
Jéssica Sales (MDB) e Zequinha Lima (PP) – os dois únicos postulantes à prefeitura – apresentam apenas propostas genéricas para as políticas de meio ambiente. As tradicionais promessas que não saem do papel para resolver gargalos históricos, como a coleta de lixo, sua correta destinação, tratamento do esgoto e arborização. Propostas não falam de como deixar Cruzeiro do Sul mais resiliente ao novo normal do clima.
Fabio Pontes
desde os varadouros de Rio Branco
Enquanto Cruzeiro do Sul é intensamente impactada, ano após ano, por um novo ambiente climático que impacta a sua população urbana e rural com grandes enchentes e secas severas, os dois únicos candidatos a prefeito da segunda maior cidade acreana parecem desconsiderar esta nova realidade em seus planos de governo. As propostas para a área de meio ambiente – tanto de Jéssica Sales (MDB) quanto de Zequinha Lima (PP) – apresentam o mais do mesmo: políticas para tratamento de resíduos sólidos, coleta seletiva, esgotamento sanitário e arborização. Problemas graves históricos, mas que nunca foram resolvidos na cidade de 120 anos recém-completados.
Os postulantes à prefeitura da “capital do Juruá” parecem um pouco desconectados do “novo normal” do clima – além das pressões e das ameaças sobre o avanço do desmatamento e das queimadas num dos municípios mais bem preservados da Amazônia. Em 2024, por exemplo, Cruzeiro do Sul ficou por vários dias com concentração elevada na atmosfera de material tóxico das queimadas. A cidade ficou tomada pela fumaça.
No acumulado do ano, Cruzeiro do Sul ocupa a terceira posição entre os 22 municípios acreanos com mais registro de focos de queimadas – 655. Perde apenas para as já recordistas Feijó e Tarauacá – municípios que desde 2019 apresentam elevados níveis de devastação da Floresta Amazônica. Está à frente da capital Rio Branco, cujo entorno já está bastante consolidado (leia devastado) pela atividade agropecuária.
Ainda em 2024, Cruzeiro do Sul foi impactada por eventos climáticos extremos. No começo do ano, uma grande alagação do rio Juruá atingiu comunidades rurais e urbanas. As ribeirinhas são as mais afetadas, ao perderem seus roçados e criações. Nos últimos meses, o fenômeno tem sido outro: a seca severa que deixou o manancial em níveis críticos de vazante, e comprometeu a segurança hídrica e alimentar da população rural.
Os verões mais intensos e prolongados ainda ameaçam a produção da agricultura familiar, com o surgimento de pragas mais resistentes que ameçam os roçados de macaxeira. Foi o que aconteceu em 2023, com a praga do mandarová, que destruiu roçados inteiros e deixou muitas famílias apreensivas.
Candidato à reeleição, Zequinha Lima não trata com profundidade sobre esta nova realidade climática. Apesar de abordar o tema “enfrentamento das mudanças climáticas”, não deixa claro como Cruzeiro do Sul e sua população estariam mais resilientes. Por exemplo, o problema histórico de quase todos os anos os bairros próximos (Miritizal, Lagoa e outros) ao rio serem atingidos pelas alagações. Nestas áreas, os próprios moradores fizeram suas adaptações, ao construírem casas mais distantes do nível do solo.
O ponto mais próximo para de fato minimizar os impactos é o que trata do reflorestamento das nascentes de rios e igarapés. O desmatamento destas áreas é um dos fatores a provocar o assoreamento dos mananciais, que aumentam as chances de grandes cheias e secas. Outra proposta de Zequinha Lima é elaborar o “Plano Diretor de Drenagem diretrizes, metas, investimentos e as obras necessárias com o objetivo de impedir os efeitos e prejuízos causados pelas inundações, enxurradas e alagamentos”.
Para o tratamento do lixo, as promessas são – caso seja reeleito – a elaboração do projeto do aterro sanitário e a ampliação dos pontos de coleta de materiais recicláveis.
Quanto ao combate aos crimes ambientais, Zequinha Lima propõe “ampliar a equipe de fiscalização ambiental e aprimorar os procedimentos de monitoramento e autuação de infrações”. Ações estas que, talvez, tenham falhado (ou faltado) durante os seus quatro anos de gestão. O resultado foi uma cidade completamente tomada pela fumaça das queimadas que ocorrem de forma indiscriminada nos arredores de Cruzeiro do Sul.






