APROXIMAÇÕES

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Câmeras registram indígenas isolados em comunidade no Jordão; episódio reacende alerta sobre proteção territorial

Grupo levou alimentos e utensílios de uma residência, segundo moradores. Presença desses povos na região é conhecida há anos e seus deslocamentos ultrapassam os limites das áreas oficialmente destinadas à sua proteção; intensificação de atividades predatórias na fronteira Brasil-Peru ameaça territórios dos isolados

Câmera registra o momento em que indígenas isolados vão até casa localizada em área rural do município de Jordão; aproximação reacende alerta sobre cuidados com a proteção territorial na Amazônia (Foto: Reprodução G1/Acre)



dos varadouros de Rio Branco

Câmeras de segurança registraram a presença de indígenas isolados na comunidade Santa Cruz, na Colônia do Barrote, no limite da Terra Indígena Kaxinawá do Seringal Independência, no município de Jordão, interior do Acre. Segundo nota da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), o registro ocorreu no último dia 20. Moradores relataram que o grupo entrou em uma residência e levou alimentos e utensílios básicos.

O episódio chama a atenção para a necessidade de proteger os territórios percorridos por esses povos e prevenir situações de risco tanto para eles quanto para as comunidades vizinhas. A presença de indígenas isolados nessa região do Acre é conhecida há anos, conforme a organização, e não se resume às imagens recentes.

Durante o verão amazônico, vestígios de sua circulação também são encontrados na parte mais alta da Terra Indígena Kaxinawá do Rio Jordão. Esses registros, explica a CPI-Acre, reforçam relatos antigos e demonstram a importância de compreender seus deslocamentos e preservar as florestas das quais dependem para sobreviver.

A nota não identifica o povo ao qual pertence o grupo registrado pelas câmeras nem estabelece uma causa para a aproximação da comunidade.

A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informou que mobilizou uma equipe para apurar relatos e imagens que sugerem a entrada de indígenas isolados na comunidade Santa Cruz. Segundo o órgão, a Coordenação da Frente de Proteção Etnoambiental Envira tomou conhecimento do episódio em 20 de outubro, por meio de servidores da Base de Proteção Etnoambiental D’Ouro. As informações preliminares incluem fotografias e vídeos captados por câmeras de monitoramento de propriedades locais.

Os técnicos mobilizados já participavam, desde 14 de outubro, de uma expedição de monitoramento territorial no alto rio Muru, em comunidades próximas à área de ocupação tradicional do grupo identificado nos registros da Funai como “Isolados/Cabeludos do Humaitá”. 

A atividade busca acompanhar os deslocamentos desses povos, identificar pressões e riscos e orientar moradores sobre o respeito aos seus territórios. Com apoio das estruturas locais de proteção, a equipe foi deslocada até Santa Cruz para iniciar os protocolos institucionais de acompanhamento.


Além dos limites de proteção

De acordo com a CPI-Acre, o estado possui quatro áreas oficialmente reconhecidas para a proteção dos povos indígenas isolados, que somam cerca de 636 mil hectares. Seus deslocamentos, porém, ultrapassam essas áreas e alcançam outras terras indígenas e unidades de conservação.

A proteção precisa considerar essa circulação pela floresta. Os limites administrativos não encerram os caminhos, as fontes de alimentação e os espaços necessários à continuidade de seus modos de vida.

Há anos, indígenas Huni Kuĩ e Manxineru das terras indígenas Kaxinawá do Rio Humaitá e Mamoadate monitoram a presença e os deslocamentos desses povos. Segundo a organização, o trabalho contribui com as ações da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), fortalece a vigilância territorial e ajuda a prevenir situações de risco, respeitando o direito ao isolamento voluntário.

Desde julho de 2024, os Mashco Piro passaram a ser vistos com mais intensidade pelas comunidades indígenas do Peru; invasão do território por madeireiras empurra os “desconfiado” para mais perto dos aldeados (Foto: Surival International)


Aproximações acompanhadas pelo Varadouro

Em julho de 2023, o Varadouro noticiou uma aproximação de isolados na região da aldeia São Vicente, na TI Kaxinawá do Rio Humaitá, em Feijó. Na ocasião, moradores encontraram uma cesta com uma variedade de milho que, segundo os relatos, não era cultivada nos roçados locais. Especialistas ouvidos pela reportagem interpretaram o gesto como uma possível iniciativa de troca por ferramentas e outros utensílios.

Na fronteira com o Peru, outras reportagens do jornal acompanharam as aproximações dos Mashco Piro de comunidades Yine – povo conhecido como Manxineru no Brasil – e as ameaças da exploração madeireira sobre seus territórios.

Em outubro de 2024, lideranças da TI Mamoadate relataram à CPI-Acre que isolados haviam levado ferramentas, panelas e roupas de uma casa na aldeia Extrema. Esses episódios têm circunstâncias próprias e não permitem identificar o grupo registrado agora no Jordão.


Uma fronteira de territórios ameaçados

A fronteira Brasil-Peru reúne uma das maiores concentrações de povos indígenas isolados do planeta. Nessa faixa amazônica está a Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, que abriga a maior concentração conhecida desses povos no mundo, segundo o Ministério Público Federal.

A exploração madeireira e a abertura de acessos à floresta estão entre as pressões documentadas pela cobertura do Varadouro no lado peruano. Projetos de infraestrutura, como a ligação rodoviária entre Cruzeiro do Sul e Pucallpa, também suscitam preocupações pelos impactos sobre territórios indígenas e áreas de circulação de isolados. Esse contexto regional, contudo, não comprova a origem da aproximação registrada em Jordão.

Diante do novo registro, a CPI-Acre defende o fortalecimento da proteção territorial, da vigilância e das políticas públicas, com reconhecimento e apoio aos indígenas que realizam o monitoramento.

“É fundamental que o Estado fortaleça a proteção territorial, a vigilância e as políticas públicas voltadas a esses povos”, afirma a organização. A entidade também cobra a garantia do direito de viver sem contato imposto e a preservação das florestas que sustentam seus modos de vida.

Sobre o autor

Fábio Pontes

Fabio Pontes é jornalista acreano, nascido e criado pelas curvas do Aquiry.
Escreve sobre temas relacionados à Amazônia, populações da floresta, política e temas da fronteira pan-amazônica.

É o refundador e editor-executivo do Varadouro
fabiopontes@ovaradouro.com.br

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