
O exercício de um jornalismo crítico, independente e investigativo na Amazônia nunca foi uma tarefa para amadores. Mas o que testemunhamos neste início de 2026 indica um perigoso escalonamento da violência contra quem ousa informar.
A recente condenação do jornalista acreano Leonildo Rosas a oito meses de prisão em regime semiaberto, após publicar críticas a um deputado federal, não é um fato isolado e, para além disso, simboliza o ápice de um processo sistemático de assédio judicial que busca silenciar vozes independentes na região.
Rosas foi condenado pela Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Acre por exercer uma das funções mais elementares do jornalismo: resgatar a memória pública e promover a crítica política.
Tal decisão judicial criminaliza a manifestação de opinião e a crítica política, sendo recebida por entidades da área como um atentado à liberdade de expressão. Em uma democracia, o questionamento a agentes públicos faz parte do debate cotidiano e do exercício da cidadania.
Ao relembrar a atuação do deputado federal Roberto Duarte (Republicanos) como advogado da pirâmide financeira Telexfree e mencionar a atuação de seus familiares como advogados dos envolvidos no Esquadrão da Morte, num dos momentos mais críticos da política acreana, o jornalista cumpriu seu papel social. Ainda assim, foi punido criminalmente, mesmo após o Ministério Público manifestar-se pela absolvição, ao entender que não houve dolo de difamar, mas exercício legítimo da liberdade de expressão.
O caso não é exceção. Segundo o Relatório da Violência contra Jornalistas e Liberdade de Imprensa no Brasil – 2024, divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) em maio de 2025, o assédio judicial tornou-se a segunda forma mais frequente de violência contra profissionais da imprensa no país. Com 15,97% dos casos registrados em 2024, esse tipo de agressão só fica atrás da violência física, responsável por 20,8% das ocorrências.
O crescimento dos casos de assédio judicial em estados como o Acre é ainda mais preocupante. Levar jornalistas para o banco dos réus ou para a cadeia é algo temerário para regiões já conhecidas como “desertos de notícias”.
Moramos em um estado pobre, onde o ordenamento jurídico e democrático é seriamente comprometido pela força político-econômica do Poder Executivo – o dono das chaves do cofre. No Acre, temos uma democracia corrompida pelo orçamento do governo. Os governantes de plantão definem como e se funcionará o propagado Estado Democrático de Direito – e para quem ele será exercido.
E essa força hegemônica compromete o funcionamento de uma imprensa livre e independente. Todos os anos, o Governo do Acre destina mais de vinte milhões de reais para a chamada verba de mídia.
São recursos públicos – oriundos dos impostos do cidadão acreano – usados para solapar a independência editorial dos veículos de comunicação. Se o jornal, emissora de TV/rádio ou portal de notícias ousar falar – ou ao menos citar – um dos muitos casos de corrupção que envolvem o governo Gladson Cameli, por exemplo, deixa de receber as verbas publicitárias do Estado.
Sem a verba de mídia do governo, é impossível os veículos de comunicação do Acre sobreviverem financeiramente. Ou se faz o jogo de se negociar a independência editorial, ou se fecham as portas.
É assim que o poder público faz uso de sua força econômica para tirar do povo acreano um de seus direitos constitucionais: a liberdade de imprensa. Sem uma imprensa livre, os governantes ficam à vontade para os seus mandos e desmandos.
E, nos últimos anos, a situação ficou agravada com os casos de assédio judicial. Todo e qualquer cidadão tem o direito de apelar à Justiça caso se sinta ofendido. Todavia, chegar ao ponto de determinar a prisão de um jornalista pelo exercício de sua profissão ultrapassa todos os limites da razoabilidade.
Perseguir e colocar jornalistas atrás das grades é um ato típico de regimes autoritários, de ditaduras. Nós já vivemos essa triste experiência durante os anos de chumbo do regime militar (1964-1985). O caso mais emblemático foi a prisão e o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em São Paulo, nos porões sombrios da ditadura.
Infelizmente, parece que alguns setores do Acre querem nos levar de volta a essa escuridão. Não é de se estranhar, ante tantos retrocessos em que a sociedade acreana vem se permitindo mergulhar ao longo dos últimos anos.
Que o Pleno do Tribunal de Justiça do Acre, com a sua sensatez e sobriedade que lhe são peculiares, possa reverter ou até anular tal sentença contra o jornalista Leonildo Rosas. A condenação à prisão de um profissional da imprensa acreana é um precedente perigoso. Uma claríssima ofensa à nossa Carta Magna e suas cláusulas pétreas.
Defender a liberdade de imprensa não significa colocar jornalistas acima da lei; erros e abusos devem ser responsabilizados, mas isso nunca pode servir de pretexto para impedir o debate público ou criminalizar a crítica.
A condenação de Leonildo Rosas e os ataques cotidianos contra jornalistas na Amazônia não são apenas episódios isolados, mas ataques diretos à democracia, onde a polarização e o poder imperam em um território protegido por eles.
Nós, do Jornal Varadouro, seguimos fazendo a história – que há muito deixou de ser contada apenas pelos vencedores – e servindo de apoio aos companheiros de trincheira.
Somos um jornal que nasceu em pleno regime de exceção, para defender a Amazônia e suas populações. Nas décadas de 1970 e 1980 nossos jornalistas e colaboradores eram convocados com frequência a prestar esclarecimentos na Polícia Federal e no Exército sobre as reportagens publicadas. Mesmo diante de tantas pressões, nunca deixamos de exercer um jornalismo independente e corajoso numa Amazônia dominada pela jagunçada.
Uma imprensa livre é a principal ferramenta para que uma sociedade possa entender e participar da vida pública. Silenciar o jornalismo é atacar o direito coletivo à informação e abrir caminho para o autoritarismo.
Na Amazônia – onde informar sempre foi um ato de coragem – a resposta continuará sendo a mesma: mais jornalismo.



