A sonoridade acreana pela otica do músico Deivid de Menezes

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O cantor Deivid de Menzes: a musicalidade acreana vinda dos seringais com a forte influência nordestina (Foto: Acervo Pessoal)




Em seus trabalhos, ele aborda temas cotidianos e sociais regionais, muito inspirado em figuras notórias como dona Francis Nunes, Txai Macedo e dona Zenaide Parteira com quem desenvolveu uma amizade.



Tácila Matos
dos varadouros de Rio Branco

“O seringal criou suas próprias possibilidades de festejar, cantar, dançar e lembrar o que existia de belo no passado e no futuro de cada um”, é assim que o historiador Marcos Vinícius Neves descreve o cenário musical no Acre nas primeiras décadas de migração nordestina provocada pela economia da borracha no século 19. Legado que transcende o tempo e vive hoje através de músicos como Deivid de Menezes, um expoente da musicalidade acreana.

Neves escreve em suas pesquisas que, para que os seringueiros pudessem tocar suas músicas, era necessário um tempo que lhes era muito negado. Somente nas noites de sábado na casa de um deles ou no barracão do seringalista é que se encontravam para um breve momento de lazer ao som de forró, principal gênero escutado.

Em época de escoamento da produção, navios traziam pessoas e novidades como os estilos valsa e polca. Com a maior urbanização de Rio Branco e Sena Madureira, a diversidade musical cresceu estimulada pelo estabelecimento de espaços de encontro como bares e clubes exclusivos da pequena elite.


Musicalidade Sem Fronteiras

É exatamente essa mistura de ritmos nordestinos, latino-americanos e indígenas que permeia a vivência dos acreanos e que faz parte do imaginário musical de Deivid de Menezes.

Ele é licenciado em música pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e reúne múltiplos projetos, como as apresentações Sons Do Aquiri; Sonora Brasil, realizado junto à musicista acreana Kelen Mendes; e Sons da Terra e da Gente, junto à banda Los Chico de Menezes, além de oficinas voltadas a formação musical.

Em seus trabalhos, ele aborda temas cotidianos e sociais regionais, muito inspirado em figuras notórias como dona Francis Nunes, Txai Macedo e dona Zenaide Parteira com quem desenvolveu uma amizade.

Ele destaca que, através das interações vividas desde sua formação inicial em uma família de músicos amadores, até as ocorridas na universidade e nos projetos, observou temas narrados com frequência, os quais depois se apropriou. “Acredito que a principal conexão entre eles [artistas tradicionais] é o espaço narrado. É cantado sobre a vida na colônia, no seringal. Esse ambiente que está no imaginário e que também vai para as músicas”, analisa ele.

Quando se trata de ritmo, é sempre notável a imensa influência da musicalidade nordestina. “A música aqui não foi criada do zero, a referência nordestina está aí até hoje. A dona Zenaide canta cordel, que é uma coisa linda de se ver, seu Pedro Sabiá tocava sanfona, o Txai Macedo toca violão.”

Como consequência de compartilhamentos caracterizados pela oralidade, é observado aspectos comuns entre pessoas territorialmente distantes, “A família do meu pai é de Boca do Acre e o Txai Macedo é de Cruzeiro do Sul, geograficamente eles estão distantes, mas eu sempre vi o meu pai tocando um ritmo no violão que, depois de adulto, trabalhando no CD do Txai Macedo, percebi que a batida dele era igualzinha a que meu pai tocava e que eu escutei a vida inteira”, ele conta.

Ainda que o ritmo não seja familiar aos ouvidos, ele é capaz de aproximar o artista de sua própria cultura. Menezes conta que uma experiência marcante e que inspira suas produções foi conhecer através de documentários a Marcha do Bombo Leguero, evento que reúne centenas de pessoas pelas ruas da cidade argentina de Santiago del Estero, que tocam o instrumento de percussão regional que dá nome ao festejo.

Para ele, esse episódio provocou a vontade de pesquisar e trabalhar com aspectos culturais do seu próprio contexto com tanto carinho quanto os argentinos tratavam seus elementos folclóricos, além de estudar sobre ritmos latinos e inseri-los em seus próprios trabalhos.

Em suas apresentações Deivid conta com o apoio da banda Los Chicos de Menezes com quem divide instrumentos e vozes. (Foto: Arquivo Pessoal)



“O Acre É Um Jovem Que Ainda Está Se Conhecendo”

A carreira de Menezes já soma cinco álbuns, dois LPs e três singles. Seu último projeto, lançado em março deste ano, “Acre Latino Americano”, mostra uma maior maturidade nas suas experimentações com ritmos latinos como cumbia, chacarera e temas acreanos. “Os sons que tocam no restante da América Latina também nos representam […] O que eu aprendi fora, eu toco aqui contando as nossas histórias, e tocando da minha forma”, diz.

O artista conta que suas últimas obras têm sido muito bem recebidas: “Teve [a música] ‘Geoglifo’que está lá no site do geógrafo Alceu Ranzi. Ele colocou minha letra na abertura de um artigo mandado para a Unesco. Então, está chegando em cantos que eu já nem sei mais”.

Ao observar o cenário local, Menezes examina que ainda há um grande potencial criativo a ser explorado pela população acreana. “Artisticamente, acredito que o Acre é um jovem, que ainda está se conhecendo. Nesse processo, valoriza muito mais o que é de fora do que a própria identidade”, conta.

No entanto, ele se mostra otimista em relação à cena musical acreana enraizada nas festas dos barracões: “Tem uma galera jovem criando, como Maya Dourado, fazendo canções incríveis, o Balseiro, entre outros. Aos poucos essa coisa vai se espalhar.”

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