí debemos resaltar que, al delimitar cincuenta kilómetros vedados para extranjeros, se connota la posibilidad de que éstos pueden asentarse regularmente más allá de ese límite.

Para el año 2009, como ejemplo de resolución de controversias sobre esa temática, la página web de la OIM publicó:

La OIM brindará cooperación técnica a los Gobiernos de Brasil y Bolivia para reasentar a más de 200 familias brasileñas que ocupan tierras en la franja de frontera del Departamento Pando que limita con el Estado de Acre y que deben retirarse de esa región. El acuerdo se firmó en octubre de 2008 en Brasilia, capital de Brasil. Por Bolivia estuvo presente el Embajador de Bolivia en Brasil y el viceministro de Tierras de Bolivia. En nombre de Brasil firmó el ministro de Estado, interino, de Relaciones Exteriores y por la OIM el Representante Regional para el Cono Sur.

El objetivo general de este programa será la creación de unidades productivas y mecanismos adecuados para que las familias brasileñas puedan ser reubicadas voluntaria y dignamente en áreas permitidas en Bolivia y puedan dedicarse a actividades de extracción forestal y pequeña agricultura, características de la región.

Aquí se muestrean decisiones políticas de los dos estados confluentes (Brasil y Bolivia) para determinar una mediación técnica a partir de un a priori consensuado: es posible realizar reasentamientos al interior de Pando o proceder a la repatriación de los brasileros asentados irregularmente en la zona de seguridad de frontera de manera pacífica y armónica.

La participación de gobierno de Brasil no se hizo esperar, de acuerdo a la misma página de internet:

“El Gobierno brasileño transfirió un presupuesto de más de 10 millones de dólares a la OIM para implementar este plan “.

En cuanto a las familias que aceptaron la repatriación, el artículo “Eliz Tessinari: Conflito Brasil x Bolívia” indica lo siguiente:

Cada familia recibiría 10 hectáreas de tierra, una casa de ladrillo con dos habitaciones, sala, cocina y baño. Además, el Incra aseguraría el derecho a caminos, asistencia técnica durante dos años y un recurso de R$ 3.200 en crédito para la compra de herramientas y alimentación.

Paralelamente, en el lado fronterizo de Bolivia, en Pando, 40 familias brasileñas consolidan asentamientos legales a más de 50 kilómetros de la zona de seguridad fronteriza en dos comunidades campesinas.

Con eso, una controversia que podría haber provocado enfrentamientos fratricidas se resolvieron en un contexto de solidaridad y migración planificada. Ejemplo que nos muestra al decir de Chávez, Aguilar y Tirina, en el libro “Pensando la Amazonía desde Pando”

(las actividades de fronteras amigables) tienen que ver con la existencia de tejidos sociales, lazos familiares, tránsitos de ida y vuelta, bilingüismos e intercambios tradicionales entre Madre de Dios, Acre y Pando muy sólidos, que por lo general pasan desapercibidos para los estados pero que dan sentido a las relaciones cotidianas.

Y esta indiferencia estatal respecto a la frontera MAP puede explicarse ya que, por estar lejos de las capitales nacionales, Acre en Brasil, Madre de Dios en Perú y Pando en Bolivia no reciben la suficiente atención en cuanto a sus demandas de desarrollo sostenible, educación y salud.



Frontera amigable de tránsito cotidiano

Universitarios brasileños estudian en Pando. En la Universidad Técnica Privada Cosmos (UNITEPC) el 80% de sus estudiantes son de esas nacionalidades, en tanto que se estima que el 30% de los alumnos de la Universidad Amazónica de Pando (UAP) son también de ese origen. Algo semejante ocurre en la filial de Pando de la Universidad Privada Domingo Savio (UPDS). Y no solo en Pando, ya que en el resto de las ciudades de Bolivia se calcula que, según el año, entre 10.000 y 20.000 jóvenes brasileños realizan estudios principalmente de medicina y enfermería.

Esta migración transfronteriza -que puede considerarse cíclica o temporaria- brinda beneficios tanto económicos en Bolivia como de profesionalización en Brasil ya que los profesionales formados en Bolivia retornan a su país con un título universitario bajo el brazo. Y en nuestra frontera MAP mejoran los servicios de salud que los estados nacionales, lejanos, descuidan señaladamente.

La búsqueda de instituciones extranjeras, según Giselle Cristina Martins Real en el artículo “Brasileños en Bolivia: identificando motivos de la educación transfronteriza”,

está relacionada a la demanda de plazas en las instituciones, en el caso de los brasileños, ya que a medida que la oferta de educación superior en Brasil no satisface la demanda existente, genera iniciativas por parte de los propios estudiantes en la búsqueda de solucionar el acceso a la educación superior y, a menudo, en otros países. Esta movilización de los estudiantes también puede atribuirse a las mayores posibilidades de acceso a las instituciones, dado que no hay proceso selectivo (exámenes de ingreso) y la valorización del real, que es la moneda brasileña, en relación con el boliviano, moneda de Bolivia, favoreciendo la reducción de costos de la educación privada en este país para los brasileños. Además, la cercanía geográfica con Brasil, la facilidad de acceso a las instituciones extranjeras de educación superior y la similitud de los idiomas, son factores que pueden explicar este movimiento.

También, según la misma fuente,

se observa que la carrera de Medicina es la que presenta mayor demanda por parte de los estudiantes brasileños en universidades de países fronterizos. Y, a pesar del aumento en el número de plazas para la carrera en Brasil en los últimos años, la oferta no ha sido suficiente para atender la demanda.

