Quero falar com as mulheres

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Deixa eu poupar o teu tempo e te dizer, eu não tenho nada muito importante pra te falar. Esse texto é pra quem se perdeu um pouco nos últimos dias e tá tentando achar o caminho de volta, mas eu sei que não vou conseguir fazer isso sozinha.

Eu também sei que você não tá bem. Eu sei que você tá acompanhando de perto uma amiga, uma familiar ou uma colega de trabalho passando por uma situação de violência. Eu sei que você tá se perguntando o que mais você pode fazer. Eu sei que você está se sentindo impotente.

Eu sei que você está triste. Eu sei que você anda com medo. Eu sei que você mesma pode estar vivendo um emaranhado de violências e se perguntando como tudo isso pode parar. Eu sei que você não aguenta mais. Então eu te convido para o grito.

No começo dos anos 2000, dona Aurinha do Coco, uma mestra e cantora olindense da música popular brasileira, compôs o coco “seu grito” em homenagem a uma vizinha, vítima de feminicídio pelo ex-noivo na cidade de Olinda, Pernambuco. “Seu grito silenciou”, diz a primeira frase da música, que continua:

Moro em Olinda
Canto coco com amor
Luto contra a violência
Porque mulher também sou

Eu sou guerreira mulher
Mulher guerreira eu sou
Eu canto coco em Olinda
E canto com muito amor

Diante de um grito que silencia, a nós que aqui permanecemos com nossa voz, nos resta cantar. E gritar, se for o caso. Tem um corpo aí? Tem vida aí? Então grita. Para de ler esse texto e vai gritar. Tem gente em casa? Tá com vergonha dos vizinhos? Tá com medo de quê? É só um grito.

Mas não é só um grito. Então faz assim, põe o travesseiro na cara e grita. Grita abafado, mas grita. E se pisarem no teu calo, grita também. Se interromperem tua fala, se te falarem algo sobre teu corpo, se te tocarem sem permissão, se te gritarem, grita. Rosna. Ruge. Tem uma voz aí?

Nem sempre é sobre fazer sentido. Eu me recuso a escrever um texto analítico sobre as últimas mortes a toque de caixa de mulheres no Brasil enquanto eu nem sei direito o que isso tá significando no meu corpo e no que eu sinto. Tem tristeza, tem medo, tem raiva e tem um sentimento horroroso de falha. Falha enquanto pesquisadora, enquanto professora, enquanto profissional. E da falha vem a vergonha. Que merda de sentimento. Tá liberado falar palavrão no jornal? Ou só tá liberado contemplar mais uma morte de mulher pela tela do celular?

Assistimos a essa matança de mulheres enquanto ocorre a campanha internacional dos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher. Seria irônico, se não fosse aterrador. É muita coisa pra sentir, pouco tempo para processar e pouco espaço para expressar.

Então eu crio espaço para o grito. E grito. Na tentativa de soltar, de liberar qualquer coisa que tente me amarrar por dentro. Grito por mim, grito por todas nós. Eu tô falando literalmente. Abrir a boca e transformar em alto som esse mal estar que quer criar morada sob minha pele, sob a tua pele. Ele não vai embora completamente, mas o espaço dele fica menor.

Eu lembrei – e escutei – a música de Aurinha porque tenho pensado muito em que tipo de imagens podem, se é que podem, de alguma forma fortalecer o nosso corre na luta contra violência. Eu sei o quanto as imagens podem nos derrubar e não entendo o motivo de, em nossas trincheiras, seguirmos mobilizando imagens de cadáveres, de corpos femininos com marcas de violência, de mulheres em posições e feições de submissão. Essa parte já não está bem óbvia?

Então penso e procuro imagens de força, de resistência, de fé e de combate. Mas o que me veio primeiro foi o som. Por isso o convite para o grito. Criar espaço para o grito. Se não há muito o que a gente pode fazer pela outra ou mesmo por nós, será que dá pelo menos pra gritar? Colocar um pouquinho pra fora. Mas é metaforicamente também, tá? Ou talvez principalmente gritar como metáfora, como quebra de silêncio. Por tu, por todas nós.

A poeta caririense Jarid Arraes escreveu que “a herança mais pesada que carregamos é o silêncio”. Então grita: solta o peso, grito literal. Se desprende dessa herança, grito contra colonial. Grito de denúncia e grito de chamado. Grita. Eu quero gritar com as mulheres. Em marcha, em ciranda, em casa, na trilha, na rua, no Congresso. Eu quero gritar com as mulheres até que parem de nos matar, morte literal e morte metafórica. Sim, nós vamos sorrir e a gente vai gritar também.


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Leonísia MourA
Professora do Campus Floresta, em Cruzeiro do Sul, pesquisadora feminista e militante de direitos humanos.

leonisia.mouraf@gmail.com

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