Famílias do Acampamento Marielle Franco denunciam guarda armada privada em terras arrecadadas

Segundo relatos de lideranças enviados ao Varadouro, a Bastos Vigilância montou um “posto de controle” com a presença de homens armados. A empresa é a mesma que realiza a segurança da Fazenda Palotina. Em dezembro do ano passado, seguranças destruíram barracos de quebradores de castanha na área de conflito; famílias pedem a intervenção do Estado.
Dos varadouros de Rio Branco e de Manaus
O acirramento dos conflitos fundiários na divisa entre os municípios de Lábrea e Boca do Acre, no sul do Amazonas, atinge um novo patamar com a denúncia de um posto de guarda privada armada instalado em terras que já foram arrecadadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), nos limites da Fazenda Palotina. Varadouro recebeu registros de famílias do acampamento Marielle Franco sobre a instalação ilegal dentro de terras públicas. A comunidade, que já registra um histórico de agressões, torturas e mortes, cobra a imediata presença do Estado para garantir seus direitos e a legalidade na região.
Nos registros, os comunitários reconhecem a presença de funcionários da Fazenda Palotina, junto de trabalhadores com uniforme da empresa de segurança privada Bastos Vigilância. Em dezembro do ano passado, seguranças das mesma empresa contratada pela Fazenda Palotina derrubaram barracos e expulsaram famílias de áreas de coleta de castanha, alegando cumprir ordens judiciais sem a presença das forças oficiais de segurança ou oficial de Justiça, uma ação que é ilegal.
Os moradores do acampamento Marielle Franco filmaram a estrutura da guarda privada armada já consolidada, com caixa d’água e uso ilegal de energia elétrica.
A nova escalada ocorre em um cenário já marcado por vigilância constante, incluindo o uso de drones. Sem privacidade, os moradores passaram a ser perseguidos e vigiados inclusive em momentos de asseio pessoal, já que não há banheiros privados no acampamento.
Disparos noturnos nas proximidades das casas dos posseiros também são comuns, criando um ambiente de profunda ameaça e intimidação. A comunidade clama pela presença efetiva do Estado para pôr fim a essas ações ilegais e assegurar a tão esperada regularização de suas terras. Em março deste ano, o Incra anunciou a arrecadação de 28 mil hectares de terras para o assentamento Marielle Franco.
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Histórico de violência e omissão estatal
Desde 2019, mais de 200 famílias do acampamento Marielle Franco, localizado em Lábrea, na divisa com o Acre, buscam ser assentadas pelo governo em uma área que, segundo elas, é de propriedade da União. Em contrapartida, a família Zamora, proprietária da Fazenda Palotina, reivindica as terras. A disputa tem sido palco de violência extrema, com denúncias de tortura, tentativas de homicídio e ataques a residências.
Em março de 2024, agricultores foram torturados por homens vestidos de preto que se identificavam como policiais do Bope. Moradores relatam que seus barracos são constantemente queimados e que foram alvo de disparos de armas de fogo por pistoleiros que, afirmam, estariam a serviço do fazendeiro. Mizael Magalhães de Araújo, posseiro, descreveu um caso em que o pai de um amigo foi torturado por horas e sufocado com sacos plásticos.
A gravidade da situação foi evidenciada com a morte de José Jacó Cosotle, 55 anos, morador do acampamento, encontrado com um tiro no queixo em janeiro deste ano, após sair para coletar castanhas. A região, onde “mortes acidentais” geram suspeitas devido ao histórico de violência, carece de perícia adequada pela ausência de serviços do Instituto Médico Legal (IML) e da polícia científica.
Um dos proprietários da Fazenda Palotina, Sidney Sanches Zamora Filho, chegou a ter sua prisão preventiva decretada pela juíza federal Maria Elisa Andrade, com o objetivo de “resguardar a ordem pública”. Ele é alvo de investigações por suspeita de grilagem de terras públicas no sul do Amazonas, envolvendo também o cartório de Lábrea e até servidores do próprio Incra. No começo do ano, seus advogados obtiveram um habeas corpus, o que garante a sua liberdade.
O pai, Sidney Zamora, também responde a processos por esbulho e ameaça. Moradores do acampamento Marielle Franco relatam que era comum ouvir disparos de arma de fogo dentro da Fazenda Palotina, que eles interpretavam como uma forma de intimidação. Outro relato comum é a presença de drones usados para “patrulhar” a área ocupada pelos agricultores.
No começo de julho, Zamora Filho publicou artigo no jornal “O Globo” com o título “O Agro não pode ficar no meio da disputa política”.
O descaso do Estado na Amacro
A região da Amacro, que abrange 45 milhões de hectares e 32 municípios entre Amazonas, Acre e Rondônia, é caracterizada pela completa ausência do Estado, sendo descrita como um “território de ninguém” ou um “faroeste amazônico” onde a pistolagem impõe a vontade dos poderosos. Apesar da arrecadação de quase 30 mil hectares de terras pelo Incra na região da Fazenda Palotina e adjacências, o órgão no Amazonas ainda não iniciou os trabalhos oficiais para a criação de assentamentos, deixando os agricultores à mercê da violência na tentativa de ocupar as terras para garantir seus lotes.
Lideranças como Cosme Capistrano da Silva, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Boca do Acre, denunciam que a falta de reforma agrária empurra o povo a ocupar terras “na marra”, sendo então expulsos “na bala” pelos latifundiários. A coordenadora da CPT no Acre, Darlene Braga, ressalta que o Incra só age sob pressão e que, ao arrecadar terras, as deixa “ao deus-dará” sem o devido acompanhamento e implementação de políticas.
Varadouro entrou em contato com o Incra do Amazonas por meio da assessoria de imprensa e aguarda o retorno para publicação da resposta.
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