
Atravessamos o Carnaval, um novo ano se inicia e mais um 8 de março se aproxima, mas, neste 2026, ele tem um sentido diferente. É o primeiro Dia Internacional das Mulheres após os feminicídios de 2025. Após os Levantes Mulheres Vivas que tomaram o país em dezembro do ano passado. Um 8 de março sem Graziely Lima de Oliveira, Catarina Kasten, Tainara Souza Santos, Allane Pedrotti de Souza, Layse Costa Pinheiro e sem as demais 1.513 vítimas de feminicídio do ano passado – pelo menos. Todas nós mulheres morremos um pouco com elas e cada uma de nós, à sua maneira, dá seus pulos nesse baile pra continuar se sentindo viva.
Aqui deste grande seringal Acre, também batemos nossos recordes de mortes de mulheres em razão do gênero ano passado. E antes de 2025, a taxa de feminicídio tem se mantido mais alta que a taxa nacional nos últimos anos. Mas, hoje, quero falar de outros números que ainda não tinham chamado minha atenção.
Olhando para o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 – que apresenta os dados de 2023 e 2024 – sabe qual taxa o Acre também tem maior que a do país? Acertou quem disse tentativa de feminicídio. Também acertou quem disse lesão corporal dolosa, violência psicológica e estupro. Mas não é sobre essas taxas que eu quero falar aqui.
Hoje, eu quero falar em como o Acre apresenta uma taxa de distribuição de Medidas Protetivas de Urgência maior do que a taxa do país. Essas taxas são calculadas na base de 100 mil mulheres e servem para estabelecer comparações entre os estados brasileiros e a média nacional. Em 2024, enquanto a taxa de Medidas Protetivas distribuídas no país foi de 647,6, a do Acre foi de 1.011,7 – quase o dobro da nacional.
O que significa que, proporcionalmente, o Acre tem distribuído mais Medidas Protetivas de Urgências que a média brasileira, ficando em 6º lugar em 2024. De modo que, se o Acre é um estado com uma das maiores taxas de feminicídio no país, ele também é um dos estados que mais mobilizam o principal mecanismo de defesa da vida das mulheres.
Introduzidas no ordenamento jurídico ainda em 2006, com a Lei Maria da Penha, as Medidas Protetivas de Urgência são a ferramenta mais efetiva para romper ciclos de violência, garantir a integridade física, psicológica e patrimonial das mulheres e salvar vidas, delas e de seus filhos.
O Observatório de Violência de Gênero do Ministério Público do Acre aponta que, das 91 vítimas fatais de feminicídio no estado, entre 2018 e 2025, apenas 12 estavam amparadas por Medidas Protetivas de Urgência. É claro que o número ideal seria zero, como zero é o número ideal de feminicídio, mas, estatisticamente falando, é um número que milita a favor dessa ferramenta legal duramente conquistada pelos movimentos feministas e de mulheres.

Pensar o Acre como um dos estados que mais concedem Medidas Protetivas de Urgência no país é não apenas pensá-lo como um dos estados que mais matam mulheres. Embora ele seja isso, são números que nos empurram a pensar que o Acre também é um dos estados em que as mulheres mais lutam contra violência doméstica e familiar no Brasil. E penso que devemos olhar pra isso com todo o respeito e dignidade que essas mulheres merecem.
A centralidade das campanhas de enfrentamento à violência contra mulheres se dá nos marcos dos imperativos “denuncie”, “não se cale”. Pois bem, muitas mulheres denunciam, muitas mulheres não se calam.
Bravo! A acreana do pé rachado tem uma lição para o Brasil. Aliás, tem muitas. É de nós mulheres aprendermos umas com as outras para nos mantermos vivas, felizes e sadias nesta “América Ladina”.
Mas também quero chamar atenção para outros números. Embora a maioria das taxas que o Acre apresenta nos Anuários de Segurança Pública sejam maiores que a média nacional, há duas que são muito mais baixas (mas muito mesmo). Uma delas é a de ligações registradas ao 190 (Polícia Militar) no contexto de violência doméstica e familiar. Em 2024, enquanto a taxa nacional foi de 565,8, a do Acre foi apenas de 22,3. A outra taxa – que não se encontra no Anuário – corresponde ao número de ligações ao Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher), embora o Ministério das Mulheres tenha divulgado que as ligações oriundas do Acre tenham aumentado mais de 35% no ano passado.
Ainda assim, é importante refletir que tipos de empecilhos as mulheres no Acre enfrentam para acessar duas das principais ferramentas de denúncia e informações quanto à violência, principalmente pensando nos desafios gigantescos impostos à mobilidade e transporte no estado.
Desde que discuti esses dados com algumas colegas de pesquisa, uma imagem forte se formou na minha mente: a de uma mulher acreana superando dificuldades de acesso a tecnologias de comunicação e transporte chegando a um CREAS, uma delegacia, um hospital, uma vizinha, um posto de saúde, ou qualquer lugar que tenha sido a sua porta de entrada à Rede de Enfrentamento à Violência contra Mulheres. Que força moveu essa mulher? Que energia a acompanha nessa luta pela sua vida e pela vida dos seus?
Essa é a imagem que eu quero cultivar no 8 de março deste 2026. É essa força que eu quero que me mobilize a seguir em luta pela vida de nós mulheres por todo este ano. Asé!
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Leonísia MourA
Professora do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, pesquisadora feminista e militante de direitos humanos.
leonisia.mouraf@gmail.com