En cierto nivel de reciprocidad, cotidianamente, los cobijeños cruzan la frontera para abastecerse principalmente de víveres en los supermercados y tiendas de Epitaciolandia, tal como lo hacen muchos hermanos brasileños cuando cruzan a Cobija para comprar productos electrónicos y otros de zona franca.

Frontera de doble vínculo y fraterna que alimenta relaciones familiares amigables establecidas, en muchos casos, desde antes de la fundación del estado de Acre y el departamento de Pando.



Frontera de integración

El mayor esfuerzo por generar caminos de integración en la región MAP lo constituye, sin duda, la autodefinida Iniciativa MAP que se originó en los años 2000, como una respuesta a los desafíos compartidos en esta región amazónica, la deforestación, el cambio climático y la pobreza.

La Iniciativa MAP es un esfuerzo trinacional de integración y desarrollo sostenible en la región amazónica compartida por Madre de Dios (Perú), Acre (Brasil) y Pando (Bolivia). Su nombre proviene de las iniciales de estos tres territorios fronterizos. Se busca la integración de los actores locales y regionales de los tres países en un espacio compartido de diálogo de saberes y grupos de encuentro.

Es un proceso impulsado por la sociedad civil para fomentar la cooperación transfronteriza entre comunidades, instituciones y gobiernos locales. Busca integrar esfuerzos en conservación ambiental, desarrollo económico, equidad social y políticas públicas.

Es un hecho que fue gracias a la Iniciativa MAP que la frontera MAP pasó a denominarse así, en reconocimiento de que constituía una región con preocupaciones compartidas entre los actores locales, como lo apuntan investigadores como Stephen Perz y otros.

Entre sus objetivos principales podemos nombrar los siguientes:

Promover el desarrollo sostenible respetando la biodiversidad y los derechos de las comunidades locales.


Fortalecer la resiliencia climática mediante sistemas de alerta temprana frente a inundaciones, sequías y contaminación atmosférica.

Fomentar la cooperación regional en temas como educación, salud, infraestructura y gestión de recursos naturales.

Sus acciones destacadas son:

Implementación del Sistema de Alerta Temprana Trinacional (SAT) para mejorar la respuesta ante desastres naturales.

Organización de encuentros MAP (MAP I, II, III…) que reúnen a cientos de actores sociales, académicos y gubernamentales para definir agendas comunes.


Creación de “mini MAPs”, grupos temáticos que trabajan en proyectos específicos entre al menos dos de los tres países, vale resaltar aquí al Mini MAP Gestión de Riesgos

Este tipo de iniciativa demuestra cómo la colaboración entre comunidades fronterizas puede generar soluciones innovadoras y sostenibles.

Frontera de crimen

El contexto desde el que se produce el tráfico de hidrato y clorhidrato de cocaína lo encontramos en prácticas de consumo de la hoja de coca como práctica ancestral, no solo como medicina, sino también como identidad cultural.

En Bolivia, donde el 48%, de los bolivianos se identifican como indígenas, el acullico (masticado) es legal y ampliamente practicado, especialmente en zonas rurales y urbanas como Santa Cruz, donde el consumo ha crecido incluso en sectores medios y altos.

En Perú, se estima que 6 millones de personas consumen hoja de coca con fines medicinales y rituales y en Colombia, en comunidades indígenas como los Kogui, el mambeo (masticado) tiene valor espiritual y medicinal. Estos son los países donde se produce, entonces, la materia prima para la fabricación de cocaína.

La zona fronteriza entre Bolivia, Perú y Brasil es muy utilizada por redes criminales para el tráfico de cocaína hacia el mercado brasileño y posteriormente a Europa y África.

Según una publicación del Sol de Pando, droga peruana pasa por Cobija y es entregada en Brasiléia y Epitaciolandia a operadores de las facciones del PCC (Bode 13) y del Comando Vermelho. La droga peruana es mayormente pasta base de cocaína (sulfato) frente a un menor porcentaje de cocaína cristalizada (clorhidrato). También, según la misma fuente, se trafica desde los municipios de Santa Rosa del Abuná, Bella Flor y Bolpebra en Pando.

Las organizaciones criminales utilizan diferentes medios de transporte terrestre, mediante vehículos públicos de pasajeros y carga o particulares, acondicionando autos o camionetas para ocultar la droga. También utilizan cargadores -mochileros y ‘cargachos’- con la seguridad de sicarios, a fin de evitar asaltos y enfrentar a las fuerzas del orden.

Una investigación de Mongabay Latam y Earth Genome ha revelado la existencia de 67 pistas de aterrizaje clandestinas en la selva peruana, empleadas por redes de narcotráfico en noviembre de 2024 y operadas y custodiadas por esas asociaciones criminales.

Recientemente el sociólogo Marcos Ferreira en el VI Simposio “Defensa Nacional: Fronteras y Migraciones”, organizado por la Escuela de Comando y Estado Mayor del Ejército Brasileño y el Programa de Maestría en Geografía de la Universidad Federal de Acre, que tuvo lugar durante los días 24 y 25 de junio de 2025, mostró fotos -en Cobija-de pintadas de grupos del crimen organizado que controlan el tráfico de cocaína en la región MAP.

A continuación, se muestra una de estas fotos que sirve como un serio recordatorio de lo que puede traer la emigración delincuencial desde Brasil.


Esta migración del crimen organizado desde Brasil cambia radicalmente la percepción de que son solo refugiados de los confines de nuestra América los que llegan a este país buscando mejores condiciones de vida, aun cuando existe también una emigración de brasileños por las mismas razones.

La migración es de doble sentido y desgraciadamente, además de la simpática migración temporal de jóvenes estudiantes brasileños, Brasil es el origen de la peor migración del crimen que han visto nuestros países en la región MAP.




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