
Foto: Divulgação/Ibama-AM
dos varadouros de Manaus
Uma operação coordenada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) intensificou, ao longo de abril, o combate à exploração ilegal de madeira no sul do Amazonas, uma das regiões mais pressionadas por crimes ambientais no país.
Batizada de Operação Maravalha, a ação contou com a participação de cerca de 80 agentes e envolveu órgãos como Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Polícia Federal, Polícia Rodoviária Federal, Polícia Militar do Amazonas e Força Nacional. As fiscalizações ocorreram nos municípios de Manicoré, Humaitá,Apuí, Novo Aripuanã e Tapauá, onde há forte presença de empreendimentos madeireiros.
Dados do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), referentes ao período de agosto de 2023 a julho de 2024, indicam que entre 43% e 62% da exploração madeireira no Amazonas ocorreu sem autorização. O levantamento também aponta aumento da atividade ilegal em relação ao ciclo anterior e avanço sobre áreas protegidas. Esse cenário se concentra em regiões marcadas pela expansão agropecuária e pela pressão sobre terras públicas e áreas protegidas.
Em fevereiro de 2025, Varadouro acompanhou a mesma operação Maravalha, realizada nos distritos da chamada Ponta do Abunã, em Porto Velho, um dos epicentros da zona Amacro, a área formada pelos territórios do Amazonas, do Acre e de Rondônia. Na ocasião, o Ibama realizou um pente-fino nas madeireiras locais para identificar possíveis ilegalidades na extração e corte de madeiras. A suspeita é que as empresas cortam árvores de áreas públicas, como a Floresta Nacional do Iquiri e a Terra Indígena do Kaxarari, usando créditos de plano de manejo para “esquentar” a madeira.
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Já os dados mais recentes de desmatamento, do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), apontam redução nos alertas no início de 2026. Ainda assim, o padrão de ocupação segue ativo. A abertura de estradas e ramais continua funcionando como vetor de acesso a áreas antes preservadas, facilitando a entrada da exploração madeireira, que por sua vez abre caminho para o desmatamento e a consolidação da grilagem. Em seguida, essas áreas tendem a ser convertidas em pasto, fechando um ciclo conhecido de ocupação da Amazônia.
Na região de Manicoré, próxima à BR-230, essa dinâmica atinge diretamente terras indígenas e unidades de conservação, como as Terras Indígenas Tenharim, Diahui, Pirahã, Nove de Janeiro e Sepoti, além de áreas protegidas federais.
A operação resultou em multas, embargos, apreensão de equipamentos e destruição de madeira ilegal. Na área da BR-319, foram aplicados R$ 2,6 milhões em autuações e embargados cerca de 817 hectares. Em outra frente, mais de 240 metros cúbicos de madeira foram apreendidos e mais de 1.300 metros cúbicos destruídos.
Segundo o superintendente do Ibama no Amazonas, Joel Araújo, a operação também ocorreu em um contexto de aumento da tensão no território. Uma equipe do órgão foi atacada na região de Manicoré, na BR-230, com a destruição de uma viatura. “Esse tipo de atitude não ficará sem resposta”, afirmou.
Araújo destacou ainda que a ação envolveu fiscalização em serrarias, áreas de exploração madeireira e também em territórios protegidos. De acordo com ele, o uso de tecnologias como drones e a atuação conjunta com outros órgãos têm contribuído para resultados recentes, como a redução de cerca de 30% nos índices de desmatamento no estado em relação ao ano anterior.
Território em disputa
A BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, é um dos principais vetores dessa pressão. Mesmo sem pavimentação completa, a expectativa de recuperação da rodovia tem impulsionado a abertura de ramais, a ocupação irregular e o avanço de atividades ilegais ao longo do seu traçado.
Estudos e monitoramentos de organizações socioambientais apontam que áreas no entorno da rodovia concentram alguns dos focos mais ativos de desmatamento no sul do Amazonas. Nesses territórios, a exploração ilegal de madeira costuma funcionar como etapa inicial de um processo que, em seguida, incorpora a pecuária e consolida a ocupação.
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Nesse contexto, a exploração ilegal de madeira não aparece de forma isolada, mas como parte de um modelo de ocupação que segue avançando sobre áreas públicas e territórios protegidos.
A Operação Maravalha integra o plano anual do Ibama para enfrentar a degradação florestal. Mas, na prática, os dados e as próprias ações indicam que o desafio vai além da fiscalização: envolve a capacidade do Estado de conter, de forma contínua, um processo que segue se expandindo na Amazônia.



